Sou admirador da Ana Paula Maia desde que li "Sobre rinhas de cachorros e porcos abatidos" em 2015. Desde então a acompanho com prazer, e achei "Carvão Animal" o melhor dela, com destaque pro ótimo "Entre gados e homens".
Porém, quando li "Assim na terra como embaixo da terra" já tinha ficado com uma impressão de desgaste, que chegou ao ápice neste livro. A autora parece ter perdido a essência do que me fez admirar tanto suas obras. A história transcorre de forma burocrática, repleta de buracos, absurdos e erros feios (lobo-guará não vive em matilha, isso é informação que se acha no google em 1'; abutres são aves do velho mundo, e, por mais que goste muito da indefinição geográfica de toda a obra da Ana Paula, acho bem difícil que as histórias que ela conta se passem por lá; quem paga essa empresa pra limpar rodovias abandonadas? ou não seriam elas tão abandonadas assim?; com tanto morto e poucos vivos, em breve o mundo inteiro dela se tornará um cemitério; e talvez ele seja mesmo, e, como falavam de Lost, os personagens morreram e estão sendo torturados nesse mundo oco, embotado e desbotado, um inferno à The good place, mas sem as piadinhas, só com desgraça).
Quando soube que a temática desse livro seriam as rodovias fiquei animado, pois é um tema que me agrada e achei que casaria com perfeição com a estética da Ana Paula, mas a execução me deixou com varias sensações ruins: parece que ela parou de tentar, e apenas escreve buscando um gore pelo gore, exemplificado pela cena do necrotério, desnecessária e sem sentido. Os diálogos estão cada vez mais desidratados, quase pastiches de obras anteriores misturados a falas e comportamentos de filmes B. Talvez tenha chegado a hora de deixar Edgar Wilson de lado e buscar novas inspirações, pois qualidade não falta a ela.
O mais triste, pra mim, é o fato da autora ter sido desprazada por críticos por muito tempo, que a acusavam até de machismo para desqualificá-la, e agora, quando a reconhecem com dois prêmios SP seguidos, o fazem para seus dois piores livros. Mais do que sobre a obra da AP Maia, isso fala muito sobre a crítica, e não apenas a literária, a musical, a cinematográfica, que são as que mais acompanho, e imagino que a crítica das demais artes também deva padecer desse mesmo mal, esse mal onipresente dos nossos dias: se tornaram, como os 'consumidores' das artes, prisioneiras do hype.
Torço pra que a grande Ana Paula Maia não caia nessa vala.