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Notes from Underground

In 1864, just prior to the years in which he wrote his greatest novels — Crime and Punishment, The Idiot, The Possessed and The Brothers Karamazov — Fyodor Dostoyevsky (1821–1881) penned the darkly fascinating Notes from the Underground. Its nameless hero is a profoundly alienated individual in whose brooding self-analysis there is a search for the true and the good in a world of relative values and few absolutes. Moreover, the novel introduces themes — moral, religious, political and social — that dominated Dostoyevsky's later works. Notes from the Underground, then, aside from its own compelling qualities, offers readers an ideal introduction to the creative imagination, profundity and uncanny psychological penetration of one of the most influential novelists of the nineteenth century. Constance Garnett's authoritative translation is reprinted here, with a new introduction.

136 pages, Paperback

First published January 1, 1864

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About the author

Fyodor Dostoevsky

3,515 books79.6k followers
Фёдор Михайлович Достоевский (Russian)

Works, such as the novels Crime and Punishment (1866), The Idiot (1869), and The Brothers Karamazov (1880), of Russian writer Feodor Mikhailovich Dostoyevsky or Dostoevski combine religious mysticism with profound psychological insight.

Very influential writings of Mikhail Mikhailovich Bakhtin included Problems of Dostoyevsky's Works (1929),

Fyodor Mikhailovich Dostoevsky composed short stories, essays, and journals. His literature explores humans in the troubled political, social, and spiritual atmospheres of 19th-century and engages with a variety of philosophies and themes. People most acclaimed his Demons(1872) .

Many literary critics rate him among the greatest authors of world literature and consider multiple books written by him to be highly influential masterpieces. They consider his Notes from Underground of the first existentialist literature. He is also well regarded as a philosopher and theologian.

See also:
Russian → Фёдор Михайлович Достоевский
French → Fédor Dostoïevski
French → Fiodor Dostoïevski
Spanish → Fiódor Dostoyevski
Portuguese → Fiódor Dostoiévski

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5 stars
110,234 (42%)
4 stars
99,085 (37%)
3 stars
41,225 (15%)
2 stars
8,912 (3%)
1 star
2,884 (1%)
Displaying 1 - 30 of 958 reviews
Profile Image for Nuno Markl.
25 reviews5,601 followers
March 24, 2026
Mais um que me atingiu forte e feio. Tenho uma estima por anti-heróis aprisionados num excesso de auto-importância e num défice, mais ou menos disfarçado, de auto-estima. Ignatius, de Uma Conspiração de Estúpidos (um dos meus favoritos de sempre, para o qual tive a honra de escrever um prefácio, na edição de 2015 da Relógio d’Água), é um desses caóticos monumentos ao mais angustiante do ser humano; o protagonista de Memórias do Subterrâneo, de Dostoievski, vem logo atrás, sendo auto-consciente do seu caos, o que torna tudo mais aflitivo. Adorei este clássico, a montanha russa de palavras e ideias, a comédia de desconforto, o quanto o coração se parte. E o mais incrível é que, se escavarmos um pouco, descobrimos que o nosso próprio subterrâneo nos permite ocasional empatia com este tipo de criatura.
Profile Image for Carmo.
753 reviews600 followers
September 15, 2019
"Mas, realmente, faço eu agora uma pergunta ociosa - o que será melhor: uma felicidade barata ou um sofrimento sublime?
Vamos, digam-me, o que será melhor?"


Julgo que foi a partir deste livro - escrito no período pós Siberiano - que Dostoyevsky começou a sua verdadeira carreira literária, e que Memórias do Subterrâneo foi um potencial ensaio para o que viria a seguir, nomeadamente Crime e Castigo e as incertezas de Raskólnikov.

O livro é composto por duas partes: na primeira, um monólogo filosófico, existencialista, e um narrador irónico e ambíguo capaz de nos provocar um desarranjo nervoso. Na segunda, um episódio da vida do mesmo narrador, contado de forma frenética e absolutamente admirável.
Enfim, começo a ficar sem adjetivos para aplaudir Dostoyevsky...
Profile Image for Os Livros da Lena.
360 reviews322 followers
March 18, 2021
Review Memórias do Subterrâneo, de Fiódor Dostoievski
25/2021

Dostoievski tornou-se, em 2020, um dos meus autores favoritos de sempre. Li Os Irmãos Karamázov e fiquei absolutamente rendida ao génio e à profundidade do autor. Desde então, decidi que todos os anos vou ler um dos seus livros. Esta decisão foi tomada, acima de tudo, porque acho que os livros dele não são para ser consumidos, mas antes degustados, mastigados e digeridos com tempo.

Este ano foi a vez de Memórias do Subterrâneo. Em 1864, dois anos antes de começar a publicar Crime em Castigo, em capítulos, no Mensageiro Russo, Dostoievski publicou este livro que vos trago hoje. Dos livros com um dos protagonistas mais intragáveis que eu já li.

“E de resto: de que é que um homem digno pode falar com mais prazer?
Resposta: de si mesmo.
Portanto, será de mim que falarei.”

Assim, não dando nome ao narrador, e personagem principal, que enceta este monólogo tortuoso, o autor leva-nos, com este pequeno romance, numa viagem existencialista ao âmago de um perfeito epítome daquilo que se define, clinicamente, como um histérico.

“Ter uma consciência demasiado desenvolvida é uma doença, uma autêntica doença.(…) Mas em todo o caso estou firmemente convencido de que não apenas muita consciência, mas até qualquer consciência é uma doença.”

Este ser do “subterrâneo”, principal boicotador da sua própria felicidade, leva-nos a viver uma série de escolhas completamente desvantajosas para ele, bem como retrata um ser absolutamente irascível, mais uma vez, e acima de tudo, para ele mesmo.

“E se acontecer que a vantagem humana por vezes não só possa, mas deva mesmo consistir, num dado caso, em desejar para si próprio o pior e não o mais vantajoso? (…) Por que motivo imaginaram que o homem precisa necessariamente de uma vontade sensatamente vantajosa?”

