Viver no mesmo século que Malala é um privilégio por poder ouvir e conhecer jovens que estão mudando e influenciando o mundo para melhor de alguma forma (e eu espero que tais mudanças se concretizem). Viver no mesmo século que Malala também é um pouco triste e desesperador. Não pela ativista em si, mas por tudo que ela fala e que circunda sua luta (para além dos nossos outros 5000 problemas sociais que parecem sem solução). E esse livro é uma síntese agridoce de tudo isso.
Ele é dividido em duas partes. Na primeira temos Malala contando de uma maneira mais resumida a sua história e com foco num ponto: o modo como ela ficou longe de casa tanto tempo de sua juventude. Ela não chega a se considerar uma refugiada no sentido próprio do termo mas, conforme expõe em sua história, teve que se mudar dentro do próprio país por conta dos conflitos com o Talibã no começo dos anos 2000 e, depois do atentado que sofreu, mudo-se para Inglaterra. Ela traz o foco para como foi a sensação de deixar seu lar e como isso implicou na sua juventude, destacando sempre como os problemas da sociedade motivam tais mudanças.
Já numa segunda parte do livro, Malala conta a história de diversas meninas/mulheres, de diversas partes do mundo, que estão envolvidas com a questão dos refugiados de alguma forma, principalmente de meninas que deixaram seus países por algum motivo. E são histórias tristes, algumas inclusive se você ouvir soam como ficção de tão absurdas. Mas não são ficções. Estão acontecendo com pessoas reais nesse momento. Caminhadas noturnas por florestas densas, barcos arriscados cruzando o mar, acampamentos gigantescos com pouca estrutura, guerra. São histórias que estão acontecendo com muitas pessoas.
Malala busca, na minha visão, trazer duas coisas ao chamar essas meninas para contarem suas histórias: primeiro que é fazer você entender a problemática que afeta o mundo no momento e ouvir isso da boca de uma pessoa refugiada, para entender o que ela passou e criar um pouco mais de empatia e conhecer a questão. E segundo que é dar esperança também. É complicado falar de esperança no meio de um assunto ao qual tantas pessoas perdem a vida, perdem seus lares, até mesmo perdem a chance de viver em um novo país ou, quando conseguem, ainda devem lidar com o preconceito. Malala sabe disso, a própria viveu isso. Mas mesmo assim ela fez questão de dar esse ponto de esperança, em sua história e na história das meninas, como uma forma de inspirar e acalentar outras pessoas que estejam na mesma situação e também fazer com que nós acreditemos que, quem sabe daqui a alguns anos, toda essa situação possa ser resolvida da melhor forma possível e com a vida das pessoas que passaram por isso sendo renovadas de alguma forma. É um livro sobre esperança.
Eu fico muito feliz com esse livro sendo lançado, principalmente por ele ter um foco no público jovem. Aqui no Brasil parece que a discussão sobre a questão das pessoas refugiadas não ganha tanto foco. Ainda parece uma coisa distante, pertencente somente aos países europeus por conta da proximidade com os conflitos dos países africanos e asiáticos. Porém não é verdade. O conflito está aqui. Tá do nosso lado. Mesmo que a mídia brasileira não trate da questão com o afinco que necessário, às vezes ignorando que o país vive esse problema, em especial na região norte (talvez o presidente deliberadamente ignore também), é de uma importância muito grande a existência desse livro, principalmente para o público jovem. Os sentimentos de empatia e esperança que Malala escreve e descreve devem funcionar como mecanismo para mudança.
Ps: quem quiser ter a experiência com o audiolivro, ele está disponível para compra no site da Autibooks e eu particularmente achei uma experiência muito agradável. A narração da Klara Castanho é muito bem feita e ele é um livro bem rapidinho.