Com Iaiá Garcia Machado de Assis concluiu aquela que os estudiosos chamaram de fase romântica, onde se incluem também os romances Ressurreição, A mão e a Luva e Helena. Nele, seus personagens gravitam em torno de questões de classe, da ascensão social, da ambição da mudança. As intrigas se desenvolvem numa sociedade hierarquicamente diferenciada, preconceituosa. Neste ambiente ele cria seus personagens e prepara-se para escrever os livros que o imortalizaram como um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba.
Joaquim Maria Machado de Assis, often known as Machado de Assis, Machado, or Bruxo do Cosme Velho, (June 21, 1839, Rio de Janeiro—September 29, 1908, Rio de Janeiro) was a Brazilian novelist, poet, playwright and short story writer. He is widely regarded as the most important writer of Brazilian literature. However, he did not gain widespread popularity outside Brazil in his own lifetime. Machado's works had a great influence on Brazilian literary schools of the late 19th century and 20th century. José Saramago, Carlos Fuentes, Susan Sontag and Harold Bloom are among his admirers and Bloom calls him "the supreme black literary artist to date."
Em minha opinião, a melhor obra da fase romântica de Machado de Assis embora ainda não tenha lido «Ressurreição», mas - não confiem em mim -, pois digo sempre o mesmo quando leio o meu Machadão! Excelente como desenvolve os preconceitos sociais e a personalidade das mulheres perante a sociedade da época e os seus objectivos em relação ao amor.
«Das qualidades necessárias ao xadrez, Iaiá possuía as duas essenciais: vista pronta e paciência beneditina; qualidades preciosas na vida, que também é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras perdidas, outras nulas.»
Iaiá valorizava o dinheiro e o estatuto social como condições básicas para a felicidade no amor e, apesar de muito jovem, sabe manipular as outras personagens.
Estela Antunes, por seu lado, orgulhosa, diz não aceitar um casamento com um homem de classe superior à sua nem como reparação . [Se eu fosse Machado, teria intitulado o livro «Estela Antunes»]
Valéria Gomes é a rica e poderosa a quem todos prestam vassalagem com elogios hiperbólicos ou silêncios oportunos e contrariados.
Era no tempo da guerra entre o Brasil e o Paraguai (1865-1870). Valéria - por razões “patrióticas”-, envia o filho, Jorge, para aquele conflito para evitar o casamento entre ele e Estela, sua protegida. Jorge vai não tanto por obediência filial, mas para recuperar a estima de Estela e redimir-se de um acto de atrevimento (um beijo forçado).
Quando regressa da guerra, Jorge encontra Estela casada com Luís Garcia, pai de Iaía. Jorge continua a amar Estela mas de modo respeitoso; Estela é fiel ao marido, mas sente ciúmes de Iaía, que gradualmente ganha destaque junto de Jorge. Luís Garcia morre. Estela fica viúva e Iaiá órfã.
E Jorge? Casa. Com quem?
Em «Iaiá Garcia» também encontramos uma visão crítica do momento histórico brasileiro no final do século XIX através da personagem Procópio Dias:
«Procópio Dias tinha dois credos. Era um deles o lucro. Mediante alguns anos de trabalho assíduo e finuras encobertas, viu engrossarem-lhe os cabedais. Em 1864, por um instinto verdadeiramente miraculoso, farejou a crise e o descalabro dos bancos, e retirou a tempo os fundos que tinha em um deles. (...) Ora, o segundo credo era o gozo. Para ele, a vida física era todo o destino da espécie humana.»
Sabemos estar perante uma boa história quanto ela nos fica a matutar na cabeça muito depois de terminada. Machado não nos entrega histórias redondinhas nem personagens rasas, umas e outras surpreendem e nem sempre pelas melhores razões, e é isso que nos tira o sossego.
"Tinha já certeza de que o passado era pouca coisa e de que o futuro seria coisa nenhuma."
As palavras são de Iaiá mas podiam ser de qualquer uma das personagens de Iaiá Garcia, todas elas tiveram de alguma maneira a vida e a felicidade comprometidas. E, para mim, a grande figura desta história não foi Iaiá, foi Estela.
O foco dessa narrativa são as dimensões psicológicas dos personagens, é instigante a maneira como eles dissimulam e penetram a mente daqueles com quem convivem. Além disso, os plots são imprevisíveis, brincam com as expectativas do leitor deixando-o ávido por mais e mais páginas.
