O Romance da Raposa de Aquilino Ribeiro (1924) era uma das minhas obras favoritas de infância. Há muitos anos que não pegava no livro, pois nunca cheguei a tê-lo, tinha lido uma edição da biblioteca da escola. Havia um professor com barbas que ficava por vezes de serviço nessa biblioteca e me recomendava livros. Foi graças a ele que fiquei a conhecer as Crónicas de Narnia e lembro-me de ele comentar alguma coisa quando eu ia requisitando o Romance da Raposa. Nunca soube o seu nome, mas aqui fica o agradecimento ❤
Como disse, há muitos anos que não pegava num exemplar do Romance da Raposa. É que eu não queria comprar a edição nova, que me perdoem os autores da nova adaptação e a editora. Queria a edição antiga, com as ilustrações a preto e branco adaptadas dos originais a cores de Benjamim Rabier que tanto me apaixonaram em criança. Andava a namorá-la há uns tempos, mas era tão cara… Assim, quando encontrei o livro por acaso numa feira de velharias, ao preço da chuva, o meu primeiro gesto foi pega-lhe e beijá-lo. Juro que o fiz. O vendedor deve ter achado que era maluca. Trouxe o livro para casa e deixei-o a marinar enquanto terminava outra leitura.
E então tive uma surpresa. A dedicatória. Eu já não me lembrava da dedicatória, com certeza porque não fez sentido para mim em criança. Mas agora, à luz de todos estes anos dedicados a tentar compreender a literatura para a infância, esta dedicatória foi como uma nova prenda, e confesso que me emocionei ao lê-la. Vou ter de a citar na íntegra, porque é em si uma lição.
“Aníbal:
As aventuras maravilhosas da Salta-Pocinhas – raposeta pintalegreta, senhora de muita treta – contei-tas, sentado tu nos meus joelhos. Contando-tas, veio-me ideia de as escrever. Além de inspirador, colaboraste com teus silêncios, perguntas e interrupções na frágil meada. Que mais não fosse, só por este título o livrinho teria de levar o teu nome.
Ao percorrer estas páginas, nos teus olhos em flor não virão brincar fadas e duendes, bons gigantes e princesinhas. Tão-pouco ante eles se erguerão aqueles palácios encantados, que por serem de ouro e pedras finas, concebidos para satisfazerem a todos os desejos, tão diferentes são dos da terra. Que queres, no reino dos bichos não há nada disto, nunca houve. O doce mundo de ilusões, que o homem criou, reservou-o para figurantes, riscados, sim, pela fantasia, mas sempre à sua imagem e semelhança. Os chamados irracionais ali não têm ordem de entrar.
Em harmonia, pois, com as leis da poesia e da ciência natural, não fiz da raposa princesinha. Personagem histórica, para mais, era meu dever não falsificá-la. Representa, tal como vem da fábula, no guinhol com os outros bichos, a todos os quais dei voz, com licença de mestre Esopo. E dei-lhes voz para melhor manifestarem o que são, e nunca para com eles aprendermos a distinguir bem e mal, aparências ou estados, pouco importa, atribuídos exclusivamente ao rei dos animais, como nos jactamos de ser.
Se ao fim de cada jornada bateres as palmas, dar-me-ei por largamente recompensado. Basta que te recreies, como no jardim zoológico, para ambos não perdermos tempo. Aí fica, meu homem, no teu sapatinho de natal esta pequena prenda. Aceita-a com os meus beijos de pai, que ao menino Jesus vou pedir perdão do pecado, pois que a raposa é matreira, embusteira, ratoneira, e ele apenas costumava brincar com pombas brancas e um branco e inocente cordeirinho.”
Porque estamos perante um livro para crianças, a sua importância pode ser erradamente descartada pelos leitores adultos. Um erro passível de ser cometido apenas por quem nunca leu O Principezinho ou a O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá.
Citando W. H. Auden, “There are good books which are only for adults, because their comprehension presupposes adult experiences, but there are no good books which are only for children.”
Sim, este artigo vai ter muitas citações. É que estamos perante algo que adoro, mas que acredito que possa transcender ainda a minha compreensão.
Para melhor compreensão da relevância da obra, vou citar a Bárbara Soares no seu projecto de mestrado “O Romance da raposa: Uma edição anotada para crianças”: “esta permanece uma obra única no panorama literário português para crianças e jovens: pela riqueza do vocabulário empregue, pela variedade de recursos estilísticos usados, pela irreverência da protagonista e pelo animado diálogo que estabelece com a tradição literária fabulística e com os contos populares portugueses.”