Não será novidade que Dostoievski foi vanguardista da psicanálise na literatura. Mas, neste livro, escrito, tal como Os Irmãos Karamázov, Crime e Castigo e Demónios, após os cinco anos de trabalhos forçados e mais quatro de serviço militar na Sibéria, é notório o sofrimento, a transformação. E, como em toda a obra, parece-me, a busca pela verdade. A nossa e a dos outros, a interna e a do mundo.

“Estou convencido de que a nós, os do subterrâneo, é preciso manter-nos com freio. Embora sejamos capazes de ficar calados no subterrâneo durante quarenta anos, quando saímos para a luz do dia, rompemos e começamos a falar, a falar, a falar…”

Dostoievski reafirma-se, mais um ano, aos meus olhos, como um dos maiores génios da literatura russa do séc.XIX. Bravo!

🎼 Para acompanhar a leitura encontram playlist com o título do livro no@spotify.
Profile Image for Paula Fialho Silva.
228 reviews123 followers
February 2, 2020
"Em casa, o que mais fazia era ler. Queria abafar com as sensações exteriores aquilo que se acumulava dentro de mim. E as únicas sensações exteriores acessíveis para mim eram as da leitura. Sem dúvida, a leitura ajudava-me muito - emocionava-me, deleitava-me, atormentava-me."

Mais uma grande leitura! Mais um anti-herói desprezível. Este autor nunca desilude, é um mestre na arte de contar histórias e de criar personagens que ficam para sempre na memória.
Profile Image for Ensaio Sobre o Desassossego.
474 reviews228 followers
November 28, 2021
"O que será melhor: uma felicidade barata ou um sofrimento sublime?"

Quem diria que um livro angustiante também pode ser dos livros mais hilariantes que já li? Só mesmo Dostoievski para conseguir essa proeza

Para quem acha que a obra de Dosto só tem discussões filosóficas, leiam este livro. Há filosofia, sim, mas as situações que acontecem à personagem são tão cómicas que é impossível não gargalhar (sabem quando se estão a rir mas têm a sensação de que não deviam? É a sensação que vos vai acompanhar nesta leitura)

A personagem principal, que é também o narrador, é uma personagem um tanto ao quanto desagradável, rabugenta e que se acha superior a todos.

Ao longo da leitura, senti muita vergonha alheia e se numa página tinha pena da personagem, na página seguinte já só pensava "livrem-me deste maluco". Por um lado, acha-se melhor do que os outros e espera receber o reconhecimento deles; por outro, vai percebendo a insignificância da sua existência. Ele despreza aquelas pessoas, mas sonha ser apreciado por elas. Ah, personagem complexa!

A prisão mental - o Subterrâneo - foi criada por ele mesmo, já que todo o sofrimento é resultado das suas próprias acções.

Em conversa com a @os_livros_da_lena , falávamos que nem sabíamos se queríamos dar duas chapadas ou abraçar o narrador. Provavelmente, as duas coisas. A complexidade das personagens do Dosto faz-nos isto. Ficamos de coração apertado, ao mesmo tempo que soltamos uma data de palavrões tamanha a nervoseira que o homem provoca em nós.
Um aviso: tenham cuidado ou podem acabar tão doidos como este homem do Subterrâneo (e sim, talvez esteja a falar por experiência própria)

Este é um livro curtinho, mas que dá tanto que pensar. A personagem é uma alma perdida, um homem angustiante, que sofre com a sensação de desorientação da vida, em que nada faz sentido. O mundo é um sítio esquisito, e ter uma consciência, como diz o narrador, é uma autêntica doença. É ser-se solitário, é estar perdido e vazio, é viver uma existência pesada.
Profile Image for Sérgio.
111 reviews31 followers
March 11, 2018
Publicado no Literatura à Solta, disponível em
https://literaturaasolta.blogspot.com...

Em início de carreira, Fiódor Dostoiévski dedicou-se ao social, através da sua aclamada estreia Gente Pobre, e ao psicológico, com O Duplo. Depois do exílio na Sibéria, que o marcou profundamente, não só na saúde como na sua mundividência, e deu origem aos Cadernos da Casa Morta, a primeira descrição publicada das prisões russas, e a Humilhados e Ofendidos, alusivo das preocupações sociais do seu primeiro romance, Dostoiévski enveredou pelo movimento que o iria eternizar, o existencialismo. A Voz Subterrânea – mais conhecida como Memórias (ou Notas) do Subterrâneo – é fruto dessa segunda fase literária.

[Imagem]
Fiódor Dostoiévski (1821-1881)

Estruturalmente, a obra encontra-se dividida em duas partes que, embora estilisticamente distintas, se complementam para criar um quadro muito vivo de alienação auto-imposta. A primeira tem o formato de um ensaio, no qual o narrador, que nunca revela a identidade para além da idade, quarenta anos, expõe a sua metafísica do subterrâneo. Antigo funcionário, de patente inferior, da administração imperial russa, o narrador, chamemos-lhe “homem do subterrâneo”, mantém-se, entretanto, através de uma pequena herança, abdicando do serviço civil e de todas as obrigações sociais, é uma metafísica da inércia e da reclusão contemplativa, negativa e rancorosa, que nos propõe. Começando por divagar sobre a necessidade da dor e do sofrimento como princípios da liberdade, o “homem do subterrâneo” evolui para criticar o determinismo, especialmente o utopismo da moral e das acções humanas ditadas pela lógica, presente em O Que Fazer?, de Tchernichévski. Em contrapartida ao problema de matemática dois mais dois igual a quatro, a forma a que reduz esse utopismo, o “homem do subterrâneo” advoga que, muitas vezes, ele, e uma certa maioria das pessoas, entendem essa soma como três, ou cinco, numa clara alusão à irracionalidade inerente ao género humano. Partindo dessa irracionalidade, o narrador expõe a sua defesa do livre arbítrio, pese embora de forma negativa, dando o seu próprio exemplo de vida, contado na segunda parte da obra.