Embora o romance se passe no Rio de Janeiro, como de praxe, agora Machado de Assis não dá destaque aos circuitos sociais da Corte brasileira, optando por contar a história da família Garcia e do seu círculo de familiares e de agregados, num relato que só não é mais prosaico por conta das referências à Guerra do Paraguai.
De resto, o autor mantém os elementos próprios dessa fase de Realismo incipiente, como a rica construção das personagens, contemplando um intervalo temporal que permite o amadurecimento - ou ao menos alguma mudança nas motivações, no modo de ver a vida - em cada uma delas. Certamente, não é uma das grandes obras de Machado, mas entretém e ajuda a compreender a evolução do próprio autor.
Como usual, é sempre um prazer ler Machado e não foi diferente aqui, uma vez que sendo a obra mais uma do ciclo romântico do autor, é possível encontrar o mesmo que já haviamos visto em A mão e a Luva, Ressurreição e demais obras machadianas. Com o foco no casamento, no amor (frustrado), no drama e na família, em Iaiá Garcia, Machado une o sacrifício, a guerra, o orgulho e os bons sentimento humanos para compor um inusitado triângulo amoroso que acompanha a narrativa do início ao fim, de modo a não deixar o leitor prever o que há de ocorrer.
Eu certamente teria gostado mais de um desenlace diverso do que ocorreu, mas ainda assim, foi ótimo ver, novamente, o trato de Machado com suas personagens femininas, a questão psicológica abordada e a vida cotidiana carioca. Ademais, se em Isaú e Jacó, Machado constatemente conversa com o leitor, aqui faz diverso, é preciso estar atento para não ser atropelado pelas reviravoltas. A mim, uma ótima leitura.
Última fanfic do Machado :( vou sentir saudades! Em Outubro, entramos na fase realista. Mas já deu pra ver que todas as protagonistas são quase um ensaio pra rainha Capitu.
Se eu dou 2 estrelas, é pelo começo fofo e porque não tenho coragem de dar menos pro Machado, mas que terminar essa leitura foi sofrido, foi. O enredo só tomou rumo na última parte, os personagens eram todos chatíssimos, literalmente nada me inspirou. Tem um pouco de ironia, principalmente considerando como acabam os casais e amores, em relação a como começaram. Pensar na questão de crítica de classe é interessante, mas também nada grandioso, nem perto de outras obras-primas do autor
Obra que se encontra no interstício entre a fase romântica e o realismo de Machado, bem representada pela fala da personagem Estela: “Creio que nenhuma paixão nos cega, e se nos casamos é por nos julgarmos friamente dignos um do outro”. Aqui, os relacionamentos romanescos são substituídos pela frieza racionalista de um jogo de xadrez que, se bem jogado, logrará êxito em função de movimentos calculados. O desenvolvimento do personagem Jorge elucida este movimento do idealismo sentimental ao realismo possibilitado pela experiência vivida na Guerra do Paraguai: “não basta que o coração lhe diga: ame a este; é preciso que os olhos aprovem a escolha do coração. (...) Não se deixe levar dos primeiros olhos que pareçam responder aos seus”. Certamente, não há qualquer acaso no fato do jogo de xadrez ser eleito como o favorito da personagem Iaiá Garcia, menina geniosa que inicia a trama com onze anos e, ao final, tem dezessete. A ela, Machado autoriza o romanesco, dada a idade, mas agora convivendo ao lado dos “movimentos racionais no tabuleiro de xadrez”. O Machado platônico dá lugar ao Machado aristotélico. . A alusão à Guerra do Paraguai deixa entrever a preocupação do autor com os problemas que estampavam as capas dos jornais que publicavam seus folhetins. Faz uso então do melodrama como forma de acesso aos problemas nacionais, que darão a tônica da estética realista. A esse respeito, vale salientar alguns aspectos verificáveis a partir da leitura de “Iaiá Garcia”: (1) Ausência de uma identidade nacional propriamente brasileira (este era um dos maiores debates intelectuais à época) em fins do século XIX, verificada no fato de que os "interesses patrióticos" são secundários quando comparados às aspirações pessoais dos militares durante a Guerra do Paraguai; (2) A Guerra do Paraguai e a carreira militar como possibilidades de ascensão social, não propriamente econômica, mas certamente em termos de prestígio. Tínhamos mais um exército de mercenários do que propriamente um exército nacional, tal qual pressupõe a ideia de Estado-nação; (3) Vale lembrar do programa estatal "Voluntários da Pátria" que, entre outras coisas, assegurava alforria aos escravos que fossem lutar no Paraguai e retornassem com vida.
