esse foi o primeiro livro que li da mariana, e, como sempre faço, comecei a leitura sem saber o que esperar. esse é um dos encantos de ler sem ler as sinopses: a história nos toma de surpresa. eu não sabia o quanto esse livro iria mexer comigo, não apenas pelo tema do luto, mas pela forma como ele se infiltra nas pequenas coisas do cotidiano.
o luto, na história de ana, não é apenas sobre a morte do marido. claro, o evento que dá início a tudo é absurda, mas a dor que vem depois é muito mais silenciosa, muito mais insidiosa. o que me tocou profundamente foi a maneira como o luto se espalha, como ele se infiltra em todos os cantos da vida de ana. não se trata apenas das emoções, mas dos espaços físicos que ela ocupa. a maneira como ela descreve a sensação de entrar em casa e não reconhecer mais os cômodos, o ambiente que antes era compartilhado com ele, como se cada canto da casa carregasse a marca da ausência. é uma dor invisível, mas profundamente real. o luto está na necessidade de se reencontrar com a própria casa, com os próprios objetos, com a memória do que já foi. e isso é, de longe, muito mais difícil de lidar do que a própria morte.
e, nesse processo, uma frase que mudou a química do meu cérebro a partir de hoje é: "não é que o tempo diminua a saudade, o que ele faz é diluir a memória."essa frase resume exatamente o que acontece com ana: o tempo não apaga a saudade, mas muda a maneira como lidamos com ela. a memória se torna mais difusa, mais tênue, e a dor se transforma em eco, um resíduo do que um dia foi. a ideia de que a saudade se dilui ao longo do tempo, mas não desaparece, é central no livro. não se trata de esquecer. é sobre aprender a conviver com o que foi perdido.
a maternidade, então, surge como mais uma camada nesse processo de transformação. ana está grávida e terá que encarar o peso e a responsabilidade da maternidade sozinha. a sensação de solidão é avassaladora, especialmente porque todos ao seu redor acabam se afastando. esse fardo se soma ao luto pela perda de andré, tornando a dor ainda mais complexa e multifacetada. e quem aparece para ajudar é madalena, a viúva do homem que causou o acidente. ela é uma presença desconfortável e inesperada, mas, aos poucos, se torna um apoio para ana.
senti falta de saber mais sobre madalena, mas talvez seja essa a natureza do luto: a gente não consegue enxergar ninguém direito mesmo. todo mundo fica borrado. até a gente.
não fossem as sílabas do sábado não é sobre grandes reviravoltas ou momentos de drama excessivo. é sobre a dor silenciosa que se instala, sobre o vazio deixado pela perda e sobre o que resta quando a vida segue. é sobre a luta de aprender a viver com a ausência, ao mesmo tempo em que se encontra forças para seguir em frente, para reconhecer a casa, a vida e a si mesma de uma nova maneira. um livro delicado e profundo, que fala sobre os silêncios da vida, as pequenas ausências que formam a saudade.