[Imagem]
Edição portuguesa de O Que Fazer? (2017)

Intitulada “A Propósito da Neve Derretida”, e encabeçada pelo excerto de um poema de Niekrássov, que ajudou Dostoiévski a publicar a sua primeira obra, esta segunda metade recua dezasseis anos até à juventude do narrador. Após abandonar uma carreira promissora no exército, o “homem do subterrâneo” obtém recomendação para trabalhar numa repartição da administração central do Estado, na capital, onde tem mais liberdade para se dedicar à leitura indolente e à sua misantropia paranóica. Não convive com praticamente ninguém no trabalho, a não ser, ocasionalmente, o chefe, Anton Antônitch, a quem pede dinheiro emprestado. Apesar da sua aversão ao convívio humano, é com vergonha e remorso que o “homem do subterrâneo” se vê forçado a admitir que não consegue evitar vagabundear pela noite de São Petersburgo, em busca de prazer, e amiúde frequentar a casa do único amigo, Siemiônov. Numa dessas visitas, reencontra velhos colegas de escola que organizavam um jantar de despedida ao antigo rival da adolescência do narrador, Zvierkov, prestes a partir para um proveitoso posto militar no Cáucaso. Despeitado por ser colocado à margem da combinação, o “homem do subterrâneo” faz-se convidado apenas para mostrar o seu desprezo pelo próspero oficial, endividando-se para poder estar presente e embebedando-se ao ponto do ridículo. Não contente com isso, segue os “amigos” até ao bordel que habitualmente frequentam, pronto a desafiar Zvierkov e companhia para um duelo e arruinar definitivamente a sua vida. Por sorte, em vez deles cruza-se antes com Lisa, recente no estabelecimento. Depois de um encontro íntimo fugaz, dá-se o ponto central da narrativa: a discussão metafísica entre o “homem do subterrâneo” e Lisa. Aqui, a última representa o ponto de vista de Tchernichévski, de uma vida logicamente subordinada a um princípio utópico, no caso, o sucesso na profissão de prostituta ao ponto de conseguir abandona-la em prol de uma vida socialmente aceitável, ao lado de um salvador que a encontra, protege e resgata. Enquanto isso, o “homem do subterrâneo” desconstrói essa idealização romântica confrontando Lisa com a realidade dos factos, a posição periclitante no bordel, acumulando dívidas à matrona, consumindo os seus melhores anos numa vida desgastante e tendo como fim último a sarjeta, a abjecção pública e a penúria, assim que a sua beleza se desvanecer. A princípio, Lisa toma-o como o seu suposto salvador, aquele que a alerta para os perigos da sua situação, e procura-o em casa apenas para constatar o extremo egoísmo misantrópico do “homem do subterrâneo”, desfazendo-lhe as últimas esperanças.

[Imagem]
Nikolai Tchernichévski (1828-1889)

A Voz Subterrânea (1864) é considerada uma das primeiras obras existencialistas da história, sem dúvida o ponto de viragem dos romances sociais e psicológicos de Dostoiévski para os de carácter existencial. Precedendo em apenas dois anos a publicação de Crime e Castigo (1866), não é por acaso que tem sido vulgarmente publicada em conjunto com esta, como na edição da Chancellor Press de 1994, Crime and Punishment; The Gambler; Notes from the Underground. Há um claro paralelo entre a metafísica do “homem do subterrâneo” e os actos de Raskólnikov. Simultaneamente, é possível reconhecer uma certa alusão autobiográfica, a troca de uma carreira promissora no exército por outra, incerta, devido a preocupações literárias lembra a própria vida de Dostoiévski.

[Vídeo]
Notes from the Underground (2014), adaptação teatral por Gerald Garutti e Harry Lloyd
Profile Image for Oziel Bispo.
542 reviews86 followers
January 13, 2019
Em memórias ou notas do subsolo( 1864), primeiro romance existencialista da história, Dostoiévski narra a vida de um

homem , funcionário público aposentado, que abandonou a sociedade ,a lógica e tudo o que se possa dizer “correto” para viver em um subsolo ,em uma caverna ilusória, encerrado dentro de si mesmo num egoísmo sem limites , onde tudo é possível desde que satisfaça seus desejos e sua alma, mesmo que seja a completa destruição de todos os parâmetros sociais e morais.

Dostoiévski talvez influenciado pela doença de sua esposa Maria Dmitrievna,que na época que o romance foi escrito jazia em uma cama padecendo de tuberculose, demonstra um sofrimento e revolta muito grande desse personagem, desse homem rato, que disparava ,se revoltava contra tudo e contra   todos, só se apegando a Lisa, uma prostituta, isso depois de a humilhar muito.

Um livro curto mas poderoso, que influenciou diretamente Freud, Nietzsche ,enfim mais um livro de Dostoiévski onde os narradores anti heróis nos influenciam  poderosamente , parecem não ter limites seus insultos, bem como suas verdades dolorosas, porque para eles não existem o politicamente correto mas como disse nosso personagem “ Asseguro-vos, senhores, que o excesso de consciência é doença, uma doença verdadeira e completa.”
Profile Image for Nelson Zagalo.
Author 14 books495 followers
April 4, 2018
“Crime e Castigo” é um dos meus livros preferidos de sempre, volto mentalmente a ele muitas vezes, mas ao longo de todos estes anos tinha-me debatido sempre com uma mesma questão — o que é que teria conduzido Dostoievski a retratar um assassino e o seu remorso? — para a qual ainda não tinha obtido resposta. Foi agora, ao reler “Memórias do Subterrâneo” (1864), imediatamente depois de ter lido “O Que Fazer” (1863) de Tchernichevski, que compreendi. Raskolnikov (1866), o assassino arrependido, é um sucessor do funcionário público (1864), o intolerante, tendo ambos um mesmo propósito: demonstrar o que estava errado nas teses filosóficas de “O Que Fazer” (1863) (ler análise anterior). Encontrei outros que fizeram esta mesma ligação, o que me diz que esta minha leitura não é assim tão exótica. Não posso dizer que a relação seja muito comum nas análises das duas obras, mas isso com certeza deve-se mais ao facto do livro de Tchernichevski ter praticamente sido esquecido no tempo.