Até agora, é o melhor romance de Machado De Assis que li. Como os outros, este também está cheio do olhar sagaz do escritor sobre o caos e a natureza humanas, o eclipse das emoções, nossas parcas habilidades em nos esconder e nosso reconhecimento em pertencer a uma sociedade atemporal (que só podemos conhecer através dos livros, porém). Machado De Assis me dá saudades de um mundo que não vivi, mas que conheço, contudo. ‘Iaiá Garcia’ é como os outros, sim, mas tem um quê a mais. Aqui, os personagens cativam. A alteridades é latente. A melancolia do escravo, a menina que faz graça, a conduta apropriada, a possibilidade de crescer, o fraco de caráter, e, como o próprio Machado asserta, a coisa que ‘escapa ao naufrágio das ilusões’. Um grande romance para tardes de chá e chuva, que nos leva de volta a um Brasil tão nosso e tão distante.
O livro em si não foi inesquecível, faz parte da fase romântica do autor e aborda a ambição, o desejo de ascenção social, temas quase sempre presentes em seus livros. Para mim, o livro foi marcante por dois motivos: por ter sido meu primeiro Machado de Assis e por ter sido o primeiro livro que li ao começar a usar óculos, estava na sétima série. Jamais me esquecerei da alegria ao passar a enxergar as letras mais graúdas e nítidas e descobrir que o colorido do mundo era maior do que eu me acostumara a ver.
Mais um livro da série "Variações sobre o mesmo tema: romances para quem não tem diabetes!", a obra revisita situações já exploradas pelo autor, das quais, a rigor, diferem apenas nas soluções apresentadas. Nem a maestria estilística machadiana consegue salvar a leitura do tédio.
Poderia facilmente ser o livro mais chato que eu já tive que ler se não fosse escrito por Machado de Assis. O enredo é chato em itálico e poderia ser resumido em dois parágrafos, mas algo na escrita do Machado o torna suportável. Felizmente, os últimos quatro capítulos do livro são excelentes. Tudo que não acontecia até então acontece de uma vez. A trama é construída sem pressa, às vezes até mesmo com pouca clareza, mas tudo levando a uma boa exemplificação de como é a vida em família e as perspetivas sociais do século XIX. Tive que morder a língua de tudo que critiquei na obra até então quando cheguei a esses últimos capítulos - achei-os extremamente interessantes, apesar de seus temas bobos. A execução foi muitíssimo bem feita e elevou o tema banal em algo que prende o leitor. Foi uma leitura que me surpreendeu muito positivamente.
É incrível as histórias que envolvem as histórias das histórias. O leitor sente fome ao passar por cada página, querendo mais e mais. Como uma colcha de retalhos, o narrador tece cada camada chegando até a ludibriar os olhos do leitor. Cada personagem se desvenda em jogos psicológicos riquíssimos. Por cima da “colcha” sentimos um plot romancista e quando menos esperamos tomamos um balde gelado; balde este que fora lindamente construído e criado por Estela; personagem que me envolveu muito nesta segunda leitura... Poder das classes, lugar de fala, a mulher e seus papéis... jogos e mais jogos psicológicos e uma escrita incrivelmente bela.
Com um capítulo que só serve pra encher linguiça, e uma desconstrução de personagem pra ter mais algumas páginas, esse livro definitivamente poderia ser bem melhor...
Último livro da fase romântica do Machado, foi publicado em 1878. Não como livro completo, mas como folhetim de jornal.
Dessa fase machadiana, Iaiá Garcia, foi o que mais gostei. Diria que o que mais gosto por trás do romance (idealização do amor) que envolve os personagens Iaiá, Jorge e Estela, é a presença dos jogos psicológicos. Também gosto de como Machado coloca centralidade nos personagens femininos - sempre diferentes, cuja personalidades (me parecem) estão além do seu tempo.
Um bom romance do período inicial de Machado de Assis, relatando as dificuldades de um amor que não se realiza devido a diferença social. Vale a pena a leitura para conhecer a obra desse grande escritor.
