“Todos viajamos”, comentei, “apesar de permanecermos em casa.” Esta contribuição filosófica foi recebida com um murmúrio de aprovação e eu fui aceite como alguém com quem uma conversa racional não era impossível. (Freya Stark)
Foi a icónica Annemarie Schwarzenbach que deu o mote a Sónia Serrano para a composição de “Mulheres Viajantes”, uma obra interessantíssima, mesmo para uma pessoa caseira como eu, que prefere viajar mentalmente e cujo espírito de aventura atinge o seu auge ao comprar livros de que nunca ouviu falar, porque “o que importa é o que se vê e como se vê, o processo de transformação mental que se opera e nos transforma”, o que também é possível através da imanência.
Num livro muitíssimo bem organizado e explanado (apesar das gralhas que espero que tenham sido corrigidas em edições posteriores), dividido em capítulos temáticos com a origem das notas de consulta fácil no final, Sónia Serrano esboça retratos de mulheres audazes e curiosas que tinham tudo contra si, desde as convenções sociais à pressão familiar, não esquecendo os obstáculos de ordem prática, como limitados recursos financeiros e roupas que lhe dificultavam os movimentos, em viagens que recuam a tempos tão remotos como o ano de 380 (uma peregrinação à Palestina por Egérnia) até aos dias de hoje, com a portuguesa Alexandra Lucas Coelho.
Depois de uma primeira parte introdutória, com tópicos tão cativantes como “A Mulher e a Viagem”…
Ao representar conquista e domínio, mesmo que já não existam novos territórios para desbravar, a viagem autêntica é comparada com o sexo. Logo, às mulheres não é permitido, ou não seria historicamente permitido, entrar nesse mundo a sós. Apenas a mão experiente do marido as poderia guiar, “a uma rapariga deve ser mostrada a Europa – ou levada a viajar – pelo marido – ela não tem nada que ver o mundo antes. Ele leva-a, ele inicia-a”, profere Henrietta Reubell em 1892, numa frase registada pelo seu amigo Henry James.
…“A Mulher e a Escrita”…
“Há quem distinga várias fases no desenvolvimento desta literatura, sobretudo de tradição inglesa: a fase do “feminino”, aproximadamente entre 1840 e 1880, que envolve a imitação da escrita masculina e um enfoque na esfera doméstica; uma fase “feminista”, entre 1880 e 1920, caracterizada pela oposição aos valores e ao domínio masculinos; e, finalmente, desde 1920, a fase da “mulher”, marcada pela consciência da identidade feminina e da autodescoberta.”
…“Os Perigos”…
Em Portugal desconhece-se completamente a arte culinária. A cozinha é tão má como a de Hespanha, e já não é dizer pouco. Desde a sopa até à sobremesa nada se faz sem azeite. Não é só isto que a torna abominável, são os cozinheiros do paiz que podem alcunhar-se estraga môlhos. (Marie Rattazzi 1813-1883)
…e “A Logística da Viagem”, que nos servem de contexto e nos providenciam informações preciosas, inicia-se o rol de anti-Penélopes que ousaram partir, algumas temporariamente, outras para sempre. Entre os muitos perfis, os seguintes encontram-se entre os meus preferidos, pelo sentido de humor, pela presença de espírito, intrepidez ou interiorização do espaço circundante.
Lady Mary Wortley Montagu (1689-1762)
À jovem não faltavam pretendentes; ela própria relata como numa festa um jovem conde, cujo nome omite, se lhe dirige nestes termos: “Senhora, quer a sua estada seja curta ou longa, penso que deve passa-la de forma mais agradável possível, e com esse fim deve comprometer-se num pequeno affaire do Coração. O meu Coração, respondi gravemente, não se compromete muito facilmente, e não tenho desejo de separar-me dele.
Lady Hester Lucy Stanhope (1776-1839)
As relações entre Hester e Byron não serão as melhores. O poeta acha os jantares com ela pouco agradáveis, porque nas suas conversas ela o incita à discussão, já que possui, segundo ele, “that dangerous thing – a female wit”.
Freya Stark (1893-1993)
Quando, por exemplo, chegam à fronteira iraniana e um polícia lhe pergunta par aonde vão, Freya fita-o apenas “com uma inexpressiva imbecilidade a que a ele lhe pareceu perfeitamente natural.” Com efeito, “o grande e quase único conforto de se ser mulher é a possibilidade de nos fingirmos mais estúpidas do que realmente somos, sem que ninguém fique surpreendido.”
Isabella Bird (1831-1904)
A sua primeira viagem séria é feita aos 23 anos, depois de um médico sugerir ao pai que a saúde dela poderia melhorar consideravelmente se fizesse uma longa travessia marítima. Refira-se que estas maleitas femininas, segundo alguma opinião, não eram incomuns entre raparigas inteligentes que se sentiam frustradas pelas convenções sociais constringentes e pela falta de uma educação formal.
E para desenjoar da costumeira hegemonia britânica tão do meu gosto, Annemarie Schwarzenbach (1908-1942), obviamente.
De todas as cidades que conheço, nenhuma me acolheu tão bem como Lisboa, da primeira vez que aqui vim. Esta capital de um pequeno país, sem dúvida encantador, mas manifestamente semiesquecido pela história, estava antes tão fora das nossas rotas habituais que nunca me dera ao trabalho de a visitar pelos seus próprios atractivos.
Já na secção das “Contemporâneas”, tenho algumas reticências quanto à inclusão de Jan Morris, que desde 1926 até 1972 viveu como homem, não por ser uma mulher trans, facto que não me incomoda de todo, mas porque foi como homem que estabeleceu alicerces para a sua carreira e ganhou reputação como escritor de viagens. Mal comparado, seria como incluir num livro que regista as conquistas de invisuais aquelas que foram realizadas por alguém antes de cegar. É, portanto, outro campeonato.
Para terminar, porém, em alta, nada como um olhar sobranceiro de um estrangeiro sobre o nosso país para testar o nosso amor-próprio.
Os lisboetas sentem orgulho de Alfama, que se assemelha às piores páginas de Victor Hugo. Farrapos, cheiros e emanciação andam aqui a par. (…) No entanto, os portugueses estão ansiosos por mostrar Alfama como um pedaço de cor local. (Mary McCarthy 1912-1989)