[imagem]
A belíssima capa da nova edição da RA

No caso de “Memórias do Subterrâneo”, a relação com Tchernichevski é comumente reconhecida, talvez porque a leitura de qualquer texto sobre Tchernichevski e o seu livro, no conduz inevitavelmente para este livro de Dostoievski que desse ponto de vista é visto como uma resposta. Na verdade, por ter lido um a seguir ao outro, posso dizer que em vários momentos o discurso do Funcionário Público de “Memórias do Subterrâneo”, parece quase uma carta a Tchernichevski. Porque na verdade ele fala dirigindo-se a alguém, mas não é alguém abstracto, ele fala de teorias e visões da realidade — nomeadamente os “sonhos”, os “estudos”, a “vantagem”, o “radioso e lindo”, o “Palácio de Cristal” — que são alusões diretas ao livro de Tchernichevski e que vão sendo contra-argumentadas e contra-atacadas com casos e cenários concretos que refutam totalmente a “utopia” representada em “o que Fazer?”.

“Mas tudo isso não passa de sonhos dourados. Ah! Digam-me quem primeiro declarou, quem primeiro proclamou que o homem só age mal porque não conhece seus verdadeiros interesses e que, se lhe dessem instrução, se lhe abrissem os olhos para os seus interesses verdadeiros e normais, ele deixaria de agir de modo sórdido, imediatamente se tornaria bom e nobre, porque, sendo esclarecido e entendendo suas vantagens reais, veria justamente no bem a sua própria vantagem?”

“Ah, a vantagem! Que é a vantagem? Os senhores aceitariam a tarefa de determinar com absoluta precisão em que consiste a vantagem para o ser humano? E se acontecer que, em alguns casos, para o homem a vantagem não só possa, como também deva consistir, algumas vezes, em desejar para si aquilo que é ruim, e não o vantajoso?”

“O homem gosta de criar e de abrir caminhos, isto é indiscutível. Mas por que ele também ama com paixão a destruição e o caos? Digam-me, por favor!”

Se o livro de Tchernichevski é difícil de ler, é porque a escrita é terrível, já o livro de Dostoievski não é menos difícil de ler, mas é porque o modo como ele perscruta o sentir humano é apresentado num modo profundamente elaborado. O livro é pequeno, mas cada página exige a máxima atenção da nossa parte para compreender todo o alcance da argumentação. Claramente que ler o livro depois de ter lido Tchernichevski condiciona a leitura, porque estamos continuamente a aferir os dois lados da barricada argumentativa, e a tentar compreender em toda a extensão da argumentação as evidências e factos propostos. Dostóievski vai a ponto de antever o funcionamento do processo de tomada de decisão que ocorre no nosso inconsciente, e que só no final do século passado começou a ser compreendido:


“E como eu, por exemplo, me tranqüilizaria? Onde estão os meus motivos originais, nos quais me apoiaria? Onde estão os fundamentos? De onde vou tirá-los? Faço uma ginástica mental e, em conseqüência, cada motivo original imediatamente arrasta atrás de si outro, ainda mais original, e vai por aí afora, até o infinito. Essa é precisamente a essência de toda consciência e reflexão.”

Todas estas discussões, a que em parte se pode aceder nestes pequenos fragmentos retirados da primeira parte de “Memórias do Subterrâneo”, servem para sustentar a história que nos é contada na segunda parte sobre os casos de intolerância e irascibilidade do Funcionário Público para com amigos de infância e uma mulher. Mas estes servem também para ilustrar o que está na base de Raskolnikov. No fundo Dostoievski procura ilustrar o quão impossível é traçar regras que coloquem todas as pessoas no mesmo patamar, que uma vantagem para um é uma desvantagem para outro, e vice-versa, que somos profundamente diferentes, ao que se junta a questão de que o mundo não é simplesmente a preto e branco, somos seres conscientes, dotados de sentires e contradições internas, sendo capazes de colocar a moral de lado para assassinar alguém, assim como logo a seguir sentir todo o peso da moral dessa ação.

Várias leituras apontam o ataque ao determinismo, e por sua vez a criação do existencialismo por Dostoievski em “Memórias do Subterrâneo”. Pois vejo antes de tudo isso, uma capacidade para antever o ser humano na sua infinita complexidade e variabilidade, e uma recusa da simplificação desse humano, daí o surgimento de "Crime e Castigo". Para Tchernichevski bastariam pessoas formadas com acesso a boas condições de vida para se transformarem em novas pessoas, investidas em ações pelo bem. Dostoievski questiona o determinismo, mas não mecanicista e sim num sentido dogmático, em que alguém determina os parâmetros de regulação da ordem. No fundo, Dostoievski aponta exatamente para onde as ideias de Tchernichevski, seguidas muito depois por Lenine, acabariam por conduzir a Russia, a ditadura.

Nota: Os excertos do livro são da tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares para a L&PM, pela facilidade no acesso a cópia digital. A versão lida foi a de António Pescada para a RA.

Publicado em: https://virtual-illusion.blogspot.pt/...
Profile Image for J TC.
258 reviews25 followers
June 13, 2022
Fiódor Dostoiévski - Cadernos do Subterrâneo
Numa prosa ígnea, forjada nas profundezas da alma, uma escrita vinda de um mundo subterrâneo, Dostoiévsky apresenta-nos uma coletânea da segunda metade do século XIX, um conjunto de ensaios curtos e intimamente interligados, no que parece ser uma reflexão do autor sobre as suas emoções e sentimentos. Num registo introspectivo com laivos expressionistas, bem “avantgarde” para o seu tempo, o autor expõe-se num diálogo desabrido entre o ID e o ego, tendo como pano de fundo o papel castrador do super-ego. E neste escrutínio do super-ego, ou melhor neste solilóquio pré-Kafkiano do ID, o livre-arbítrio é posto em causa porque num mundo mecanicista Laplaciano, todo o efeito tem uma causa e toda o efeito é em si uma nova causa, num perpetuar de causalidade onde fica difícil colocar a posição do inconsciente e a sua propensão para agir só porque sente.
Neste monólogo o autor expõe-se e mostra-nos a sua riqueza interior. Mostra-nos o seu mundo de ideias, o mundo por onde o seu espírito vagueia e de que forma esta ubre se transfigura na génese da sua actividade literária. Este último aspecto fica bem ilustrado no conto intimista com que termina esta sequência de textos.
Nesta riquíssima viagem ao ID do autor, escrita num estado onírico de um sono superficial Dostoiévski mostra-nos a elaboração e construção de personagens, sempre ligado á realidade do seu tempo e sem deixar de transparecer em alguns remoques o que podem ser entendidas como conotações à sua modernidade, à modernidade que lhe era contemporânea.
Profile Image for Marta SSX.
287 reviews35 followers
March 28, 2023
28/03/23
4,5 ⭐

