Minha introdução à Lygia.
Reflexões:
primeiro conto: achei que faltou um final mais desenvolvido
senhor diretor: (muito bom! falando sobre puritanismo e superioridade moral)
“como é que estão se defendendo os que têm vocação para a santidade?” 21
“os gritos, os risos, a raiva - tudo uma coisa só. no fim do ano, se despediam chorando, me davam flores. todos me esqueceram. a marca ficou só em mim, nesse meu jeito de olhar as pessoas, vigilante, desconfiada. a verdade é que eu tinha medo delas como elas tinham medo de mim, mas seu medo era curto. o meu foi tão longo, senhor diretor. tão longo” 25 sobre as alunas da escola que eram mais livres “excitadas, úmidas, explodiam” e todas as outras pessoas depravadas que essa personagem teme (e que no fundo parece querer ser)
“filme nacional? nacional, claro, se tem cama, mulher com cara de gozo e homem em trajes menores, só pode ser cinema brasileiro, uma verdadeira afronta” 26 visão do brasil como peito e bunda
“esse gozo, essa alegria úmida nos corpos” 29
“Que eu sei desse desejo que ferve desde a bíblia, todos conhecendo e gerando e conhecendo e gerando, homens, plantas, bichos” 29
“Eu tinha inveja da sua vida inquieta, imprevista, rica de acontecimentos, rica de paixão - era então inveja?” 30
tigrela - interessante mas bem críptico. conversa de bar sobre essa tigreza que cria em casa
“só eu notei que está ocupando mais lugar embora continue do mesmo tamanho” 35
herbarium:
“Deixei de roer as unhas e deixei de mentir. Ou passei a mentir menos, mais de uma vez ele me falou no horror que tinha por tudo quanto cheirava a falsidade, escamoteação” 42
“Precisaria agora perguntar à Tia Clotilde em que linha do destino aconteciam os reencontros” 48
muito bonito e detalhado… também com códigos interessantes sobre mentira e guardar um amor dentro de si. a personagem acaba vendo o homem botânico ficar com outra pessoa e no fim entrega-lhe uma folha sozinha e rara, que escondeu até o último minuto. talvez a entrega dela mesma? ou uma persistência na mentira de que o ama, e resolve “florear” com uma folha?
A Sauna
“No inferno deve ter um círculo a mais, o dos perguntadores fazendo suas perguntinhas, seu nome? sua idade? massagem ou ducha? fogueira ou forca? - sem parar. Sem parar. Marina também já fez muita pergunta mas agora deu de ficar me olhando. Tempo de perguntar e tempo de olhar e esse olhar soma, subtrai e soma de novo, ela é excelente em contas” 50
“Ela acendeu um cigarro, sinal de que estava disposta a conversar, acho que o que fica mesmo de um longo casamento é a gente saber quando o outro quer falar ou ficar quieto” 51
“Os olhos eram duas folhinhas de eucalipto - foi como desenhei no retrato, só descobri que eram bonitos quando comecei a pintá-los” 55
“ela achava que os perfumes deviam dormir algum tempo, como os vinhos” 55
"— Eu tomaria uns três litros d’água. Fácil — murmura o homem levantando a cabeça e olhando o teto. Tem olhos de peixe com saudade do mar. — Um litro atrás do outro"
"Posso ser calculista. Mas ninguém é só cálculo. Ninguém é só interesse."
"Acho que nunca me entreguei totalmente, isso não, sempre ficava uma parte — menor ou maior? — de mim mesmo quevolhava com lucidez a outra parte possuída"
"Tentei refazer o retrato e ficou uma imitação pobre: apenas uma moça na janela
segurando uma laranja e não a Rosa segurando o meu mundo, foi o meu mundo
que ela segurou quando lhe dei a laranja,"
A Sauna: gostei de várias partes, mas num todo achei muita informação, talvez meio prolixo. É difícil focar em todos os detalhes, mas talvez seja a intenção para descrever Rosa e Marina nas mais puras minúcias conforme ele se lembra em meio ao vapor da sauna.
Pomba Enamorada ou Uma História de Amor
sobre uma stalker eterna de um babaca que não dá a minima pra ela. no final, mesmo velha e já com netas, uma cartomante lê suas cartas e diz que ela ainda tem chance. ela fala "que está velha demais" mas decide ir mesmo assim ver se as cartas se concretizam. um conto leve e gostoso de ler, com uma pitada de frustração pela submissão da mulher.
