Edward W Said - Orientalismo. Representações Ocidentais do Oriente
Orientalismo de Edward Said é um livro sobre as representações que o ocidente faz do “Oriente”, tema que o autor analisa em três dimensões – numa perspectiva histórica, uma outra literária e de filologia e uma última política. São dimensões diferentes que Said entrelaça e entre as quais estabelece pontes. Sendo ele professor de literatura comparada e especialista em filologia, como decorre do texto, dá mais ênfase a estes aspetos, o que me parece excessivo para que um leigo o possa acompanhar. Contudo, nesta abordagem que seguramente faz com adequação e profundidade, a limitação é seguramente minha. Porém o que mais me interessa são os lados político e histórica que no contexto do livro me parecem ficar demasiado perdidos.
Quando o autor aborda o “orientalismo” pelo lado político e histórico o texto ganha uma outra vitalidade e capacidade de agarrar o leitor, e fá-lo com tal intensidade que fico com curiosidade em ler outras obras suas como “A Questão da Palestina” ou “Cultura e Imperialismo”.
Em Orientalismo a questão essencial para Edward Said é a forma como o ocidente vê o oriente, e de que forma essa visão deturpa a realidade mas também inquina o que o ocidente conhece do “Oriente”, atribuindo-lhe características que ele não tem. Diz o autor – quem observa, o que observa não corresponde ao observado. Diz ainda que este erro de paralaxe resulta de preconceitos, e que estes resultam em novos preconceitos dificultado o conhecimento da realidade quanto mais se aprofunda esta abordagem de conhecimento.
A leitura que Said faz da realidade está correta, mas tirando preconceitos óbvios o autor deveria ser mais prolixo em nomeá-los. E este aspecto parece-me importante porque a distância entre quem observa e o que é observado existe sempre. Quantos estrangeiros como Henry Fielding; Ramón del Valle-Inclán; Richard Francis Burton; Miguel de Unamuno; Edith Wharton; Johann Wolfgang von Goethe; Charles Dickens; Hans Christian Andersen escreveram sobre os portugueses descrevendo-os como um povo dado à saudade, à melancolia e fatalismo, à espiritualidade e à introspecção. Estavam errados? Enquanto povo damos estas impressões a quem nos visita, ou são injustas estas observações? É óbvio que os observados têm sempre uma opinião enviesada sobre si. Empresas e organizações quando pretendem uma avaliação isenta não a procuram fora do seu círculo interno?
A relação entre “Nós e os Outros” é sempre uma relação complicada. Numas coisas vemo-nos piores do que nos descrevem, mas o saldo é habitualmente mais positivo para o nosso lado. Eu sou português, sou melhor que os “outros”. Sou do Porto, sou melhor que os do outro lado do rio. Sou melhor, assim me vejo, que o meu vizinho de cima apesar do mesmo estar em quase tudo um nível acima de mim. Porém, será que isto faz de mim xenófobo, racista, narcisista ou apenas humano? Nunca somos o que achamos que somos e muito menos quem gostaríamos de ser! E é isto que Said não colocou em equação. Nunca somos o que gostaríamos de ser nem provavelmente como os outros nos veem. Somos apenas humanos.
Para Edward Said Orientalismo significa a forma como o ocidente vê e descreve o oriente. Partindo deste pressuposto Edward Said descreve-nos de que forma o conceito foi evoluindo ao longo da história, que transformações teve e como foi transformado e moldado em diferentes contextos por múltiplas figuras que sobre ele se pronunciaram desde a antiguidade clássica mas de forma mais incisiva nos séculos XIX e XX.
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Said argumenta que as primeiras noções de "Oriente" já aparecem na Grécia e na Roma antiga, onde o Oriente (principalmente a Pérsia) era visto como o oposto, uma região exótica e desconhecida, mas em simultâneo uma ameaça ao mundo greco-romano (obras de Heródoto e as descrições das Guerras Persas, começam a delinear uma imagem do Oriente como o "Outro".
Durante a Idade Média, o contato entre o Ocidente e o Oriente intensificou-se durante as Cruzadas e com o comércio com o mundo islâmico. Nesta representação, para além do perigo do outro, perigo que foi amplificado quando os preconceitos religiosos e culturais manifestaram a sua influencia e os muçulmanos eram retratados como inimigos da cristandade (escritos de S. Tomas de Aquino e os cronistas das cruzadas). Com o renascimento as trocas comerciais aumentaram de intensidade e com elas as trocas culturais e uma mais profunda curiosidade pela cultura oriental (relatos de Marco Polo e de outros viajantes europeus).
Com a expansão dos impérios e as fronteiras coloniais (sec XVII e XVIII), o conceito de orientalismo começou a cristalizar no ocidente como uma disciplina académica. Nesse período, o Oriente e particularmente o que se relacionava com o Oriente Médio, a Índia ou a China começou a ser estudado de forma sistemática, mas sempre dentro de uma estrutura de dominação imperial. O conhecimento produzido sobre o Oriente servia para facilitar a dominação colonial (Bernard Le Bovier de Fontenelle; William Jones). O século XIX marca a consolidação do orientalismo como uma disciplina e temática académica à medida que os impérios europeus (especialmente o britânico e o francês) intensificavam sua presença no Oriente. Durante esse período, o orientalismo tornou-se mais científico e institucionalizado, e figuras como filólogos, historiadores e arqueólogos dedicaram-se ao estudo do Oriente, mas sempre dentro da lógica do poder imperial. O Oriente era visto como algo a ser "classificado", "civilizado" e "controlado" (campanha Egípcia de Napoleão Bonaparte; Ernest Renan; Silvestre de Sacy; Edward William Lane).