A história cativa precisamente porque não é nova. O mundo está cheio de fábulas sobre raposas manhosas. Mas a maneira como está escrita não é apenas familiar, mas também caricata, divertida, por vezes mórbida. Honesta. A morte dos animais não é embelezada ou escondida. As coisas são tratadas como são. Este tipo de honestidade é cada vez mais rara no mundo da literatura infantil e faz as crianças sentirem que estão a ser tratadas com respeito. Que o autor pensou “isto é capaz de ser triste ou pesado, mas eu sei que tu já tens maturidade para lidar com isso.” Fazemos cada vez menos isto às nossas crianças, e por isso têm cada vez mais dificuldades em lidar com emoções negativas ou complexas. Acho da maior importância que este género de história continue a ser contada. Quem sabe, não tentarei eventualmente, aprender com o mestre e escrever uma história também…
O livro termina com duas entrevistas distintas a Aquilino Ribeiro. Concorde ou não com a totalidade das respostas de Aquilino (sou grande defensora dos contos de fadas por achar que têm precisamente as qualidades que lhes nega), estas entrevistas são elas próprias uma lição. Por achar que são dignas de citação, mas não as ter encontrado em lado nenhum pela internet, passo a transcrever.
“Teorias do autor acerca de literatura infantil e dos seus dois livros neste género
Aquilino Ribeiro publicou para as crianças “Romance da Raposa” e “Arca de Noé, 3ª classe”.
– Quais os assuntos que escolhe para os seus livros infantis?
– Os meus assuntos vou buscá-los à história natural, racionalizando-os. Nós inventamos, para explicar a mecânica da nossa inteligência, esta palavra mágica: razão. Ao complexo de fenómenos, de que o nosso cérebro é teatro, preside esta espécie de deusa, ou melhor, fada. Que mais não seja é um expoente. Para os animais, o instinto é a origem e faculdade prima dos seus actos. Mas eu, por experiência, tenho verificado que há actos da vida animal, o homem à parte, que superam o âmbito de tal potência. Ora são estes actos que eu transponho, humanizo, no que imagino tais bichos movidos pelos mesmos móbiles vitais que nos animam a nós. A raposa é uma personagem histórica. No romancinho que escrevi, costeio a sua crónica, o mais livremente e originalmente que posso, não esquecendo as qualidades que lhe são notórias e derivam das condições de luta e dos dons com que a natureza a dotou: ardil, sagacidade, audácia. O meu livro tende a mostrar às crianças a que me dirijo, acima de dez anos, o mecanismo interno da astúcia, um pouco a astúcia de Ulisses, havida, sob determinados aspectos, como boa e sempre admirável, e por extensão a velhacaria social. Prefiro que se conheça a hipocrisia a que nos surpreenda, tal a víbora, escondida num tufo de ervas ou mesmo de flores, quando pomos o pé. Claro que procurei contar a história de tal vivente pela forma mais amena e empregando tons cor-de-rosa: Esta é a história da raposeta, pintalegreta, senhora de muita treta…
Na Arca de Noé, que se dirige às crianças a partir dos sete anos, também me ocupei da bicharada, essa que ocupa a 3ª classe, o grilo, com a sua caixa de música às costas, o saloio e a saloia, o macaco, o cão, o porco, o coelho, o elefante, o burro, o galucho, a vaca etc. etc.
– Quando escreve para as crianças, tem a preocupação da idade delas?
– Sim, tenho a preocupação da idade, e com isso a das ideias, que expendo, e em grau imediatamente inferior a preocupação do vocabulário. Se escrevêssemos apenas com as palavras que a criança emprega e de que sabe o significado, medíocre seria o nosso modo de expressão. A leitura duma página é um aprendizado. A criança vai-se recreando e aprendendo. Uma palavra que ignora, desde que pertença, bem entendido, ao nosso glossário quotidiano, é um obstáculo que vence penetrando-lhe o sentido por intuição natural. A evolução mental da criança corresponde à evolução mental do homem através das idades, a partir do limpo terciário.
– Qual o seu livro infantil que obteve maior êxito?
– O meu livro infantil de êxito foi o Romance da Raposa. A Jane Bensaúde devo a honra desvanecedora, embora imerecida, de considerá-lo uma obra prima. É evidente que a minha personagem tem este encanto: existir, ser conhecida, e eu pôr à vista a sua relojoaria íntima, engenhosa e arteira, e cada criança admirar nela as habilidades da nossa espécie para subsistir e impor-se na natureza, que não tem simpatias especiais para nenhum dos seus seres.
Os contos de fadas, a meu ver, representam um perigo, neste nosso mundo de hoje, tão realista. Prefiro predispor as crianças para a vida da luta que para o sonho e a idealidade abstracta, sem ramo em que a ave azul ponha o pé.
– Dá-lhe cuidados a escolha do ilustrador?
– Tive dois ilustradores extraordinários para os meus livros: um, Mestre Benjamin Rabier, francês, o primeiro lápis de todas as grandes revistas parisienses da especialidade, que expressamente fez os desenhos a cores. Custaram uma fortuna ao meu sempre saudoso e querido editor Júlio Monteiro Aillaud. O outro foi um rapazinho a sair da escola, Jorge Matos Chaves, hoje arquitecto ilustre, que pôs na Arca de Noé tudo o que lhe sugeria a sua imaginação fresca, colorida e original.
