“eu queria pouco saber se aos oitenta e quatro anos via a minha própria mulher como a mãe necessária para uma sobrevivência equilibrada, era certo que me atrapalhavam todas as coisas que enfrentava sozinho, já há tanto estávamos no tempo da reforma, tão habituados a depender um do outro para o gasto dos dias, a alegria dos dias, e a gestão ainda de uma certa nostalgia dos filhos, ela não gostava muito que eu o pensasse, e menos ainda que o dissesse, mas era-me claro que já não mandávamos nos filhos, crescidos e independentes, fazendo isso com que parte dos nossos papéis ficassem vazios, era como morrer para determinadas coisas, restava apenas uma nostalgia.”
- António Jorge da Silva
-—-
“um dia essa saudade vai ser benigna, a lembrança da sua esposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói uma memória que nós nos orgulhamos de guardar, como um trofeu de vida. um dia, senhor silva, a sua esposa vai ser uma memória que já não dói e que lhe traz apenas felicidade, a felicidade de ter partilhado consigo um amor incrível que não pode mais fazê-lo sofrer, apenas levá-lo à glória de o ter vivido, de o ter merecido, tenho até inveja de si, senhor silva.”
- Américo Setembro
-—-
“andar pelo cemitério é a última coisa de velho a entrar-nos na cabeça. é o que verdadeiramente nos torna velhos sem regresso, diferentes dos outros humanos. afeiçoamos-nos à morte. é como se fôssemos cortejando a confiança dessa desconhecida, para nos encantarmos, quem sabe. ou para percebermos como lhe podemos escapar ainda. coisas diversas e complementares, porque os nossos sentimentos vão oscilando entre uma necessidade de ultrapassar o impasse do fim da vida, e o trágico de que isto se reveste. a coragem tem falhas sérias aqui e acolá. e nós que não somos feitos de ferro, falhamos talvez demasiado, o que nem por isso nos torna covardes, apenas os mesmos de sempre. os mesmo vulneráveis e atordoados seres humanos de sempre. tanta cultura e tanta fartura e a pé da morte a igualdade frustrante e a mesma ciência. sabemos todos rigorosamente uma ignorância semelhante, e assim não há quem aponte um caminho mais fácil, mais interessante das vistas, mais proveitoso, mais acompanhado, um caminho disparatado que é partir sem na realidade se sair do lugar.”
- António Jorge da Silva
-—-
“eu queria muito que a minha velhice não tivesse de ser a sobrevivente do casal, porque a laura, com o seu modo de resistência, saberia implodir melhor do que eu, mantendo intacta a estrutura exterior, atendendo sem falha aos apelos quotidianos dos nossos, eu queria ser o lado pragmático do casal, mas eu era o dos poemas, o lado mais burro e incompetente dos afectos, ainda que aqui e acolá dotado de tanta fantasia e beleza.”
- António Jorge da Silva
-—-
“quando eu estiver para morrer não me tragam um padre, não permitam que me toque ou se ponha a rezar ao pé de mim. quando eu morrer quero garantir que não vou para o céu.
se algum anjo me vier buscar, cortem-lhe as asas, afoguem-no, mas não o deixem escapar comigo por aí acima, quero ser deitado fora. metido aí para baixo de terra como ficam as coisas a que ninguém se lembrou de imaginar uma alma. não autorizo que me levem para o céu. não autorizo que me levem senão para o fundo porco da terra onde os bichos me comam e me poupem, para sempre, do incómodo de estar consciente da injustiça que é existir.”
- António Jorge da Silva
-—-
“fora uma ingenuidade da minha parte achar que armado com um livro me armara para todos os inimigos do mundo.”
- António Jorge da Silva