WM
"rezo muito, mas não aos santos limpos, rezo aos outros, aqueles rasgados por espinhos, por
demônios"
"Por esse W ela foi subindo ágil com seu passo elástico, atingiu a ponta aguda da letra e ficou equilibrada lá no alto, bailarina de malha cor-de-rosa se apurando no seu exercício mais raro, as sapatilhas de cetim num prolongamento do ângulo. Desequilibrou-se e rolou pela encosta da letra até ficar comprimida no fundo, nesse segundo vértice que toca o chão. No escuro, presa entre as duas paredes, ela continua até agora."
"Levei-a para um hotel. Por dois dias esqueci Wanda, mamãe, esqueci aquele eme andando de cabeça para baixo, plantado nas mãos — esqueci tudo em meio ao gozo, eu estava precisado desse gozo feito de pausas amenas, Wing só falava amenidades com sua voz mais leve do que a asa de uma
borboleta."
" A noite estava gelada, mas era quente o hálito de Wanda me contando como lhe fazia bem a análise. Contei-lhe o quanto me fazia bem o amor"
WM: Conto interessante. Sempre me atrai a ideia de loucura de uma maneira onde enxergamos a realidade pela ótica do "louco". Ele é quem fazia a análise, mas enxergava como se fosse outra. Só sabia se ver de fora, maneiras de dessensibilização.
Lua crescente em amsterdã
"Os cabelos lhe caíam em abandono pela cara, mas através dos cabelos e da folhagem podia ver o céu."
"Se você me amasse mesmo, faria agora um ensopado com seu fígado, com seu coração. Meus cachorros gostavam de coração de boi, eram enormes. Não vai me fazer um ensopado com seu coração, não vai?— Meu coração é de isopor e isopor não dá nenhum ensopado."
"De onde vinha esse peso?
Das lembranças? Pior do que a ausência do amor, a memória do amor."
Mão no ombro - conto hermético pra caralho. revisitar algum dia. Sonho sobre morte, a morte tocando no ombro.
A presença
"Por mais tolos que esses velhos pudessem parecer, guardavam o segredo de uma sabedoria que se afiava na pedra da morte."
Sobre: acaba com os velhos, supostamente, matando o único hóspede jovem do hotel por envenenamento.
é um conto mais leve e ao mesmo tempo interessante de pensar sobre as coisas que mantemos e como nutrimos vínculos de posse. o hotel hospedava praticamente só idosos. ao chegar um jovem, isso põe em cheque uma rotina, familiaridades preestabelecidas e para alguns, isso é inaceitável. talvez um paralelo com o conservadorismo que também é brevemente citado no texto e as impunidades de quem comete atrocidades para defender esses ideais.
Noturno Amarelo
"aventura medíocre de gozo breve e convivência comprida."
"me vi a mim mesma, tão mais velha e ainda guardando uma ambígua inocência"
"estava tão jovem e de cabelos soltos e cara lavada que me perturbei: era como se me visse vir vindo ao meu próprio encontro num flagrante de juventude"
"seu riso era tão confiante que achei injusto que o tempo continuasse e quis correr e agarrar o pêndulo do relógio, para!"
"logo nos primeiros encontros descobri que a traição faz apodrecer o amor. Na rua, no restaurante, no cinema, na cama e em toda parte, Eduarda, você esteve presente. Cheguei um dia a sentir sua respiração"
"Não estava gostando nada dessa ideia de avião, por que os jovens têm mania de avião? Tão melhor um vapor, ih, as deliciosas viagens por mar"
Um dos meus favoritos. Desde o início a ideia de memória é retratada de uma maneira muito visual. É possível perceber em meio às palavras como aquilo tudo era uma alucinação de uma história que passa diante dos nossos olhos ao ver alguém. Uma família, amigos.
A Consulta: um dos mais fáceis de ler e uma ótima ideia. Deixar um paciente mental encarregado de cuidar de um espaço porque se acredita que ele está já melhor, quando ele não está, e isso acarretar na possibilidade dele fornecer conselhos perigosíssimos a um outro paciente (mas que, no fim, de fato, eu senti que faziam sentido seus conselhos de enfrentar a morte com morte, viver o medo para vencê-lo...) mostra como a terapia exige uma navegação complexa e estudo para lidar com pessoas. Um passo em falso pode causar uma tragédia.
Seminário dos Ratos: interessantíssima a ideia e conceito dos ratos assumirem e realizarem um seminário quando a ideia do seminário dos humanos era justamente exterminá-los e, devido à sua finitude e às suas limitações, desorganizações, perdem o controle. Os ratos se mostravam mais organizados e estratégicos do que os próprios humanos.