Ainda digerindo este pequeno, mas potentíssimo livro.
Vou refletir, maturar e digerir. Só depois escreverei sobre ele.
Profile Image for Pedro Pacifico Book.ster.
411 reviews7,323 followers
March 31, 2020
Um livro denso, escrito por Dostoiévski no leito de morte de sua esposa. Talvez esse momento particular da vida do autor tenha sido uma forte influência para um romance tão profundo e impactante. Partindo de uma temática existencialista, que nega tudo e todos, o autor nos apresenta o fluxo de pensamentos de um protagonista sem nome, narrado em primeira pessoa, e que adentra até o mais fundo dos sentimentos e até o mais controverso dos pensamentos. O romance é dividido em duas partes. Na primeira parte, tive a impressão que Dostoiévski queriamostrar ao leitor a inconsistência do modo de pensar do ser humano. De fato, o protagonista é extremamente contraditório, nega tudo, até mesmo os seus próprios argumentos. Já a segunda parte é menos densa e traz menos dificuldades para o leitor. São relatos de memórias protagonista, em que o subsolo é o refúgio para os seus questionamentos e problemas metafísicos. Além disso, gostei muito do diálogo constante entre o leitor e esse personagem angustiado, reflexivo e amargo. Uma obra de arte perturbadora e essencial!!

Nota: 9/10

Leia mais resenhas em https://www.instagram.com/book.ster/
Profile Image for Simone Audi.
122 reviews10 followers
January 30, 2022
“Mas por quê?”, pensava eu. “Será que eu não passarei a odiá-la, talvez amanhã mesmo, justamente pelo fato de que hoje beijei seus pés? Será que darei a ela felicidade? Será que não descobri hoje, novamente, pela centésima vez, o quanto valho?

“De fato, quero agora de minha parte fazer uma pergunta inútil: o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? O que é melhor, hein?”

Me lembrou muito Raskólnikov de Crime e Castigo.
Profile Image for Beto.
105 reviews27 followers
July 10, 2013
Dos livros mais difíceis de escrever e pontuar…

Ler sobre o ser-humano faz disto e, pior ou melhor, é que considero que numa 3a, 4a ou 7a leitura do livro iria sentir o mesmo. Por isso, vou procurar não estender-me em demasia nesta partilha.

Ora bem, escrever sobre um livro desta profundidade é sempre um abismo; um abismo que cresce à medida que se reflecte sobre o livro. Somos impelidos a pensar e repensar e repensar novamente a condição humana no seu desvario e desacerto na vida, nas suas conquistas e derrotas, nas inúmeras formas de ser e de estar neste mundo. Neste incitamento, neste desafio, nesta abrangência e, até, nesta necessidade interpretativa é que reconheço o valor do livro e sou impelido a atribuir 4 estrelas – não atribuo 5 por razões que mais abaixo mencionarei.

Com uma imensidão de mensagem e de conteúdo, este livro merecerá sempre novas releituras e reinterpretações; sim, porque a cultura deste livro vive disso mesmo: de releituras e reinterpretações sucessivas.

Então, falando mais concretamente do livro, em jeito de ensaio romanceado e com um narrador omnipresente, desenvolve-se uma introspecção cada vez mais agoniante acerca do sentido da vida e do funcionamento desta em sociedade.

Com grandes rasgos de misantropia, a substância destas notas é a essência humana, imensa e vasta. O Homem Moderno que nos é apresentado é desenquadrado e incomum que, com uma personalidade ousada, questiona e interpreta as leis e as lógicas da vida em sociedade, envolvendo-se num processo contínuo e irreversível de auto-exclusão e exclusão. Assim, a crítica centra-se na vaguidade do Homem Moderno e dos seus tempos, com uma visão caracterizada por uma profunda incerteza sobre quem é e o que faz do Homem Moderno um Homem a Serviço da Humanidade ou de outra coisa qualquer com direcção e fundamento positivo. Fica a ideia de que o Homem não pode ser aquilo que arbitrariamente deseja ser; tem de corresponder a um padrão que poderá, repito poderá, ajudá-lo a encontrar a sua suposta “liberdade” – que, no fundo, é uma posição na sociedade. Quando rejeitado este encaixe, paulatinamente, inicia-se o processo de auto-exclusão e exclusão pois a sociedade moderna, embora democrática, também pode ser vista como exclusiva e imperativa: o livre-arbítrio é uma liberdade condicionada!

Mesmo depois de duas leituras realizadas num curto espaço de tempo, posso dizer que os motivos que instigaram a releitura mantêm-se: sinto, mais uma vez, que algo me escapou nesta 2a leitura; talvez seja da sensação absorta e paralisante com que o livro me deixa, mas algo escapou-se-me, novamente. Essa é a sensação! – Daí os entraves para a atribuição das 5 estrelas que, um dia, virão.