No século XX, o orientalismo continuou a ser uma ferramenta poderosa da política imperial dos estados, mesmo com o declínio formal dos impérios europeus após a Primeira Guerra Mundial. As representações do Oriente, especialmente no cinema, na literatura e nos meios de comunicação de massa, perpetuavam estereótipos sobre os povos orientais, agora vistos sob a lente do "subdesenvolvimento" e da necessidade de modernização ocidental. Ao mesmo tempo, movimentos nacionalistas e de resistência nos países orientais começavam a emergir, questionando essas representações e lutando pela descolonização (T.E. Lawrence; Gertrude Bell; obras como "As Mil e Uma Noites" foram adaptadas ao cinema para criar uma imagem de fantasia e exotismo que influenciou gerações de ocidentais, desde Hollywood até os romances de aventura).
Com o fim dos impérios e os movimentos anticoloniais, e em especial a partir da segunda metade do século XX, houve um crescente questionamento do orientalismo, à medida que os países anteriormente colonizados se tornavam independentes e os acadêmicos pós-coloniais começaram a criticar as representações ocidentais do Oriente. Said coloca-se como parte desse movimento de busca e desafio às premissas e ideologias que sustentaram o orientalismo por séculos (Said; Frantz Fanon; Aimé Césaire; Albert Memmi).
Segundo said, o orientalismo, segundo Said, resulta de um processo evolutivo no qual o Ocidente, ao longo dos séculos, construiu e refinou uma visão distorcida do Oriente, cada vez mais institucionalizada e ligada ao poder imperial, um processo pelo qual não se representava apenas um oriente que dessa forma ficava cada vez mais moldado à dominação imperial.
Para Said o termo orientalismo representa um discurso no sentido foucaultiano, ou seja, um conjunto de práticas, representações e conceitos que moldam a forma como o Oriente é conhecido e entendido, e o poder é exercido pelo de forma a justificar o colonialismo e o imperialismo ocidentais. O oriental é visto como o outro, alguém, um local oposto ao ocidente, um lugar de exotismo, irracionalidade, atraso e despotismo, em contraste com o Ocidente. Para Said estas representações são simplificações distorcidas que negam a complexidade e a diversidade das culturas orientais.
Neste processo de descrição, há o poder de controlar o que se descreve o que de acordo com Michel Foucault é uma forma de poder. O ocidente ao descrever o seu oposto, o oriente, controla e domina o conhecimento que produz. Este poder legitimado pela descrição desempenhou um papel importante no processo de colonização (Médio Oriente, Ásia e Norte da África(.
Para Said, esta visão deturpada que o Ocidente fazia do Oriente resultava de o tratar como uma entidade única; frequentemente descrito com estereótipos simplificados de exotismo, sensualidade, misticismo ou o despotismo; as narrativas orientais construídas pelo Ocidente descreviam o Oriente como passivo, decadente ou incapaz de autogovernar-se. O Oriente era visto como algo a ser "descoberto", "estudado" e "civilizado" pelo Ocidente, negando qualquer agência ou iniciativa própria aos povos orientais. O oriental era um objeto da história, enquanto os ocidentais eram os sujeitos, ou seja, os protagonistas do progresso e da civilização; as narrativas ocidentais descreviam o Oriente como atrasado e irracional, e deixavam de fora todos os aspectos que não se encaixavam nessa imagem. Mesmo eventos históricos complexos, como revoluções ou resistências, eram interpretados como sinais de fraqueza ou desordem, sem um esforço genuíno para entender as causas profundas desses movimentos; o Oriente era frequentemente retratado como exótico, misterioso e sensual – um lugar de fantasias e escapismo. Essa imagem, em grande parte fantasiosa, era usada tanto na literatura quanto na arte, reforçando a ideia de que o Oriente era algo "outro", diferente e inferior ao Ocidente, mas ao mesmo tempo atraente no seu exotismo; Said acusa ainda os estudiosos ocidentais de se terem apropriado do saber sobre o Oriente para seu próprio benefício, sem reconhecer ou valorizar os intelectuais e pensadores orientais; o Orientalismo é ainda uma ferramenta de poder político que justifica a expansão colonial, a intervenção militar e as políticas imperialistas do Ocidente. Ao representar o Oriente como incapaz, o Ocidente encontrava uma justificativa para invadir, colonizar e dominar essas regiões, afirmando que era para "ajudar" ou "civilizar"; as representações ocidentais frequentemente retratavam o Oriente como algo preso ao passado, incapaz de se modernizar ou acompanhar o progresso. No entanto, Said argumenta que isso ignorou os processos e transformações que ocorreram nas sociedades orientais, especialmente na segunda metade do século XIX e no início do século XX reforçando dessa forma as estruturas de domínio.