31/12/57
Sobre manter um diário.
É superficial encarar um diário apenas como um recetáculo dos pensamentos privados e secretos de cada um — como um confidente surdo, mudo e analfabeto. No diário não só me exprimo de uma forma mais aberta do que faria com qualquer pessoa, mas crio-me a mim própria. O diário é um veículo para o meu sentido de individualidade. Representa-me como emocional e espiritualmente independente. Em consequência (infelizmente) não é um registo simples da minha vida diária — em muitos casos — oferece uma alternativa a ela.
Admiro a disciplina de manter um diário — são muitos os autores que aprecio que conservam esse hábito —, e percebe-se perfeitamente não só a compulsão para o fazer, enquanto ferramenta de libertação, mas também a ideia do ato de escrita como exercício de criação. É também para aí que aponta não só esta entrada de Sontag — quando tinha ainda 24 anos —, mas também as reflexões de diaristas como Woolf, Nin (e muitos outros, certamente).
A ser assim, e na medida em que cada diário é um registo mais ou menos depurado consoante o seu autor, não é uma aproximação fiel de quem o escreve, mas é, arrisco, a mais fiel que temos ao dispor.
E enquanto a sua escrita pode ser, e é, uma atividade solitária, a leitura de um diário, na medida em que agride a intimidade do seu autor — normalmente quando ele já nada pode a esse respeito — torna-se uma experiência conjunta desconcertante. E das duas uma: ou nos coibimos e resguardamos no respeito pela privacidade dos seus donos e arriscamos perder toda a riqueza que estes escritos guardam, ou assumimos a violência do nosso ato e honramos a partilha de uma intimidade que pouco tem de natural — ainda que a maioria dos escritores saiba o que espera a sua coleção de diários.
De qualquer forma, percorrer estes diários tem o seu quê de especial. Susan Sontag, que nas palavras do filho, adorava diários e cartas — quanto mais íntimos, melhor, entendeu, desde cedo, a sua conceção como sendo de natureza dúplice, e assim se servia deles: por um lado como confidentes, e por outro lado como registos não estáticos que lhe permitiam dialogar consigo mesma — o que explica as anotações à margem que vai fazendo, ao reler, ao longo dos anos, as entradas antigas. Por isso, os inúmeros cadernos que escreveu funcionam como misto de diário e apontamento, entrecruzando confissões, fragmentos de conversas e fragmentos biográficos, listas de leituras e filmes, críticas, reflexões, analogias, memórias, descrições e retratos.
Escritos entre 1947 e 1963 (ou seja, entre os 14 e os 30 anos, sensivelmente) os textos que se publicam em Renascer não são obra de maturidade, nem obra da argúcia de uma escritora experimentada, são um fluxo de pensamento de cadência natural numa adolescente algo errante que começava a despertar para as condicionantes do amor, da filiação e do género...
19/08/48
Só consigo pensar na mãe, como ela é bonita, como a pele dela é macia, como ela me ama. Na maneira como ela estremeceu quando chorou na outra noite — não queria que o pai, na sala ao lado, a ouvisse, e o ruído de cada vaga de lágrimas sufocadas era como um enorme soluço — que cobardes são as pessoas que se envolvem, ou melhor, que se deixam envolver, por rotina, em relações estéreis — que vidas pútridas, sombrias e miseráveis elas vivem —
Como posso eu magoá-la mais, vergada como ela está, sem nunca resistir?
Como me posso ajudar, fazendo-me cruel?
... e para as limitações das instituições sociais e culturais: desde a educação superior, que encara como uma variedade de cultura popular, às universidades que vê como meios de comunicação de massas mal geridos, ou ao casamento, essa instituição devotada ao entorpecimento dos sentidos cujo objetivo absoluto (...) é a repetição.
Daqui se vê que os diários são também palco de conflitos íntimos. Casada aos 17 anos, Sontag não se acanhava de procurar entender uma sexualidade com a qual se vinha a debater (ainda que, por um tempo, apenas na privacidade do diário). Muito reservada ao longo da vida acerca das suas escolhas de parceiros sexuais — não da experiência sexual, em si mesma —, Sontag reflete nestes textos acerca do receio da experiência homossexual que, de início, parece encarar como um quase devaneio das frustrações de uma vida em comum demasiado intensa. As suas primeiras explorações soam-nos intimidantes e assustadoras até que a autora perceba nelas a sua liberdade.
