O livro "Jesus Cristo Bebia Cerveja", do escritor português Afonso Cruz, é já o sexto livro que leio do mesmo e, tal como me aconteceu com alguns dos livros deste autor, começo por gostar da história que é narrada, mas um pouco antes do seu desenlace, a bondade e até uma certa beleza que se vislumbram nas suas personagens e no desenrolar dos acontecimentos, é substituída por uma crueldade desnecessária, que parece não se enquadrar na trama que nos é contada.
Não penso que as pessoas intrinsecamente puras não sejam capazes de cometer atos violentos em situações limite, mas fiquei genuinamente surpreendida com o final da história deste livro, bem como do último que li deste autor, "Sinopse de Amor e Guerra", possivelmente porque tenho a crença errónea de que as pessoas de bom coração, ainda que carreguem muito sofrimento, não praticam o mal.
O livro narra a história de Rosa, uma jovem que vive numa zona rural do Alentejo, com a sua avó idosa e doente, a qual teve uma infância difícil e marcada pelo abandono da mãe e pelo suicídio do pai e do avô.
Apesar do seu passado doloroso e de um presente cheio de carências económicas, Rosa desfruta de tudo o que a vida lhe oferece: gosta muito de ler "livros de cowboys", que eram do seu pai, adora a sua avó de quem cuida e enamora-se de um amigo de infância, o pastor Ari, que já amava a mesma antes sequer de Rosa se aperceber desse sentimento.
O sonho da avó de Rosa, Antónia, era conhecer Jerusalém antes de morrer. E Rosa, com o auxílio de Borja, um anterior professor universitário que, já reformado, foi viver para o Alentejo, tenta concretizar o sonho da sua avó, após o segundo ter tido a ideia de convencer uma inglesa muito rica a transformar uma aldeia alentejana que havia comprado, na cidade de Jerusalém, com muita imaginação e com a ajuda dos habitantes desse local, bem como de um feiticeiro nigeriano e de um budista indiano, que a inglesa trouxe com ela quando decidiu ir viver para o Alentejo.
Mas o padre da aldeia onde Rosa habita opõe-se à encenação e tenta impedi-la. Além disso, o namorado de Rosa, Ari, também se zanga com esta por causa da sua crescente amizade com o professor Borja.
A história, que tem momentos de muita criatividade e de muito humor, pois todas as personagens são deveras interessantes, pelo seu passado e pelas escolhas que fizeram na vida e que as conduziram até ao presente, em que as ligações entre as mesmas são muito bem exploradas pelo seu autor, a partir de certo momento, segue um caminho em que o idealismo dá lugar a uma certa aura de destino trágico tão característica de alguns escritores portugueses, que me parecem transmitir que as pessoas pobres e as pessoas infelizes sê-lo-ão sempre e nada se pode fazer para mudar este "fado", de um modo de ser tão caracteristicamente luso.