A atmosfera deste A Trela poderá diminuir, aos olhos de muitos, o brilhantismo da narrativa, mas nem assim se virão desculpados de ter de reconhecer que a filosofia existencialista de Sagan fica aqui bem explanada.
"Os homens ignoram por completo certos domínios; e imaginar, admitir nervos, sofrimentos, gritos, queixumes em tudo aquilo que podemos tocar, em tudo o que podemos deteriorar, em tudo o que a mim me parecia vulnerável e silencioso - terrivelmente silencioso - deprimia-me por momentos."
Esta pequena novela é o mote para a autora abordar a submissão muda, a resignação a um estado sentimental pervertido pela frivolidade da posse, cuja ação, reduzida a um mínimo imprescindível, torna as relações humanas o foco essencial da narrativa.
Faz então sentido que se nos apresente um narrador, casado com uma tal Laurence, que "em sete anos, perdera o gosto pelo acaso e ganhara, sem dúvida, o gosto pela trela."
Ele não escolhe a roupa que veste, o programa que vê, os amigos que faz... Ele é um compositor, sem grande sucesso, que todos julgam casado com o dinheiro e não com a mulher. E, de facto, pelos seus próprios olhos, ele leva uma vida desafogada, bastante agradável, uma espécie de concubinato ideal - claro que não é tudo cor de rosa já que esta lhe custa a aniquilação pessoal:
"(...)é uma das grandes infelicidades, e das mais generalizadas entre a raça humana, em minha opinião, esta recusa de nós próprios, esta paixão pelo oposto, cuidadosamente oculta e sempre renovada."
E Sagan centra toda a força da narrativa a analisar não só a aniquilação da vontade de viver como a amoralidade das relações possessivas em que a dualidade masculino/feminino; fraqueza/força servem de contraponto à desintegração do ser amado pelo ser amante e vice-versa.
"Laurence apoderara-se dos melhores anos da minha vida, como se eu fosse uma mulher e ela um homem."
A consupção da relação é inevitável, claro, mas a essência do romance (novela) não se fica por aí. Sagan explora a fundo as motivações e desmotivações por detrás desta relação em que "(...)o hábito é uma das piores e mais subtis formas de posse.":
"De início... de início, como pudera permitir que a minha vida, o meu tempo fossem regulamentados deste modo, sem revolta, sem o mínimo conflito?"
E colocando-a num meio citadino boémio, em que as personagens de classe média cedem facilmente ao ócio, ao jogo e ao vício, permite-se criar relações-tipo muito próximas da vida real, sopesando sempre as posições ocupadas por cada elemento: agressor e agredido.
"-(...)Lutei para que ficasses, fiz tudo, fiz de mais, sabe-lo bem, mas, se pudesse, rodeava-te de grades. Se pudesse prendia-te grilhetas aos pés, enclausurava-te para não me fazeres sofrer, para ter a certeza, a certeza absoluta, mesmo por uma noite, por um dia, de que estavas aqui e aqui ficavas. Faria o que fosse preciso."
Sagan é também muito bem sucedida no que concerne a transmitir as contradições dos desejos, dos sentimentos e a incapacidade física de responder ao ímpeto espiritual. E embora faça avançar a ação muito lentamente, essa é uma das forças do seu trabalho. O resultado foi uma leitura absolutamente compulsiva.
"Imaginava-me num apartamento de duas assoalhadas com crianças a chorar e uma mulher estafada: seria preferível como destino? Seria mais suave do que o de um homem, ainda jovem, bem vestido, livre de preocupações e cansaço, preso a um deslumbrante apartamento pela trama tecida por uma mulher histérica e fútil? Seria mais viril se me matasse a trabalhar numa fábrica? Sentir-me-ia mais orgulhoso?
(...)
Não era aí que o meu orgulho se situava não era aí que eu me situava: nem no mérito, nem no esforço. Situava-o na felicidade, sem mais! Fácil de dizer, difícil de acreditar: só me sentia contente comigo mesmo quando feliz."