# WIT Month
Que fazes para levares a vida que levas? 60 pessoas a jantar, quando a mim uma só basta para me liquidar durante três dias e me pôr a boiar como uma lentilha de água numa ribeira suja.
Gosto muito de ler diários e cartas de escritores/escritoras e tento não pensar demasiado na devassa da vida privada que isso é, já que muitas dessas obras foram publicadas postumamente e sem autorização dos próprios. Até à data, só o “Diário Secreto” de Pushkin me tinha suscitado um manifesto desconforto, mas esta edição de “Cartas Íntimas a Vita Sackeville-West” também me causou vários pruridos. Ainda que nunca corresse esse perigo porque a minha avó era analfabeta, foi como se tivesse encontrado as suas cartas de amor num baú do sótão. Que constrangedor, por exemplo, saber as alcunhas amorosas que ela reservara para as suas paixões!
Potto beija-te, e diz que poderia esfregar-te as costas, e curá-las, apenas lambendo-tas.
Por outro lado, ler os constantes queixumes de Virginia Woolf atirou-me para uma sala de espera do centro de saúde, rodeada de velhinhas a compararem os seus achaques. Sei que a escritora tinha uma saúde mental e física frágil, mas parece comprazer-se não só nas suas maleitas como nas dos outros, com um leve toque de hipocondria. Lê-se também nas entrelinhas a anorexia de que supostamente sofria, com reparos constantes à gordura das outras pessoas, compondo um perfil de rabugice que realmente se aguça na crítica à produção literária alheia. Rebecca West, Gertrude Stein, Katherine Mansfield, D.H. Lawrence, nenhum foi poupado.
Depois, ela [Mansfield] veio com toda uma série de pequenas histórias – e eu tive ciúmes, é verdade; porque foram postas nas nuvens; se eu deixei de as ler, não é, no entanto, por essa razão mas por causa do seu sentimentalismo fácil e exacerbado.
Ainda assim, são os vislumbres do panorama social e cultural da época os momentos mais valiosos desta compilação.
No que respeita a Radclyffe Hall, estou inteiramente de acordo contigo: o que é preciso fazer? Ela fez uma carta da sua lavra, protestando a sua inocência e afirmando a sua moralidade, que pediu que nós assinássemos, e recusa que qualquer outra, em termos diferentes, seja enviada. Não podemos, portanto, fazer nada, para além de Morgan Forster [E.M. Forster] ter escrito uma pequena carta, bastante cómica, que me pediu que assinasse: de modo que eu me acho, eu, a ser porta-voz do safismo.
Na última carta aqui incluída, datada de 1936, Woolf vocifera também contra Gisele Freund, fotógrafa que imortalizou Simone de Beauvoir e Frida Kahlo com os seus retratos, dizendo que tem horror a ver-se “assim espetada na ponta de uma estaca, feita o objecto de todos os olhares.” Que diria ela hoje em dia, se visse o seu rosto estampado em sacolas, canecas e agendas?
Sabes que essa maldita Gisele Freund me disse, com a maior das calmas, que está em vias de mostrar essas péssimas fotografias a quem quiser vê-las quando eu lhe tinha expressamente pedido que não o fizesse?
Por acaso, não concordo, acho-as cheias de classe.
A quem interessar a correspondência amorosa de VW e Sackeville-West, parece-me uma aposta mais segura a edição da Relógio d’Água, mais completa, com notas de rodapé, bem como cartas de Vita e excertos dos diários de Woolf para cotejo. Esta edição, além de curta e confusa, padece do grande mal do aportuguesamento dos nomes próprios (Leonardo, Julião, etc.), mas com esta minha mania de deixar os livros vir até mim, foi com este que, por acaso, me cruzei.
Como eu teimo em dizer, para ser bom, um romance precisa de dar a impressão, mesmo antes de ser iniciado, que nunca chegará a ser escrito: que não se pode senão vê-lo; de tal maneira que, durante 9 meses, se viva no desespero e que seja apenas quando se esqueceu tudo o que se queria fazer, que o livro se torne, enfim, tolerável. Garanto-te que antes de escritos, todos os meus livros eram de primeira água.