#remember December
3,5*
Regresso a este livro de Patrick Süskind passados mais de 20 anos, quando só tinha uma vaga ideia deste Sr. Sommer mas uma imagem mais clara do final.
Novos ou velhos, todos nós temos os nossos tormentos, que podem não ser levados a sério quando somos crianças ou ser considerados bizarrias quando somos adultos. Os dramas do jovem protagonista são próprios da idade: a primeira paixonite, aprender a andar de bicicleta, as comparações com os amigos…
“Um aparelho de televisão não entra em minha casa”, decretara o meu pai, que tinha nascido no mesmo ano em que morrera Giuseppe Verdi, “pois a televisão acaba com a prática da música em casa, arruína os olhos, estraga a vida em família e leva a uma imbecilidade generalizada." Infelizmente nesse aspecto a minha mãe não o contradizia e, por isso, eu tinha de ir a casa do meu amigo Cornélio Miguel para, pelo menos de vez em quando, poder usufruir de acontecimentos culturais tão significativos como “Mãe é o Melhor do Mundo”, “Lassie” ou “As Aventuras de Hiram Holliday.
…ter de suportar aulas de piano sem o menor talento, com a presença ameaçadora de professores tiranos. É algo que me encanita: de Carson McCullers a Ian McEwan, se as aulas de piano nunca são uma experiência de infância positiva, por que é que os pais submetem os filhos a tal tortura? Coisas que transcendem uma suburbana pouco requintada…
Depois de uma dessas aulas saídas das profundezas do inferno, que envolve uma épica ranhoca numa tecla, o pequeno narrador decide pôr fim à sua curta vida subindo a um gigantesco pinheiro.
Esplêndidas estas fantasias! Eu regalava-me com elas, brincava com novas variantes do enterro, desde o amortalhar do corpo até à refeição depois do enterro, durante a qual eram pronunciados os epitáfios elogiosos sobre mim e, por fim, eu próprio estava tão comovido que, embora não soluçasse, estava a ficar com os olhos húmidos. Era o mais belo enterro que alguma vez alguém tinha visto na nossa região (…). Uma pena era eu não poder, de facto, tomar parte em tudo isto, pois estaria morto. Sobre isso não havia infelizmente qualquer dúvida. Eu tinha de estar morto no meu próprio enterro.
É nesse momento que, 30 metros abaixo de si, passa o Sr. Sommer, um homem que sofre de claustrofobia e calcorreia incessantemente a aldeia e a floresta circundante. Seja na vertical ou na horizontal, Patrick Süskind sugere com alguma ligeireza que pode avançar-se inexoravelmente para a morte e dar-se o passo final… ou não.