Enfim, para terminar, tenho a dizer que esta não é definitivamente uma leitura qualquer, a ser feita a qualquer altura e em qualquer sítio! Pode e deve ser feita por qualquer pessoa porque é um possível espelho do que pode ser uma existência humana. Assim, pela identificação que ficou das duas leituras, mas sem atribuição de uma pontuação máxima, entra no meu lote de favoritos e imprescindíveis.
Profile Image for Carla.
285 reviews87 followers
July 2, 2014
Um pequeno grande livro fundamental para a compreensão da obra do autor russo e cujo tom é caracterizado pelo próprio Dostoyevsky como "estranho, áspero e louco". Muito bom.
Profile Image for rita.
63 reviews15 followers
September 27, 2021
Um livro que nos coloca a derradeira pergunta: "o que é melhor, um sofrimento sublime ou uma felicidade barata?". Dostoievski fala-nos na temática da dor de pensar (transversalmente explorada na literatura por outros autores) de uma maneira diferente. A consciência é-nos relatada pelo homem do subterrâneo como sendo a causa de dor e incómodo, mas também algum prazer - tal como a dor de dentes que o protagonista nos conta. A sublimação da dor surge, assim, como uma válvula de escape perante as dificuldades com que o protagonista se depara.

"Eu sou único, e eles são todos", diz-nos o homem do subterrâneo numa afirmação que sintetiza e demonstra perfeitamente que sempre restará a eterna reminiscência aquele cujas vivências foram demasiado limitadas, em virtude da sua tendência "subterrânea". O seu introvertismo e consequente inabilidade social fazem-no viver dentro da sua cabeça, encontrando refúgio e conforto na sua pretensa superioridade face ao outro.
Preso num ciclo vicioso que o impede de se integrar verdadeiramente na sociedade, sempre foi uma questão de tempo até ele próprio tomar a decisão de fugir para o subterrâneo. Afinal, como o próprio reconhece, já nessa altura trazia na alma o seu subterrâneo.

Deixando alguma liberdade de interpretação ao leitor, fica em aberto a questão de saber se essa presunção e consequente recusa em conhecer o Outro é, afinal, causa ou efeito da nossa alienação. A meu ver, surge como via de escapismo idêntica aquela que encontramos na leitura deste livro.
O homem do subterrâneo surge-nos como alguém em que nos podemos potencialmente tornar, mas que não temos necessariamente de ser. Quase como uma advertência profética, o subterrâneo é, afinal, o parâmetro a delimitar, e não a meta a atingir.
Profile Image for Estela Ladeiro.
244 reviews4 followers
March 31, 2025
Uma obra centrada na análise da existência, com um conteúdo que estimula e nos põe à prova..
..entendo que para atingir toda a sua amplitude, requer um patamar superior que não é, com toda a certeza, o meu.
E esta é apenas a minha leiga percepção:
A primeira parte, a que mais me cativou e desafiou, é intensa e é como estar a um passo do abismo, e olhar para aquele fundo tenebroso, onde se espelha o reconhecimento assustador da natureza humana.
O paradoxo constante revela o autoquestionamento frontal, olhos nos olhos... é assim que o autor consegue "acotovelar-nos" para nos indicar a rota até ao fundo do ser humano, sem medo de deixar a nu todas as imperfeições, pensamentos e sentimentos mais sombrios.
Dostoiévski exprime o subsolo da essência humana, que pode ser de qualquer um,..
...é preciso coragem e discernimento para nos colocarmos a par da nossa faceta mais turva e das nossas próprias armadilhas.
Um mergulho magnífico mas assombroso...um frente a frente com a verdade, nua e crua, sem filtro, sem máscaras, perante a infinitude que nos constitui,..e a ciente consciência da nossa ambiguidade.
A vida viva é uma luta que travamos connosco mesmos, diariamente..
..e o subsolo é aquela dimensão interior a que cada um de nós precisa descer para iniciar "autoconstrução", num exercício de introspecção e autoanálise, para dar alicerces à verdadeira face.
Um livro que faz pensar.
Transcrevo e deixo a questão:
".. é possível ser absolutamente franco, pelo menos consigo mesmo, e não temer a verdade integral?"
Profile Image for André.
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September 2, 2016
«Mas será que, mesmo agora, tu não pressentes que eu nunca te perdoarei por me teres apanhado assim, com este roupão asqueroso, a atirar-me ao Apollon como um cachorro maldoso? (...) E a crise de choro à tua frente, que não consegui estancar, como uma mulher coberta de vergonha, nunca to perdoarei, a ti! És tu, tu sozinha, que deves responder por tudo, porque me calhaste, porque eu sou um porco, porque eu sou o mais repugnante verme da terra, o mais reles, ridículo, o mais mesquinho, o mais estúpido, o mais invejoso de todos os vermes do mundo, que todos juntos não são melhores que eu, mas que, só Deus sabe porquê, nunca sentem vergonha; e eu toda a minha vida hei-de levar piparotes da mais reles das badalhocas — é esse o meu destino! E que me importa a mim que não percebas nada do que te estou a dizer? O que tenho eu a ver que estejas ou não estejas a espichar? Mas saberás que eu, agora que te disse isto tudo, te vou odiar porque estavas aqui e ouviste? Porque só uma vez na vida as pessoas se abrem assim, e ainda por cima num estado de histeria!... Que mais queres tu? Porque estás aí especada à minha frente, depois disto tudo, por que me atormentas, por que estás ainda aí?»

Perdoem-me a extensão do trecho que aqui cito mas, bolas, isto é um absurdo. Como pode colocar-se em palavras, que tão pouco significado têm, tamanha dose de humanidade? Como é possível penetrar-se tão fundo e ainda ter o descaramento de no-lo esfregar na cara, qual licença, qual quê? Palavra de honra que é um absurdo.
Profile Image for Vítor Leal.
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September 8, 2021
"no romance é necessário um herói, mas aqui estão de propósito reunidos todos os traços de um anti-herói, e, principalmente, tudo isto causa a mais desagradável impressão, porque todos nós nos desabituámos da vida, todos manquejamos, uns mais, outros menos"
Profile Image for Octavio Pontes.
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July 24, 2021
"Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio..."
Profile Image for Xavier Pinho.
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December 17, 2020
"Sou um homem doente... Sou um homem mau. Um homem repulsivo, é isso que eu sou. Acho que tenho alguma coisa no fígado."

