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Coisas de Loucos: O Que Eles Deixaram no Manicómio

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Uma caixa de objectos abandonados no Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda contém as pistas para resgatar do esquecimento a vida de doentes que ao longo de décadas ali permaneceram confinados.
Coisas de Loucos teve origem na descoberta acidental de uma caixa de objectos de antigos doentes do primeiro hospital psiquiátrico português, o Miguel Bombarda.

Catarina Gomes inicia então uma série de investigações para encontrar os «loucos» a quem pertenciam esses objectos abandonados. Nascidos entre o final do século xix e o começo do século xx, muitos foram admitidos em «Rilhafoles», nome original do Bombarda. Os psicofármacos e a terapia ocupacional não tinham ainda sido inventados, e por isso o único «tratamento» que receberam foi o do isolamento.

Mas antes de serem forçadas ao confinamento estas pessoas tiveram família, amores, trabalho, tiveram planos de futuro. São essas suas vidas que Catarina aqui resgata do esquecimento.

327 pages, Paperback

First published May 1, 2020

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About the author

Catarina Gomes

6 books155 followers
Catarina Gomes é autora de quatro livros de não-ficção e do romance «Terrinhas» (Gradiva, 2022), ao qual foi atribuído o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís.
«Coisas de Loucos» (Edições Tinta da China, 2020) tem como fio condutor uma caixa de objectos pessoais de antigos doentes deixada no hospital psiquiátrico Miguel Bombarda. Em «Furriel não é nome de pai» (Edições Tinta da China, 2018) quebrou um tabu, contando a história dos filhos que os militares tiveram com mulheres africanas e que deixaram para trás. Em «Pai, tiveste medo?» (Matéria-Prima Edições, 2014) aborda a forma como a experiência da Guerra Colonial chegou à geração de filhos de ex-combatentes. As três obras foram incluídas no Plano Nacional de Leitura. Tem contos publicados na revista Granta (Sono/Sonho, 2021) e no livro «Contágios» (editora Visgarolho, 2022). No seu último livro, «Um dedo borrado de tinta» (2024), editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, conta a história de pessoas que nunca puderam aprender a ler.
Jornalista do Público durante quase 20 anos, as suas reportagens receberam alguns dos prémios mais importantes na área, como o Prémio Gazeta (multimédia). Foi duas vezes finalista do Prémio de Jornalismo Gabriel García Márquez e recebeu o Prémio Internacional de Jornalismo Rei de Espanha.
www.catarina-gomes.com

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Displaying 1 - 30 of 177 reviews
Profile Image for Rita da Nova.
Author 4 books4,662 followers
Read
March 18, 2025
«Há muito tempo que não lia nada escrito com tanta empatia e cuidado, sem deixar de pôr o dedo na ferida quando assim tem de ser. Fico muito feliz que a Leopoldina, o Noé, o Simão, o Manuel, o Valentim, o Clemente, o Ricardo e o Jaime tenham aqui uma última oportunidade de ver a sua história contada, longe do apagamento a que quase todos foram sujeitos. Se puder deixar-vos a recomendação, só posso dizer o seguinte: leiam, não se vão arrepender.»

Review completa em: https://ritadanova.blogs.sapo.pt/cois....
Profile Image for Joana da Silva.
476 reviews782 followers
January 30, 2024
Absolutamente incrível o trabalho que a Catarina Gomes fez com este livro. Devolveu a humanidade a tantos que se viram privados dela em vida, fez-me sentir estas histórias e falar destas pessoas como se as conhecesse, como se fossem meus vizinhos. Tudo através de pequenos objectos esquecidos. Já recomendei este livro a muita gente, mas acho que nunca o vou deixar de fazer. Impossível ficar indiferente a este trabalho!
Profile Image for Álvaro Curia.
Author 2 books545 followers
November 2, 2020
Este livro devolve a dignidade a uma série de pessoas que dela se viram privadas ao serem encarceradas num hospital psiquiátrico, quando a regra era prender o “louco” para a vida.

Ao longo de quase todo o século XX ( à exceção das últimas duas décadas), a saúde mental era um campo de experimentalismos brutais, retratados com algum romantismo em algumas séries de televisão, mas que nada tinham de humano.

Os eletrochoques, os interrogatórios, a privação de liberdade, a lobotomia, eram práticas comuns, vivendo o doente mental num limbo entre um condenado e um inquilino de um lugar onde não queria viver.