Até o momento em que pus os meus olhos em Iaiá, na rodoviária da minha cidade, jamais tinha ouvido falar sobre ele. Naquele dia, 5h30 da manhã, enquanto esperava o ônibus, o livro, com esta mesma capa, chamou a minha atenção. Apesar de carregar a versão em inglês de Norte e Sul, não pude evitar de pegá-lo, para devolver depois, conforme o projeto municipal daqui,
Enfim, o ultimo livre do Romantismo de Machado de Assis conta a história da bela Iaiá Garcia, uma menina criada com muito amor por seu pai, Luís Garcia. Luís é muito amigo da família de Jorge, cuja a mãe ajudou a criar a jovem Estela.
Ocorre que, a mãe de Jorge, apesar de gostar muito da moça, não concorda muito com o casamento de Jorge e Estela. Para separá-los, com ajuda de Luís, decide mandar o rapaz para a Guerra do Paraguai.
Passados os anos, Iaiá já não é mais uma garotinha. A guerra acaba, e Jorge volta para sua casa. Entretanto, qual será a sua surpresa ao encontrar Estela casada com Luís e, portanto, madrasta de de Iaiá?
O que mais me chamou a atenção neste livro é a citação da Guerra do Paraguai. Apesar de rápida, são poucas as menções (até onde eu sei), em nossa Literatura desse episódio. Caso você conheça outro romance que tenha como plano de fundo este evento, por favor, não deixe de comentar.
Não poderia passar despercebido que, apesar do título, a história foca muito mais em Estela e Jorge, o que me lembrou muito do triste fim do casal de Grandes Esperanças, onde a protagonista também se chama Estela.
Uma das coisas mais interessantes que vejo nesses romances do Machado de Assis é a disposição dos personagens ao sacrifício, seja ele por um parente, por uma posição social ou por puro orgulho. O que mais se vê é cálculo nas ações. Iaiá Garcia é um bom livro, embora admita que me entusiasmei somente após a metade dele. As personagens femininas, como nos outros livros, são mais profundas e controladas do que os homens, em geral apaixonadamente afoitos na ação e embotados no entendimento. Mas há crescimento na maturidade de Jorge durante o romance. E a pena de Machado está cada vez melhor, conforme os livros vão aparecendo. Achei esse parágrafo primoroso:
Jorge não se iludia acerca da paixão do pretendente; supunha-a sincera, mas não lhe atribuía a virgindade das primeiras ou das segundas comoções: era uma paixão da última hora, um ocaso ardente e abraseado entre o dia que lá ia, e a noite que não tardava a sombrear tudo. Ainda assim a aliança lhe parecia conveniente. Iaiá possuía decerto a força necessária para dominar desde logo o marido; e o titão encadeado teria ao pé de si, em vez de um abutre a picar-lhe o fígado, uma formosa rola destinada a prolongar-lhe as ilusões da juventude.
Quatro estrelas porque Machado vem a tratar de um assunto que, mais para frente, tornou-se predominante em sua obra realista e porque Iaiá Garcia não foi lá uma personagem capaz de me cativar (não como Giomar ou Sofia). Da obra romântica do autor, Iaiá Garcia é a história que mais flerta com a verdadeira escrita realista que vem em seguida com Memórias Póstumas. Enquanto Helena me pareceu um ponto fora da curva, Iaiá Garcia é bom em explorar a crueldade humana e o desejo de ascensão predominante em alguns, afinal, o que dizer de mães que mandam seus filhos para guerra para que estes não se casem com pessoas de círculos sociais diferentes? É certo, também, de que existe certo romance em Iaiá Garcia, no entanto, Machado nos poupa de maiores aflições típicas do romantismo. Em suma, um bom livro.
Beautiful and sad love story. It is not meant to be one of Machado's best books, but I enjoyed the description of the love that could have been and wasn't because of the Estela's stubborn pride. Quite a perceptive description of social rules in the XIX century, which seem so out of place now... Makes me wonder which of our current rules will be outdated in a hundred and fifty years...
Está longe de ser o melhor livro do Machado, na verdade, é um livro bem mediano, mas seria o melhor livro de centenas de escritores. Consigo ver uma hesitação na realização de elementos que depois se tornam marcantes na literatura de Machado.