Dario Fo, Nobel da Literatura em 1997, um ano antes de José Saramago, é fundamentalmente um dramaturgo. “O seu teatro político continua a ser um modelo para as novas gerações” lê-se na guarda posterior desta edição da D. Quixote. “A Filha do Papa” consiste no seu único romance editado.
Fo, num trabalho, essencialmente bibliográfico, tenta, e de certa forma consegue, restabelecer a verdade sobre a personalidade de Lucrécia Bórgia, filha do Papa Alexandre VI considerada, ao longo da história, uma megera sem escrúpulos, cujo nome estaria sempre associado à vileza de carácter, à ignomínia cruel e desapiedada e ao envolvimento incestuoso com o seu irmão, Césare, o Valentino. Nada mais falso! Nesta narrativa, Lucrécia surge como uma personagem apaziguadora, de enorme graciosidade e bondade, uma mulher encantadora na sua sinceridade, apego familiar e conduta moral.
Mas também, “A Filha do Papa” remete-nos para as vicissitudes geo-históricas dos estados italianos, das suas contendas militares, das (des) unificações dos ducados consoante os seus interesses, conforme os ventos, ora combatendo ao lado dos franceses, ora dos espanhóis sempre procurando uma maior hegemonia das suas casas principescas e, obviamente, um domínio territorial dos seus próprios ducados.
A enigmática personagem de Rodrigo Bórgia, Alexandre VI para a cúria romana, é também aqui abordada de uma forma extremamente interessante; já que tentara, numa primeira fase, logo após o início do seu pontificado, acabar com o nepotismo e o simonismo que caracterizaram as posturas papais anteriores tentando introduzir uma reforma que, claramente, nunca verá a luz do dia dada a quantidade de opositores, a maior parte entre os seus próprios cardeais.
Os Della Rovere, os Orsini, os Colonna, os Este, os Montefeltro, os Médicis e, claro, os Bórgia enformam uma galeria de personalidades históricas que dão corpo à narrativa e que nos apaixona desde o início. Sobre estes últimos, somos logo avisados: “Qual é o motivo de tanto interesse com o comportamento destas personagens? Antes de mais, a despudorada falta de qualidade moral que lhes é atribuída em todos os momentos da vida. Uma existência libertina desde a sexualidade até ao comportamento sexual e político”.
Não considero que este romance de Dario Fo constitua mais uma, entre milhares, abordagem sobre a estirpe dos Bórgia … Há, de facto, informações que podemos recolher facilmente noutros documentos como, por exemplo, em “O Príncipe” de Maquiavel que, como tive ocasião de apontar, debruça-se também sobre este mesmo tema. Mas Fo, fá-lo de uma forma extremamente leve, agradável, com momentos hilariantes, ou seja, fá-lo como só os grandes escritores se atreveriam. Além de que reabilita a figura de Lucrécia, por quem, inopinadamente, nos apaixonamos.