Catarina Gomes interpreta, investiga e organiza uma série de biografias a partir de objetos encontrados em caixas do antigo “Manicómio Bombarda.” De alguns, partindo apenas de meras pistas, consegue descobrir quem foram e retirá-los de um anonimato forçado. Encontramos pessoas com sonhos, com ambições, com família.

Em todos eles, um sentimento comum: o de que estar ali era temporário. As cartas que enviavam à direção, os planos que faziam, a vida sobre a qual queriam ter novidades mas que já era absolutamente irrelevante...

A autora consegue fazer passar este sentimento de angústia, do mendigar de pequenos direitos e das importantes conquistas, apresentando-nos um leque de seres humanos cuja vida e singularidade não foram respeitadas.

A sensação no fim deste livro é a de tempo suspenso, da irreversibilidade das opções e de como tudo são processos, cujo fim, cuja resolução, pode nunca acontecer.
Profile Image for Paula Mota.
1,678 reviews572 followers
June 14, 2021
4,5*

Descobrira uma acidental cápsula do tempo. Estava naquele espaço à procura do excepcional na loucura e acabava por encontrar o absolutamente corriqueiro. Os objectos da caixa recordavam-me que a maior parte dos que sofrem de doença mental não são artistas nem criminosos, nem geniais, nem perigosos. São como nós. Somos nós.

Catarina Gomes fala numa espécie de voyeurismo por trás da sua vontade de apurar a identidade e escrever sobre a vida e o internamento dos donos dos objectos abandonados que encontrou no Hospital Miguel Bombara, mas a forma respeitosa como os recria devolve-lhes a dignidade, o que para mim é exactamente o oposto de voyerismo. Os oito retratos que a autora compõe causaram-me não só indignação, porque há “alienados” que nunca o foram, como o rapaz que sofria de epilepsia, como também uma forte comoção, como no caso de Leopoldina de Almeida, uma viúva detida por indigência, e de Simão de Carvalho de Proença, que se evadiu para tentar regressar a casa passados 40 anos.

Se Simão de Carvalho Proença tivesse conseguido chegar ao sítio para onde se destinaria naquele dia, quando seguia junto à linha de caminho-de-ferro, o que procuraria já teria ido abaixo. (...) No nº 31 da Avenida António Enes, em Queluz, fica hoje um prédio de escritórios ao abandono com um centro comercial no rés-do-chão.

É frequente queixar-me que em Portugal se receitam demasiados psicotrópicos, que se distribuem indiscriminadamente sem dar apoio psicológico às pessoas, para ao menos tentar descobrir-se a raiz do problema, mas ao perceber os motivos por que eram internados e como eram tratados os doentes do Miguel Bombarda, admito que eles são um mal menor que, ao menos, permitem que as pessoas sejam funcionais e vivam em liberdade. Numa altura em que os doentes eram internados com o único objectivo da contenção física, em que não havia terapias ocupacionais e os únicos tratamentos que se aplicavam eram práticas invasivas como a lobotomia e os choques elétricos, era habitual acabarem por morrer lá ou terem alta somente para serem transferidos para asilos de mendicidade até ao fim dos seus dias.

A visão terrificante dos velhíssimos e degradados ‘pátios’ onde circulavam (...) todas as ‘espécies’ de cronicidade desoladora dos ‘incuráveis’ asilares cuja única esperança era a morte por tuberculose, disenteria, acidentes...

É de grande mérito este trabalho quase de detective da jornalista Catarina Gomes que, a partir de objectos aparentemente banais e inócuos, consegue recriar o percurso de pessoas que viram a sua vida interrompida.
Profile Image for Marta Silva.
306 reviews108 followers
June 11, 2023
“Todos podemos adoecer, mas o tipo de doença e o momento histórico em que tal acontece, que coincide com o nosso tempo de vida, determinará que peso irá ter na nossa vida: se vai ser um incómodo, uma interrupção ou um fim.”

