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Descobrira uma acidental cápsula do tempo. Estava naquele espaço à procura do excepcional na loucura e acabava por encontrar o absolutamente corriqueiro. Os objectos da caixa recordavam-me que a maior parte dos que sofrem de doença mental não são artistas nem criminosos, nem geniais, nem perigosos. São como nós. Somos nós.
Catarina Gomes fala numa espécie de voyeurismo por trás da sua vontade de apurar a identidade e escrever sobre a vida e o internamento dos donos dos objectos abandonados que encontrou no Hospital Miguel Bombara, mas a forma respeitosa como os recria devolve-lhes a dignidade, o que para mim é exactamente o oposto de voyerismo. Os oito retratos que a autora compõe causaram-me não só indignação, porque há “alienados” que nunca o foram, como o rapaz que sofria de epilepsia, como também uma forte comoção, como no caso de Leopoldina de Almeida, uma viúva detida por indigência, e de Simão de Carvalho de Proença, que se evadiu para tentar regressar a casa passados 40 anos.
Se Simão de Carvalho Proença tivesse conseguido chegar ao sítio para onde se destinaria naquele dia, quando seguia junto à linha de caminho-de-ferro, o que procuraria já teria ido abaixo. (...) No nº 31 da Avenida António Enes, em Queluz, fica hoje um prédio de escritórios ao abandono com um centro comercial no rés-do-chão.
É frequente queixar-me que em Portugal se receitam demasiados psicotrópicos, que se distribuem indiscriminadamente sem dar apoio psicológico às pessoas, para ao menos tentar descobrir-se a raiz do problema, mas ao perceber os motivos por que eram internados e como eram tratados os doentes do Miguel Bombarda, admito que eles são um mal menor que, ao menos, permitem que as pessoas sejam funcionais e vivam em liberdade. Numa altura em que os doentes eram internados com o único objectivo da contenção física, em que não havia terapias ocupacionais e os únicos tratamentos que se aplicavam eram práticas invasivas como a lobotomia e os choques elétricos, era habitual acabarem por morrer lá ou terem alta somente para serem transferidos para asilos de mendicidade até ao fim dos seus dias.
A visão terrificante dos velhíssimos e degradados ‘pátios’ onde circulavam (...) todas as ‘espécies’ de cronicidade desoladora dos ‘incuráveis’ asilares cuja única esperança era a morte por tuberculose, disenteria, acidentes...
É de grande mérito este trabalho quase de detective da jornalista Catarina Gomes que, a partir de objectos aparentemente banais e inócuos, consegue recriar o percurso de pessoas que viram a sua vida interrompida.