Luís Osório,jornal i
"O último livro do Nobel português é apenas um golpe publicitário
José Saramago foi um dos mais extraordinários inventores de ideias universais e também de uma original métrica de palavras e pontuação. Ficará na história da literatura portuguesa e continuará a ser, por longas décadas, uma referência ideológica e de pensamento para milhares de pessoas em todo o mundo. Numa escolha subjectiva e meramente pessoal, três dos seus livros ajudaram-me a perceber o mundo, a alargá-lo e a questioná-lo: "História do Cerco de Lisboa", "Memorial do Convento" e "Ensaio sobre a Cegueira".
Na sua vida foi um polemista, não se desviou dos confrontos, assumiu de frente os combates que achou por bem. Exilou-se em Espanha numa fuga ao lado mais sombrio do cavaquismo. Manteve-se comunista até ao fim, mas, ao contrário da larga maioria, ganhou dentro do PCP um estatuto de excepção, o de individualista. No final da sua vida, muito pela influência de Pilar, reaproximou-se de Portugal. Não fez tudo bem, como qualquer homem ou mulher, mas marcou o seu tempo, carimbou-o com um apelido que à partida o condenaria ao anonimato dos pais ou avós.
Por tudo isto, não é concebível a forma como se lançou "Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas". Vinte e poucas páginas escritas, poucas notas do autor e o desejo de uma frase para o final - a isso juntaram-se imagens de Günther Grass, comentários do seu biógrafo e de um escritor italiano... Os autores da ideia executaram um plano estratégico de ataque aos mercados vendendo a ideia de que o projecto de livro é um Saramago "vintage". Não havia necessidade.
É um golpe publicitário que Saramago não merecia, um oportunismo mascarado de interesse público. Se Saramago tinha 20 páginas originais, deveriam ser divulgadas e ficar no seu espólio, não ser vendidas num embrulho que, fazendo muito volume, o empequenece. Celebrar o escritor e a sua genialidade criativa é um dever de todos os que preservam a memória. Aplaudirei homenagens a tudo o que nos deixou, mesmo àquilo de que gostei menos ou ao que nada me disse. Não me peçam é que aplauda o que ele próprio rejeitou em vida: a glorificação do mercado. Para um escritor que sempre fez segredo dos seus livros, que apenas os divulgava quando estavam finalizados, é de uma feroz ironia que o seu último livro passe a ser um que não passou do princípio".