Pelo excelente trabalho de investigação, pela forma sensível e cuidada como aborda a saúde mental, este livro é, sem dúvida, um dos melhores que li de não-ficção.
Profile Image for Marta Clemente.
758 reviews19 followers
May 8, 2022
Este é o 3º livro escrito por Catarina Gomes, uma jornalista e autora de livros de não ficção que eu já tinha vontade de ler há algum tempo.
Na capa do livro temos uma descrição que nos abre o apetite para a leitura. A autora conta-nos que "Coisas de loucos" teve origem na descoberta de uma caixa de cartão empoeirada, cheia de objectos de antigos doentes do primeiro hospital psiquiátrico português, o Hospital Miguel Bombarda.
"Os objectos da caixa recordavam-me que a maior parte dos que sofrem de doença mental não são nem artistas, nem criminosos, nem geniais nem perigosos. São como nós. Somos nós."
Através da investigação feita a esses objectos e aos seus donos Catarina traça-nos um retrato da evolução da psiquiatria e da forma como é encarada a saúde mental ao longo do século XX e início do século XXI.
É muito, muito interessante seguir a investigação feita que nos leva ao destrinçar da vida destes doentes e de como as coisas seriam diferentes para eles se tivessem nascido num outro tempo. Felizmente a psiquiatria evoluiu muito e hoje estamos a anos de luz do que era feito em meados do século XX.
Este texto tão bem escrito vem acompanhado de fotografias que tornam esta leitura ainda mais cativante.
Gostei muito de conhecer todos estes doentes, no entanto o Bailarino Valentino, como foi conhecido, foi o meu preferido. Valentim de Barros esteve internado no Miguel Bombarda quase 40 anos para tentarem curar a sua homossexualidade por todos os métodos utilizados na altura, incluindo a lobotomia. Valentim era efeminado, bailarino e "gostava de fazer coisas de mulheres", como costurar, bordar. Isto sem se esconder nem tentar disfarçar... Era esta a doença dele.
Leiam!
Este é um daqueles livros que vale muito a pena!
Profile Image for Sofia.
1,039 reviews128 followers
August 26, 2023
"Medo. Deles, de que nos façam mal, fisicamente, verbalmente, com o descontrolo que lhes atribuimos. Mas sobretudo medo de ficarmos com eles, de nos tornarmos um deles num futuro qualquer. Medo de sermos tratados e olhados como eles são."

A partir de objetos esquecidos, mergulhamos na vida destas pessoas e na história do tratamento da doença mental em Portugal.
Bom estilo, escrita, ritmo narrativo, tom. Irrepreensível a nível da redação.

Algumas histórias angustiaram-me. Penso ser impossível não sentir empatia por estas pessoas, que muitas das vezes precisavam apenas de uma rede de segurança ou de alguma compreensão e foram tratadas injustamente, exponenciando a sua doença.
Recomendo a leitura a qualquer pessoa M/15.

"Sabe-se que existem fatores sociais que protegem da doença mental: ter "saúde, amor e dinheiro" ajuda, não os ter vulnerabiliza (...). Mas todos estes escudos são, ao fim e ao cabo, tão frágeis. Podemos ir perdendo muitos chãos, à vez, ou então todos de repente. A doença mental pode medrar depois da perda de um emprego, de um divórcio, de uma viuvez, de um acidente, de uma doença grave."

"A perda do marido e da proteção económica que lhe dava, mais ainda quando não havia filhos, era, à época, um dos factores que mais conduziam à mendicidade e, por consequência, ao internamento de mulheres no albergue de mendicidade da Mitra (...)"
Profile Image for Inês | Livros e Papel.
623 reviews186 followers
March 4, 2021
A propósito de uma reportagem sobre o encerramento em 2011 do primeiro hospital psiquiátrico português, o Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, Catarina Gomes encontra uma caixa de cartão.

Curiosa pediu autorização para a abrir. Estava repleta de objectos pertencentes a antigos doentes do hospital, também conhecido por Hospital de Rilhafoles.

A partir destes objectos a autora investigou e tentou descobrir a quem pertenceram. O resultado é este livro que nos conta a história de 8 antigos pacientes do Miguel Bombarda.

Um conjunto de histórias nuas e cruas sobre o que foi ser doente psiquiátrico nos anos 20/30 até aos anos 60/70 do século passado.

Interessante e angustiante saber como as doenças mentais era tratadas, a que sujeitavam os doentes, as condições do hospital...Os eletrochoques, as terapias de banhos gelados e quentes e até a lobotomia eram usados para curar os males da cabeça.

A homossexualidade tratada como doença, acreditando-se que com dois furinhos na cabeça resolveriam o "problema" cujo principal sintoma nos doentes era "efeminacão, cujo sinal mais óbvio era a sua preferência pelos trabalhos das mulheres".

Factos importantes que reti:
🔹só em 1973 a homossexualidade saiu da lista de doenças da Associação Americana de Psiquiatria;
🔹só em 1982 o crime de prática dos chamados "vícios contra a natureza" foi abolido da nossa lei.

Não foi assim há tanto tempo...

Um livro muito bem escrito que conseguiu prender-me a esta realidade que existiu no nosso país.