– Que pensa das ilustrações dos seus livros?
– Penso muito bem das ilustrações dos meus livros, que suponho sob certos aspectos superiores ao texto.
– Qual a finalidade que o move ao escrever para crianças?
– Não tenho uma finalidade objectiva, restrita, visto que o escopo é múltiplo. Mas, em suma, procurei recrear a criança, educando-a moral e socialmente, sem lhe meter na mão os horríveis compêndios de tais disciplinas. Suponho que escrever para crianças é uma pequena arte, bafejada por um Espírito Santo, pequeno e zombeteiro, que não será benéfico para toda a gente… nem porventura para mim.
***
– O que pensa V. Ex.ª da literatura infantil tal como ela está a ser conduzida no nosso país?
– Estou pouco ao corrente do que se passa neste sector da vida literária. Mas a avaliar pelas montras dos livreiros e pelos anúncios, temos messe grada. Suponho que há duas ilusões a considerar às espaldas desta actividade: que seja rendosa e que seja tarefa fácil. Quanto a réditos, é uma questão de natureza particular e ninguém tem nada com isso; quanto à elaboração literária, muita gente de bem pode ser induzida a erro, perdendo o ensejo de dar melhor emprego às suas faculdades. Nada mais fácil e impressionável que o cérebro da criança. Tudo o que ali tocou fica assinalado para sempre. Para que povoar-lhe a imaginação com coisas absurdas, com coisas sem graça, com cocas e teias de aranha que entenebrecem o entendimento?
– É de opinião que se introduza na literatura infantil o sobrenatural e o maravilhoso, em decalque da forma simples e objectiva como a criança vê a vida?
– O maravilhoso desenvolve a imaginação e as faculdades da alma, mas o sobrenatural é um domínio vedado em que é de boa prudência colocar à entrada este cartel: perigo de morte! Bem sei que todos nós tivemos à volta do berço essa farândola negro-salitrosa de bruxas, lobisomens, duendes, diabinhos e almas penadas. Mas não nos custou pouco varrê-la dos nossos sonhos depois de esvaziada do conceito da realidade.
– Contudo, o maravilhoso e o sobrenatural…
– Bem entendido, que estabeleço distinção entre maravilhoso e sobrenatural, quando os dois mundos se podem reduzir a um só. Seja como for, há o maravilhoso inofensivo e o maravilhoso tóxico. No primeiro instalemos as fadas, as mouras, os gnomos, elfos e anões, em sua maioria importados, que a nossa mitologia infantil é pobrezinha, não é fácil dizer porquê. No segundo, as feiticeiras e os génios maus. Também Anatole France, que escreveu um delicioso livrinho infantil, achava bom que se povoasse o sobrecéu dos berços com divindades risonhas e aladas. Perguntamo-nos se a criança tem necessidade de evasão como as criaturas de idade e batidas pelo uniforme pesadume das coisas. Por minha parte quero crer que o mundo gravita em sonho e mistério. Cada partícula da vida encerra um conto de fadas. Não é preciso inventá-las. Os brinquedos de Nuremberga são de resto tanto mais apreciados pelos meninos quando melhor reproduzem o real: ursos de feltro, cavalos de pau, pintainhos de lata que andam e vão bicando um imaginável grão de painço.
(…)
Eu sou um escritor realista, mas nos contos para os pequeninos aprovo e cultivo o simbolismo.
– Das três modalidades de literatura, poesia, conto e teatro, qual julga mais apta para prender o espírito da criança, realizando o duplo fim instrutivo e recreativo?
– Poesia, conto e teatro são por por igual recomendáveis quanto a formar a psique da gente pequenina. A poesia sob a forma de lengalenga: sola, sapato, rei, rainha vão ao mar buscar sardinha, etc. O conto: era uma vez… simples e claro como arroio da montanha a correr, sem pegos, sem mais profundidade que a que permite ver a areia do fundo, com flores na margem e a sua rã a coaxar, como diversão. O teatro sob a forma de guinhol, o guinhol tosco e informe do tempo do rei que rabiou, com glote mecânica e moca, numa palavra o teatro dos cinco dedos de que fala o autor do “Petit Pierre” antes de lhes desenhar nas polpas olhos, boca e nariz. A imaginação infantil precisa de campo para se desenvolver à vontade, vagos para preencher segundo a tendência própria, linhas para cobrir a sabor da sua retina. É por isso que o Teatro dei Piccoli na sua perfeição deixa as crianças completamente indiferentes, ao contrário do velho e primário Roberto.
– Quando será a literatura infantil enriquecida com nova obra de V.?
– Para os meus dois filhos escrevi: “Romance da Raposa” e “Arca de Noé, 3ª classe”, que em dia de Natal meti no sapatinho de cada um. Acabei para estas alegrias puras. Agora só manipulo drogas complexas para as pessoas grandes. Dizia Mme. de Stael: Si vous voulez que je vous aime rendez-moi l’âge des amours. E é o caso pavoroso.”