Quem diria que as notas de um homem do subterrâneo, a viver na pobreza extrema poderiam desencadear tantas sensações e tão paradoxais; desde pena, a comiseração, ao ódio e até vontade de lhe bater.

"Agora pergunto-lhe: o que podemos esperar do homem enquanto criatura dotada de tão estranhas qualidades? Faça chover sobre ele todos os tipos de bênçãos terrenas; submerja-o em felicidade até acima da cabeça, de modo que só pequenas bolhas apareçam na superfície dessa felicidade, como se em água; dê a ele uma prosperidade económica tamanha que nada mais lhe reste para ser feito, excepto dormir, comer pão-de-ló e preocupar-se com a continuação da história mundial — mesmo assim, por pura ingratidão, por exclusiva perversidade, ele vai cometer algum acto repulsivo. Ele até mesmo arriscará perder o seu pão-de-ló e desejará intencionalmente o mais depravado lodo, o mais antieconómico absurdo, simplesmente a fim de injectar o seu fantástico e pernicioso elemento no âmago de toda essa racionalidade positiva. "

A mais clara e literal representação do egomaníaco, hipersensitivo e psicologicamente instável ser humano, tão presente na nossa sociedade.

"Somos todos nado-mortos, desde há muito tempo, e os pais que nos engendram, são também mortos, e tudo isso nos agrada cada vez mais. Tomamos-lhe o gosto. Em breve inventaremos o meio de nascermos de uma ideia. Mas, basta; não me apetece escrever mais «do fundo do subterrâneo»..."

Um romance existencialista sobre o tormento que pode ser a vida, e até agora a mais crua das obras de Dostoyevsky.
Profile Image for sophia.
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April 29, 2025
memórias do subsolo é um daqueles livros que não pedem licença para entrar. eles invadem, machucam e deixam marcas que você sabe que não vão desaparecer tão cedo.

dostoiévski não escreve para agradar; ele escreve para expor e o que ele expõe aqui é tudo aquilo que normalmente tentamos esconder: a vergonha, o rancor, a humilhação silenciosa, o orgulho ferido.

foi impossível não me reconhecer em vários momentos, especialmente na maneira como o narrador pensa demais, analisa demais, até o ponto em que a ação se torna impossível. a consciência, que deveria ser uma força libertadora, se transforma em prisão.

é doloroso perceber o quanto a lucidez pode se tornar uma forma de sofrimento — uma paralisia diante da vida, onde a vontade de agir morre afogada em mil pensamentos contraditórios.

a primeira parte do livro mergulha fundo nesse monólogo sombrio e perturbador, em que o protagonista alterna entre confissão, acusação e defesa, revelando uma alma rasgada entre o desejo de ser especial e a certeza de ser insignificante.

já a segunda parte nos leva da teoria para a prática, mostrando cenas em que ele se perde na própria arrogância, na própria carência, na própria raiva. não há redenção, não há heróis: apenas um ser humano nu, exposto em toda sua fragilidade.

memórias do subsolo não é uma leitura que conforta. mas é uma leitura que diz a verdade — uma verdade amarga, porém necessária. ao terminar o livro, ficou claro para mim que o subsolo não é apenas um espaço literário: é um estado da alma.

todos nós, em algum momento, tropeçamos nos nossos próprios labirintos internos — onde a vergonha, a vaidade e o medo moldam quem somos, mesmo quando fingimos que não.

dostoiévski não aponta saídas fáceis. ele apenas segura um espelho diante de nós e, com uma sinceridade cruel, sussurra: "olhe — este também é você."
Profile Image for Cata.
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standby
October 26, 2018
livro muito bom mas deprimente.
ainda não é a altura certa.
darei mais uma tentativa no futuro
Profile Image for Luciana.
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July 14, 2020
Consenso entre grandes nomes, dentre eles Nietzsche e Camus, Dostoiévski é considerado um dos maiores escritores do século XIX, alicerçado nesse patamar, uma vez que conseguiu transpor das mazelas o melhor e o pior da condição humana, trazendo para sua narrativa as jornadas morais, filosóficas e psicológicas.
Em Memórias do Subsolo não poderia ser diferente.

Assim sendo, o autor constrói a obra mediante duas partes: na primeira nos é apresentado o narrador-personagem, um funcionário público aposentado de 40 anos, que se mostra extremamente magoado com a vida, com os seus pares, em especial consigo próprio por ser tão superior a todos e devido a isso sofre demasiadamente.
O personagem busca agarrar-nos em sua forte narrativa, construindo ideias e debates para em seguida dissolvê-los. Questiona tudo, mente, se corrige, cria metáforas, se diverte com nossos sentimentos, nos engana, torna a se corrigir e assim, constrói o alvo central do seu desgosto: o racionalismo, as certezas do progresso e o utilitarismo.

Depois de tantas questões múltiplas, a segunda parte de obra se apresenta menos densa e mais interessante, pois, voltando 20 anos no passado, iremos nos encontrar com algumas situações que ficaram marcadas no personagem.
Nos expõe o seu lado mais perverso quando dialoga com uma prostituta, expõe sua humilhação se impondo em uma festa de despedida na qual ninguém queria sua presença e por fim, expõe como se ofende com aquele que não julga sua figura nem digna de uma ofensa.
Desta forma, quando mais fundo de si o narrador-personagem vai, mais agonizante fica com as questões de seu íntimo, culminando em um homem do subsolo: aquele constantemente desafia a razão, desconfia da natureza e seus impulsos, se sente miserável por tudo compreender e sentir, e que é ofendido pela menor das ofensas.

