Ler Seminário dos Ratos de Lygia Fagundes Telles foi uma experiência um tanto curiosa, este não é o meu primeiro contato com a autora, li tem uns anos Antes do Baile Verde, mas me parece que os contos dessa coletânea tem características um tanto diferentes dos daquele livro.
Algo que chama a atenção logo de início é a capacidade que Lygia tem de prender o leitor, mesmo em seus contos mais estranhos, onde o leitor se pega perdido e confuso, ainda assim é como se o leitor fosse uma mosca presa numa teia. O leitor não tem como parar de ler, mesmo tendo já uma noção de que não haverá respostas,
Aliás, com relação a essa coletânea em particular talvez seja prudente avisar que vários contos são inconclusivos ou enigmáticos. É difícil entender exatamente onde Lygia queria chegar. Claro existe um fundo político e simbólico, nos atentemos de que o livro é de 1977, ainda estamos em plena ditadura militar. Aqui e ali é possível se perceber as mensagens cifradas. O conto título é particularmente ousado nesse aspecto.
Mas não é somente isso, impressiona como Lygia constrói seus personagens e cenários, como cativa, confunde e engana o leitor. O conto que abre a coletânea, As Formigas não deve em nada a um bom conto de terror, a forma como a autora vai nos deixando tensos, o final aberto e cheio de significados. Tigrela é outro conto ambíguo e perturbador, que remete entre outras coisas a relacionamentos abusivos e autoengano.
Algo a ser dito também sobre a autora é a sua capacidade de nos apresentar perspectivas de ambos os gêneros, os contos “espelho” (difícil não traçar paralelos entre eles), Senhor Diretor e A Sauna, nos apresentam personagens de gêneros opostos. Lygia veste a pele de ambos e nos convence de sua realidade, eles nos incomodam, nos cativam, nos horrorizam e nos enojam. Senhor Diretor particularmente é um conto onde a autora nos conduz do ódio a compaixão e é de uma atualidade inquietante.
Seminário dos Ratos, portanto é uma coletânea de contos onde vemos Lygia em toda a sua versatilidade e genialidade. Cada conto nos mostra uma faceta ligeiramente diferente da autora, percebemos certas características que se mantém, mas o que impera é a originalidade e a imprevisibilidade. Provável que alguns se incomodem com os cortes abruptos, com o não dito, mas é inegável a qualidade desses contos. Não sei se seria o melhor livro para se conhecer a autora, mas certamente é um dos que deve ser visitado pelos leitores que já a conhecem.
Impressões conto a conto:
Formigas (4,0 de 5,0) Apesar de inconclusivo é impressionante a atmosfera digna de uma boa história de terror que Lygia cria.
Senhor Diretor (5,0 de 5,0) - A forma que Lygia descreve uma senhora reacionária com todas as suas contradições levando o leitor do ódio a empatia é impressionante.
Tigrela (3,0 de 5,0) - Um estranho conto que pode muito bem ser entendido como uma metáfora para um relacionamento abusivo.
Herbarium (3,0 de 5,0) - Um conto um tanto ambíguo, algo curioso no contos da Lygia é que eles parecem sempre esconder mais do que aparentam, a amizade entre uma criança e um adulto ou a tomada de consciência da fatalidade da vida?
A Sauna (5,0 de 5,0) - Uma das coisas que mais impressionam nos contos da Lygia é a sua capacidade de "vestir" um personagem e torná-lo crível para nós leitores. Tanto o protagonista do conto quanto sua "nêmesis", consorte e juíza nos tocam e interessam.
Pomba Enamorada ou Uma História de Amor (4,0 de 5,0) Uma perturbadora historia de "amor" que não tem nada a dever das histórias de hoje sobre assédio e stalkers.
WM (3,5 de 5,0) - Um ambíguo conto sobre fama, solidão e loucura.
Lua Crescente em Amsterdã (3,0 de 5,0) - Um poético e um tanto amargo conto sobre o fim da paixão e o despertar na realidade.
A Mão no Ombro ( 3,0 de 5,0) - Um conto estranho sobre dar-se conta da finitude de uma vida abastada porém desperdiçada.
A Presença (3,0 de 5,0) - Um conto um tanto cruel e inconclusivo sobre a vaidade da juventude
Noturno Amarelo (3,5 de 5,0) - Um conto sobre remorso e culpa, mas um tanto prejudicado pela quebra abrupta da narrativa.
A Consulta (5,0 de 5,0) - Um inesperado conto sobre medo e sanidade, com um final no mínimo inesperado.
Seminário dos Ratos (5,0 de 5,0) - Um curioso e perturbador conto onde os ratos são ao mesmo tempo realidade e metáfora. Impressiona como a autora comunica nos mínimos detalhes.