Mann, Thomas, Mário e o Mágico, 1930
Em “Mário e o Mágico”, Thomas Mann faz-nos refletir sobre o poder de sombrios líderes políticos que, pelo carisma e verborreia fácil, atraem e ludibriam as massas populares.
Ainda que a personalidade de Cipolla, o mágico desta novela, seja a todos os níveis repugnante, ainda que os atos que exige da sua audiência constituam uma violação feroz da honradez e da virtude, sendo executados contra a vontade de muitos e o espanto de todos, a verdade é que, pelo seu magnetismo, alcança a subjugação completa dos presentes, qual Flautista de Hamelin dos tempos modernos.
No final do espetáculo que encena para a comunidade e para os forasteiros de Torre di Venere, Cipolla é assassinado às mãos de Mário, jovem de origem humilde, que, profanado no seu mais íntimo ser, intenta esse gesto libertador, testemunhado nestes termos pelo narrador: “um fim horrível, um fim extremamente fatídico. E, no entanto, um fim libertador- não pude nem posso deixar de senti-lo desse modo!”
As recensões críticas desta obra vêem-na como uma parábola sobre a ascensão do fascismo em Itália e na Alemanha, nos anos que antecederam a segunda guerra mundial, e reconhecem Mussolini e Hitler na figura de Cipolla; algumas estabelecem, também, o paralelismo com o início deste nosso novo século que assiste, enfeitiçado e sem resposta, à crescente popularidade dos simpatizantes da extrema-direita; outras, mais recentes, sublinham as semelhanças entre Cipolla e o presidente americano, Donald Trump:
“Mas devo salientar que seria impossível falar-se no seu porte, na sua atitude, nos seus gestos, no seu comportamento, de jocosidade pessoal ou mesmo de palhaçada; nele era antes evidente uma rigorosa gravidade, uma rejeição a todo o tipo de piadas, um orgulho ocasionalmente mal humorado e ainda aquela espécie de dignidade e presunção do aleijado – o que não impediu que, a princípio, o seu comportamento provocasse o riso em vários pontos da sala.
Este comportamento não tinha nada de solicitude: a rapidez dos seus passos à entrada realçava apenas uma expressão de energia em que não havia o mínimo de subserviência. Em pé, no proscénio, desembaraçando-se das luvas com puxões indolentes, punha a descoberto as mãos compridas e amareladas ornadas por um anel-sinete com uma pedra saliente lacada, deambulava pela sala os seus olhinhos papudos, com ar perscrutador, sem pressa, detendo-se aqui e ali num rosto que examinava pensativamente – com a boca crispada e sem dizer uma palavra. “
“ Depois de ter tirado a cartola de seda, o cachecol e o casaco, voltou ao proscénio, ajeitando a casaca, puxando para fora os punhos da camisa apertados com grandes botões e pondo em ordem a sua faixa de impostor. O cabelo era pavoroso: a parte superior do crânio estava quase calva e apenas um exíguo penteado de risca atrás, empastado de brilhantina preta corria, como grudado, da catarucha da cabeça até à frente, enquanto o cabelo das fontes, também enegrecido , estava esticado até aos cantos dos olhos- o penteado talvez de um diretor de circo antiquado, ridículo, mas de qualquer forma adequado a um estilo de personalidade que dá nas vistas e usado com tanto aprumo que a sensibilidade pública se conteve e ficou muda perante a sua comicidade.”