Será já muito mais tarde (em 1959) que Sontag associará a sua identidade à sua homossexualidade, afirmando: Eu necessito da identidade como uma arma, para igualar a arma que a sociedade tem contra mim. Antes disso, as primeiras experiências, as primeiras relações extra-conjugais, o divórcio, tudo representa uma experiência sumativa que Sontag vai procurando racionalizar, escalpelizando cada evento da sua vida com uma frieza por vezes cortante:
(...) se tudo é valioso - mesmo a formiga — se a formiga não deve ser morta, porque tem tanto valor quanto eu, então, implicitamente, eu tenho tão pouco valor quanto uma formiga — as pessoas não são todas o mesmo, ou valem todas o mesmo — permitir que um mal aconteça é apoiá-lo — Há violência justa
No espaço relativamente neutro do diário — de cuja existência não fazia segredo, mas no qual trabalhava em reclusão — não há verdadeiro receio de se expor. Sontag não partilhava excertos dos seus apontamentos, não os dava a ler, não os publicitava. Sabia, quando vendeu a sua obra à biblioteca da Universidade da Califórnia,, em Los Angeles, que os seus diários passariam a domínio público uma vez que morresse, mas esses dias ainda vinham longe. Entre 1947 e 1963, as folhas brancas dos seus cadernos revelam a Sontag que viria a ser, em anos posteriores, capaz de se afirmar pela sua voz, capaz de recusar assuntos que não lhe interessavam, capaz de interromper conversas que não lhe agradavam ou de encaminhar assuntos para onde lhe fosse mais útil.
Ainda antes dos 20 anos, no entanto, já Sontag corria as cadeiras e palestras da faculdade com um crivo,— e ninguém — professor, palestrante, escritor —, independentemente do título, obra ou prémio, escapava à sua crítica feroz. Desde sempre, o seu foco era o de desmantelar os significados, as expressões, as metáforas — que lhe ocuparão grande parte da vida. Para Sontag não há facilidades, e escrever não é sinónimo de autoridade, é sinónimo de sacrifício. O preço da liberdade é a infelicidade. Tenho de contorcer a minha alma para escrever, para ser livre, escreveria em 1958.
Talvez por força da sua racionalidade, a Sontag destes diários parece uma jovem precocemente envelhecida, desiludida com o mister intelectual tanto como fascinada com o conhecimento. Numa entrada do mesmo ano da anterior, desabafava: Eu rego com livros a minha mente em branco.
Canónica nas suas escolhas, Sontag era uma feminista que não recusava a herança patriarcal, antes a absorvia para a trabalhar a seu belo prazer. Listas imensas de autores consagrados dão-nos a ideia do que já tinha lido e haveria de ler: Gide, Kafka, Joyce, Barthes, Camus, eram os modelos em que mais trabalhava, e trabalhava, e trabalhava. No meio das noites de bares, das experiências sensuais, da descoberta e desfrute da sua sexualidade, espraia-se o constante trabalho de uma autora que via na seriedade uma virtude maior.
Os diários são também, acredito, a chave para toda uma obra enraizada no prazer, no amor e na sexualidade — a que Sontag justapõe o pensamento, o conhecimento e a consciência. Sem formas polarizadas, sem categorias de género, sem estereótipos.
O escritor debate sempre a questão de a obra o representar ou não. É discussão que surge, inevitavelmente, ao longo da carreira de qualquer autor — e Sontag também não lhe escapa. Normalmente, as suas respostas são rápidas e duras: autor e personagens não são uma e a mesma coisa. Cerca de oito anos antes da sua estreia com a publicação de The Benefactor, no entanto, Sontag refletia sobre a máscara não como encobrimento, mas como projeção, ou aspiração. O escritor, através da máscara (podemos dizer, através do seu diário?), não se oculta, não se encobre. Ele não protege o seu eu genuíno — ele supera-o.