Histórias duras que me emocionaram de pessoas que foram ostracizadas pelo sistema, pela sociedade e muitas vezes pela própria família.

Obrigada ao Álvaro dos @literacidades e à @harleyaddams por me darem a conhecer este livro!
Profile Image for Sara Ponte.
116 reviews12 followers
February 12, 2022
Que livro tão bem construído, e fruto de um enorme trabalho de investigação.

Catarina Gomes deu vida a um pequeno conjunto de objetos deixados por antigos pacientes do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda. É nos dado a
conhecer a história de alguns destes pacientes e de como a doença mental era enfrentada no século XX: o estigma associado, os motivos de internamento, o tipo de diagnósticos e as (poucas) opções de tratamento. Em simultâneo, é feito um paralelismo com os dias de hoje — do que seria diferente na vida destas pessoas com os conhecimentos e meios atuais.
Profile Image for Maria.
266 reviews157 followers
October 12, 2024
Que trabalho maravilhoso de Catarina Gomes. Um retrato humano e necessário das vidas numa época em que a doença mental era tão incompreendida, escolhendo retratar pessoas como nós.
A ler.
Profile Image for Marta Xambre.
254 reviews29 followers
September 14, 2022
14/09/22

Nem sei como começar... Não foi um livro que me impactou como gostaria , pode parecer insensibilidade da minha pessoa, mas o mais estranho é que, de facto, sou de lágrima fácil e emociono -me facilmente... mas não foi o caso... ainda que sinta empatia e tristeza por estas pessoas e por outras que passaram o mesmo. Tento arranjar respostas, mas os sentimentos são mesmo assim, não se comandam. Talvez tenha sido pelo carácter investigativo que está patente ao longo do livro, que não permitiu comover -me, arrebatar -me...
Relativamente à investigação levada a cabo, bem como a extensa pesquisa bibliográfica que a autora realizou são, indiscutivelmente, extraordinários e notáveis, fruto de muitos anos de trabalho e dedicação, quanto a este aspeto há que lhe tirar o chapéu.
Resumindo e concluindo: apreciei muito o trabalho da autora e a premissa do livro, mas não me cativou, como gostaria, as várias histórias apresentadas.
Foram criadas expectativas muito elevadas e, por vezes, não corre tão bem como gostaríamos.
Profile Image for Ricardo Silvestre.
207 reviews36 followers
July 31, 2024
A desumanidade demonstrada para com os alienados que fazem parte deste projecto é muito desconcertante, quase palpável. Este livro, que levou 8 anos a ser concluído, é fruto de uma pesquisa profunda e dedicada e o resultado é algo verdadeiramente surpreendente.

"O que pensariam de mim se encontrassem os meus pertences no sótão de um hospital psiquiátrico?"

Dá que pensar, não dá?
Gostei muito.
Profile Image for Carol.
216 reviews111 followers
October 30, 2023
Neste livro, editado pela Tinta da China, são-nos contadas 8 histórias de vida de pessoas que tiveram de passar pelo Hospital Miguel Bombarda.

Vemos os procedimentos, técnicas e a postura perante as pessoas com doenças mentais ou outras questões que não seguiam aquilo que era considerado normal. Sabemos hoje que existem certas condições médicas como a esquizofrenia em que não é necessário que a pessoa passe a vida internada. A leucotomia pré-frontal desenvolvida pelo português Egas Moniz (mais tarde chamada de lobotomia) era o gold standard das intervenções cirúrgicas, para combater a esquizofrenia, depressão ou certos transtornos obcessivo-compulsivos. Ao ler o The Bell Jar, da Sylvia Plath, tive este livro sempre presente na minha cabeça.

É triste pensar que uma doença mental pode excluir alguém da sociedade.
É triste pensar que um dia estas pessoas entraram nestas instituições para mais não voltar a sair.
É triste pensar que milhares e milhares de pessoas foram admitidas nestas instituições e foram abandonadas pelas famílias.
É triste pensar que as suas memórias foram esquecidas.

Contudo, através de simples objetos Catarina Gomes deu identidade àquelas pessoas. A sua investigação deu-lhes dignidade. São 8 histórias sobre pessoas reais. Este livro torna-se muito importante na desconstrução de certos estereótipos e preconceitos para com as pessoas com uma doença mental. Afinal de contas as pessoas não são as doenças.
Profile Image for Isa | Mil Histórias.
279 reviews137 followers
April 1, 2022
A partir de objetos esquecidos no Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, a autora Catarina Gomes, conta-nos as histórias de vida de algumas pessoas que viveram nesse Hospital Psiquiátrico.

