"Quando uma pessoa não se conhece a si própria, como pode sequer compreender os outros?"
Situações desesperadas pedem medidas desesperadas. Foi uma situação dessas que me trouxe até este livro. Frente a um título como A Arte de Amar, pus preconceitos à porta e comecei a leitura fiando-me nos conselhos de quem, ao contrário de mim, não liga patavina ao género, ao estilo ou ao "pedigree" dos livros, e apenas os consome para seu gáudio, sem prestar contas a quem quer que seja. Não cheguei ao ponto de fazer o mesmo daqui em diante, à minha maneira também tenho os meus preconceitos literários, mas acabei por descobrir em Elizabeth Edmondson uma escritora para os momentos mais tremidos (ou pelo menos mais aborrecidos) da vida.
Verdade se diga, as sinopses da sua obra - contrariamente ao que talvez fosse de esperar - até que me convenceram de que aqui poderia haver algum interesse, mas estava longe de adivinhar que interesse pudesse ser. A Arte de Amar não é um romance tipo fotonovela, como o que eu temia que fosse, na realidade é um mistério histórico, ambientado nos anos 30, bastante bem orquestrado, embora com uma escrita singela; com personagens interessantes e diálogos dinâmicos.
Mas, que títulos e capas mais pirosos para vender estes livros! Realmente, é uma literatura direcionada a mulheres (suponho - já que as personagens principais são mulheres e expressam preocupações de mulheres; mas isto é tudo muito redutor porque qualquer escritor se foca sobretudo em personagens que são homens e que revelam preocupações essencialmente masculinas, e nem por isso a leitura dos seus livros deixa de ter o seu interesse para as leitoras, mas enfim); dizia que é uma literatura mais virada para o público feminino, com ambiente boémios e exóticos, um desenrolar de ação mais contido, e um final muito compostinho - mas daí a vender um romance/mistério como literatura cor de rosa vai um salto gigante. Talvez essa opção atraia um tipo de leitores, mas, certamente, afasta muitos outros.
Em meia dúzia de palavras, Polly Smith descobre não ser quem sempre pensou e, feita essa descoberta, parte numa jornada mascarada de intriga amorosa, em busca da sua verdadeira identidade. Pelo meio é apanhada numa conspiração criminosa e numa série de intrigas familiares que aguçam a curiosidade do leitor, claro.
"(...)temos de ter imenso cuidado com o que fazemos e com todas as decisões que tomamos porque, num abrir e fechar de olhos, está tudo acabado e não podemos mudar nada. Irreversível. (...) E quando pensamos que o passado está arrumado ele invade o presente e causa todo o tipo de problemas."
Descontando o facto de nunca se debruçar muito seriamente sobre problemática alguma, Edmondson abre portas a algumas questões interessantes neste livro - questões que se prendem sobretudo com papéis de género, expectativas da sociedade, opções de vida, decisões impulsivas e a necessidade de controlar o nosso destino. Esta Polly Smith é uma personagem interessante, embora algo superficial (arrisco dizer que porque direcionada a um público que, pela lógica , não seria eu que sou a chatinha da caracterização psicológica), cuja odisseia de auto-descoberta não deixa de ser um modelo relativamente credível e curioso de acompanhar.
Embora não sendo uma literatura exigente, intelectualóide ou académica, A Arte de Amar oferece uma narrativa muito luminosa (sendo luminosa a palavra certa) onde os imbróglios não terminam, do princípio ao fim do livro, dessa forma mantendo o leitor distraído do mundo em redor e focado nos cenários complexos que a autora cria. Facilmente nos agarramos ao ambiente familiar e às paisagens estrangeiras, e, claro, queremos descobrir como tudo acaba.
"Uma pessoa que não tem familia, ou que tem uma família pequena, forma uma imagem idealizada da vida familiar (...). Na verdade, as familias são, na maioria, unidades complexas onde reina uma hostilidade antiga e emoções voláteis, lado a lado com quaisquer laços de afeição que possam ou não existir."
Funciona, se me perguntarem, como os sorvetes ou shots cítricos que se servem nos grandes jantares para limpar o palato. E a verdade é que sem eles a refeição não seria a mesma.