Este livro é muito interessante do ponto de vista da história e da geografia, pois permitiu-me conhecer acontecimentos e factos que ignorava: a dimensão do Império Otomano e dos povos que dominava da Europa à Ásia até finais do século XIX, como a Roménia, a Bulgária, a Sérvia, o Montenegro, a Albânia, a Macedónia, a Grécia, a Arménia e o atual Iraque; a independência dos sete primeiros; a subjugação e os massacres perpetrados pelos turcos aos cristãos arménios, incitada pelo sultão, que se estendeu das zonas rurais à própria capital, a cidade de Constantinopla, atual Istambul; a ocorrência da segunda revolução industrial com a substituição do carvão pela eletricidade e pelo petróleo, em finais do século XIX e inícios do século XX, que veio revolucionar a indústria, os meios de comunicação terrestres com o aparecimento do automóvel, bem como os meios de navegação; as tensões pol��ticas entre a França e a Inglaterra e a Alemanha que haviam de estar na origem da primeira guerra mundial; os conflitos internos na Rússia imperial; e, finalmente, a decadência do Império Otomano, onde a opulência do sultão e dos seus seguidores contrastava com as dívidas, a corrupção e a dependência externa.
De facto, uma vez mais, José Rodrigues dos Santos revela que pesquisou bastante sobre estas matérias e está muito bem documentado, até em áreas como o aparecimento das grandes empresas petrolíferas, das concessões obtidas, dos negócios milionários que as envolviam e dos problemas inerentes à extração, transporte e comercialização deste combustível.
Contudo, a personagem de Kaloust Sarkisian, contrariamente a muitos dos leitores, não me seduziu, antes me desiludiu.
Apesar de se tratar de um homem extremamente inteligente, perspicaz a negociar, ambicioso, culto, procurando a beleza e o seu significado em tudo o que o rodeava, desde a luz que envolvia a bela cidade de Constantinopla, aos tapetes, às moedas e à pintura, fiel à cultura arménia e à religião cristã professada pelo seu povo, era também um homem egocêntrico, egoísta, que pensava primeiro nele antes de todos, nomeadamente na sua mulher e no seu filho, cujos amigos, se assim se podiam chamar, eram utilizados e utilizavam-no para obter poder e dinheiro, sedento de uma vida luxuosa entre os mais ricos e poderosos, que, até nas suas atitudes aparentemente altruístas, conseguia sempre obter benefícios.
Pelo que, apesar do intuito biográfico do autor quanto ao livro, o mesmo poderia ter abordado as consequências do modo de ser da personagem principal nos que o rodeavam, mais precisamente, na sua mulher e nas raparigas menores de dezoito anos com as quais mantinha relações extra-conjugais até terem dezoito anos, substituindo-as por outras mais novas com o suposto argumento de se manter jovem e de aumentar a sua longevidade.
Parece-me que, para Kaloust Sarkisian, as pessoas tinham o mesmo valor que os objetos; eram meras peças decorativas para serem utilizadas enquanto servissem.
Mesmo no que concerne ao seu filho, o autor apenas aflorou levemente as consequências a que os comportamentos e as atitudes do pai, nomeadamente a sua ausência, tiveram na formação da sua personalidade.
Daí as três estrelas.
Vou ler o segundo livro, um "Milionário em Lisboa", e espero mudar de opinião quanto ao mesmo e quanto à sua principal personagem.