Escrito de uma forma como se de um romance se tratasse vamos acompanhando a vida destas 8 pessoas. Um trabalho de investigação brilhante por parte da autora. Minucioso e sublime. Absolutamente incrível! Leiam!
Profile Image for Cat.
807 reviews86 followers
April 21, 2021
este não é de todo um livro sobre objetos. é um livro sobre pessoas. sobre as suas vontades, as suas histórias, as suas dores.

é uma obra extremamente empática e bonita. lembra-nos que estas pessoas foram postas à parte da sociedade de tal maneira, que é suposto que não pensemos nelas sequer. mas merecem a nossa atenção, pois não é por serem "loucos" que são menos dignos. não consigo evitar uma grande tristeza ao pensar em todas as outras histórias perdidas neste hospital e em outros tantos. pessoas que nem pelas próprias famílias são recordados...

é de louvar a autora, seja pelo tempo dispensado na investigação seja pela sua sensibilidade e respeito na abordagem deste tópico. ótimo trabalho do fotógrafo também, que nos imerge ainda mais
Profile Image for Margarida Sem Canteiro.
23 reviews14 followers
August 11, 2023
A Catarina escreve tão bem, tão bem, tão bem. Este livro deveria ser de leitura obrigatória ou aconselhada no ensino tradicional português pela riqueza da informação que contém - não só por discorrer sobre várias questões políticas, económicas e sociais do século XX português, mas também pelas tradições que foi referindo ao longo das reportagens, tradições essas correspondentes a regiões, famílias e crenças - e pela dignidade com que trata as pessoas investigadas. A primeira história, a da Leopoldina D'Almeida -> Modista, inspirou-me tanto e deu-me vontade de escrever uma história na qual uma das personagens se apelida de "D'Almeida", em jeito de homenagem.

Adoro este livro com todos os cantinhos do meu ser.
Obrigada, Catarina.
Profile Image for Sónia  Teixeira.
163 reviews16 followers
August 9, 2021
Este livro tirou-me o fôlego de um modo que não esperava. A vida de pessoas como nós que por desconhecimenti, medo ou falta de alternativa viram-se rotuladas e confinadas. Dar-lhes uma voz, uma identidade fez-me reflectir sobre a nossa capacidade empatica com o outro... é pouca especialmente se o sentimos distante do que somos...
Profile Image for Vicente.
128 reviews12 followers
August 29, 2020
Se o título nos pode levar a crer que este é um livro que privilegia os objectos, nada mais errado. É um livro que fala de pessoas a partir dos objectos que estas deixaram em vida, como doentes do Hospital Miguel Bombarda. Catarina Gomes tem aquele dom que reconhecemos nos grandes jornalistas, que agarram o leitor para não mais o largar até ao fim do texto. O prefácio de Djaimilia Pereira de Almeida sintetiza de forma perfeita o valor que Catarina Gomes conseguiu incutir neste livro. São pessoas que aqui habitam, feitas de uma humanidade a que a autora prestou uma merecida homenagem.
Profile Image for susana monteiro dias..
64 reviews11 followers
June 8, 2021
”Às vezes pergunto-me porque é que, ao longo destes anos, me senti tão obcecada em pesquisar as vidas dos donos dos objetos da caixa. Penso que a razão por que me interessavam todos estes loucos mortos é a mesma, porque sempre me interessou saber sobre as vidas dos que sofrem de doença mental no meu tempo. Curiosidade. Há nesta espécie de voyeurismo uma vontade de compreender, como se fosse descortinável, algures no seu passado, o motivo por que ficaram loucos, partindo do pressuposto de que o eram. Como se, passando a conhecer a razão que desencadeou a doença, talvez fosse possível contorná-la, caso de me apresentasse à frente, como uma pedra ou um buraco na estrada.”

Parti para este livro sem grandes expectativas sabendo apenas, à partida, que se tratava de um trabalho de investigação de 8 anos da jornalista Catarina Gomes sobre a vida de antigos doentes psiquiátricos do, entretanto desativado, Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. As diversas histórias têm em comum o facto de partirem de objetos e registos documentais deixados numa caixa no sótão do Hospital.

As doenças do foro psiquiátrico exercem sobre mim um enorme fascínio. Talvez porque entendo a psiquiatria (escrevo isto como uma leiga em medicina…) como a especialidade mais voltada para o íntimo, para as emoções e sentimentos dos pacientes.