Memórias do Subsolo, é, portanto, um embate entre a racionalidade, a natureza e a insuportável insuficiência do homem, no qual somos desafiados a tentar compreender o personagem e decidirmos se haveríamos de habitar o subsolo com ele ou não.
Dito isso, não é uma leitura muito fácil, pode ser que o leitor que não esteja habituado a ler Dostoiévski precise de maturidade literária para acompanhá-lo, mas aqueles que derem chance a obra, conhecerão o melhor e o mais sagaz do autor, ficando, de tal maneira, a recomendação.
Profile Image for Pedro Lucas de Azevedo.
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January 22, 2025
"Um homem decente e cultivado não pode ser vaidoso sem uma ilimitada exigência em relação a si mesmo e sem se desprezar, em certos momentos, até o ódio. Mas, quer desprezando, quer colocando as pessoas acima de mim, eu baixava os olhos diante de quase todos que encontrava." (pág. 57)

Que livro desagradável. Por que 5 estrelas, então..?
Porque foi um livro que me fez sentir na pele as palavras maldosas ditas pelo tal homem do subsolo. Porque eu me vi nele, no autor das memórias, e acho que todos os que leem este livro também se verão nele em algum momento, pois, como é dito na apresentação do livro:

"O autor das memórias e as próprias "memórias", é claro, são inventados. No entanto, pessoas como o autor destas memórias não só podem como devem existir em nossa sociedade, levando em conta as circunstâncias em que nossa sociedade, em geral, se desenvolveu."

E qualquer um que leia o livro perceberá que Dostoiévksi estava certo: tais pessoas existem, e acho que isso que me causou tanta angústia, por me ver, em certos momentos, num personagem tão canalha como o homem do subsolo. Um alienado da sociedade — tudo bem que alguns momentos ele é bem exagerado, beirando a loucura, quase como Raskólnikov. E isso que é o mais incrível, não? Poder se reconhecer em livros como este abre portas para a autorreflexão, para o reconhecimento dos próprios erros. Isso é literatura de peso.
Profile Image for Gabriel Franklin.
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October 20, 2015
"Há de lembrar, quarenta anos seguidos, a sua ofensa, até os derradeiros e mais vergonhosos pormenores; e cada vez acrescentará por sua conta novos pormenores, ainda mais vergonhosos, zombando maldosamente de si mesmo e irritando-se com a sua própria imaginação. Ele próprio se envergonhará dessa imaginação, mas, assim mesmo, tudo lembrará, tudo examinará, e há de inventar sobre si mesmo fatos inverossímeis, com o pretexto de que também estes poderiam ter acontecido, e nada perdoará."
Profile Image for Gustavo.
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January 5, 2025
Que loucura que foi ler isso…

Partirei do princípio, "Memórias do Subsolo" de Fiódor Dostoiévski é o primeiro livro que leio do autor, tenho na estante os Irmãos Karamazov a mais de 20 anos, as poucas tentativas de lê-lo me levaram somente até os primeiros capítulos, mas nunca mais toquei nele, eis que decido começar por algo menor, mas não é por que algo seja menor que não faça um estrago (😏), enfim… “Memórias do Subsolo” é uma obra profunda sobre a condição humana, desafiando tanto o racionalismo quanto os ideais utópicos da época. Publicada em 1864, essa novela filosófica antecipa muitas das questões centrais do existencialismo, tornando-se uma leitura interessante para quem deseja explorar as complexidades da mente humana.

O protagonista, conhecido apenas como "homem do subsolo", é um personagem isolado e atormentado por suas próprias introspecções. Ele nos conduz através de seus pensamentos sombrios e contraditórios, rejeitando as normas sociais e os ideais de progresso. Para ele, a razão não é suficiente para capturar a totalidade da experiência humana. Ele desafia o racionalismo, argumentando que o ser humano é movido não apenas pela lógica, mas também por emoções irracionais e impulsos destrutivos.

Um dos temas centrais do livro é a crítica ao conceito de livre-arbítrio. O homem do subsolo acredita que o verdadeiro livre-arbítrio reside na capacidade de escolher o mal e o irracional, em vez de seguir somente o caminho da lógica e do bem. Dostoiévski, através de seu protagonista, nos força a confrontar o lado mais sombrio da natureza humana. Ele sugere que o sofrimento e a autodestruição são inerentes à condição humana e que a busca pela perfeição utópica é não só fútil, mas também desumana.

"Memórias do Subsolo" é uma obra que nos convida a questionar nossas próprias motivações e a natureza do nosso ser. Através de suas páginas, Dostoiévski reflete sobre a complexidade do ser humano e antecipa muitos dos dilemas filosóficos que seriam explorados por pensadores existencialistas no século XX. É um convite a mergulhar nas profundezas da alma humana e a reconhecer que, por trás da racionalidade, existem aspectos irracionais que moldam nossa existência.
Profile Image for Cayo Candido.
80 reviews9 followers
November 9, 2022
Ler esse livro foi um desafio. A primeira parte é bastante densa e filosófica deixando os pensamentos distraídos se perderem junto com as digressões do narrador. A segunda parte é mais narrativa, mas ainda assim bastante densa. O que me encantou foi o mergulho numa cultura distante porém não totalmente estranha. As notas do tradutor sempre ajudando no belíssimo trabalho de Boris Schnaiderman.
Profile Image for yagho szulik.
78 reviews3 followers
February 14, 2021
eu achei que ia dar 4,5 pra ele, mas nas últimas dez páginas foi quando esse livro mostrou tudo o que ele tinha pra mostrar (e, reparem, eu ja ia dar 4,5 pra ele). fiquei chocado e amei demais!! dostoiévski já ganhou meu coração 💞
Profile Image for João.
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February 13, 2026
“Juro aos senhores que ter consciência demais é uma doença, uma doença de verdade, perfeita.”
6 reviews
January 24, 2025
Este livro foi o início de um percurso lindo de apreciar todo o trabalho deste autor. Depois de ler uma das obras mais conhecidas dele, crime e castigo, foi uma experiência brilhante entrar na cabeça deste homem e entendê-lo. Enteder a sua escrita, entender as suas circunstâncias e ver como era alguém que tinha uma noção de si mesmo tão crua e limpa. É um livro que motiva a ler todas as suas obras e que para quem gosta dos seus livros, considero indispensável ler este também para entender a mente brilhante que está por trás das palavras.
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