Catarina Gomes partilha, com profunda sensibilidade e de forma emocionada e empática, 8 histórias de vida de doentes do Hospital Miguel Bombarda, a quem foi retirada a dignidade, os sonhos e projetos de vida. Em cada uma das histórias é feito também o paralelismo com a história de vida de atuais doentes do Hospital Júlio de Matos, enriquecidas com o testemunho de diferentes psiquiatras, mostrando-nos dessa forma o desenvolvimento da medicina no tratamento destes doentes. Um excelente trabalho de investigação, fundamentado e com uma enorme atenção aos detalhes!

4,5*
Profile Image for Bru_historiasporcontar.
140 reviews119 followers
June 15, 2023
Acabo este livro em menos de 24h e fico estupefacta com a sua qualidade. Já li livros de não fição muito bons, mas que me prendessem do início ao fim da leitura, de forma constante, confesso que é o primeiro.

Também é o primeiro livro da Catarina que leio, o que me alegra por ter começado tão bem. Esta investigação transformada em narrativa é muito bem conseguida, toda a investigação e dedicação que a autora coloca em nomes um dia esquecidos, é, para mim, muito sentimental. Interessei-me por todos, mas em especial pela Leopoldina, traçada pelo destino, pelo Simão, que ao contrário de muitos, teve familiares que não o esqueçeram e pelo Valentim, cuja doença mental consistia em ser homossexual e gostar de atividades “femininas” como bordar e dançar (emocionei-me muito com as suas fotografias de bailarino).

A Catarina conquistou-me pela sua escrita humana e sensível, cujo objetivo, seria proprocionar algum fio de lembrança a estes seres humanos que não tiveram os seus nomes lembrados nos álbuns de família ou não raras as vezes, eram intitulados de os tios malucos e tontinhos. E deste prisma, considero que conseguiu atingir sublimemente o seu objetivo. Não acredito que alguma pessoa, depois de encontrar este livro, consiga esquecer qualquer uma das pessoas mencionadas.

Recomendo totalmente a qualquer pessoa com um pouco de sensibilidade, especialmente aos interessados pela história da psicologia em portugal, a evolução das doenças mentais e dos métodos usados para tenta combater essas patologias.
Profile Image for Rui Filipe  Mendes.
17 reviews5 followers
February 5, 2023
Uma obra inigualável que nos transporta para os primórdios da saúde mental em Portugal. Registos impressionantes que nos fazem acreditar que, até agora, muito se evoluiu e mais se poderá evoluir, no que toca à abordagem, concepção e desmistificação de um tema tão sensível para a esfera social.

Pensar como os objetos pessoais podem dizer tanto sobre um ser humano e a sua história de vida. Chocante perceber que, na altura, eram meros objetos e, agora, são encarados como parte integrante da identidade e dignidade humana, devendo ser devidamente cuidados, guardados e identificados.

Um monólogo detalhado. Intenso. Espontâneo.
Ler este livro é sentir que a jornalista Catarina Gomes está a dialogar com alguém muito próximo em jeito de introspecção. Uma introspecção humana, que nos faz sentir que a loucura mora mesmo ao lado.

"Descobrira uma acidental cápsula do tempo. Estava naquele espaço à procura do excepcional na loucura e acabava por encontrar o absolutamente corriqueiro. Os objetos da caixa recordavam-me que a maior parte dos que sofrem de doença mental não são nem artistas nem criminosos, nem geniais, nem perigosos. São como nós. Somos nós."
Profile Image for Ana Rita Silva.
267 reviews27 followers
July 6, 2024
«todos podemos adoecer, mas o tipo de doença e o momento histórico em que tal acontece, que coincide com o nosso tempo de vida, determinará que peso irá ter na nossa vida: se vai ser um incómodo, uma interrupção ou um fim.»

«medo. deles, de que nos façam mal, fisicamente, verbalmente, com o descontrolo que lhes atribuímos. mas sobretudo medo de ficarmos como eles, de nos tornarmos um deles num futuro qualquer. medo de sermos tratados e olhados como eles são.»

se é verdade que os cuidados de saúde mental melhoraram imenso nos últimos anos — bem como a legislação que regula esses mesmos cuidados — o estigma permanece. e é por isso que este excelente trabalho jornalístico transformado em livro reveste tamanha importância. através dos objetos esquecidos no Bombarda, conhecemos a história destas pessoas, a quem é devolvida, tantos anos depois, a existência e, mais do que isso, a humanidade.
Displaying 1 - 30 of 177 reviews

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