"Ainda hoje não sei se entendi direito aquelas palavras. Meu rosto se transformou num ponto de interrogação suspenso no vazio. É a minha cidade? Ou não é? Eu estava numa encruzilhada. [...] Sou uma encruzilhada, eu acho. Uma ponte, uma equilibrista, alguém que está sempre no limiar e nunca está. No fim, sou somente a minha história. Sou eu e os meus pés. Sim, os meus pés..." [Capítulo 1, p. 27-29]
"Gostaria de correr. Brincar com outros filhotes. Ter uma mãe. Fundir-se à savana. Mas a savana está distante, muito longe. Para ele, é uma terra proibida. Encontra-se em perpétuo exílio, uma criança nascida sozinha. Nem sabe se um dia voltará para a África. Nem sabe se já esteve lá.
[...] O elefantinho do Bernini da Piazza della Minerva é um dos melhores amigos que tenho em Roma. Para mim, aquele elefantinho é somali. Tem o mesmo olhar dos exilados. E também a mesma irreverência.
[...] Com o tempo, descobri que aquele elefantinho tem o mesmo olhar da minha mãe. Não pode voltar, não pode saciar a sede da sua angústia. O exilado é uma criatura dividida. As raízes foram arrancadas, a vida foi mutilada, a esperança eviscerada, o princípio separado, a identidade despida. Parece não ter sobrado nada. Ameaças, dentes crispados, maldade.
[...] Minha mãe viveu muitos lampejos. Antes de ser arrancada da Somália, alguém a havia arrancado da mata. De nômade foi forçada a se tornar sedentária. E todas as vezes teve que reinventar-se, teve que redesenhar o seu mapa. Aquele lampejo que vejo em minha mãe e no elefantinho do Bernini são as histórias que nadam em seus ventres. Afinal de contas, se vocês se aproximarem de uma somali ou de um somali, é isso que vão receber: histórias. Histórias para o dia e histórias para a noite. Para vigília, para o sono... para os sonhos." [Capítulo 3: Praça Santa Maria sobre Minerva, p. 54-56]
"Ninguém é puro nesse mundo. Nunca somos só negros ou só brancos. Somos o fruto de um encontro e de um afrontamento. Somos uma encruzilhada, pontos de passagem, pontes. Somos móveis. E podemos voar com as asas escondidas nas dobras das nossas almas celestiais." [Capítulo 4: A estela de Axum, p. 76]
"Tínhamos que encarar o rosto obsceno daquela realidade que nos tocou no destino. Aquele barquinho naufragado estava cheio de somalis, essa era realidade! Cheio de homens e mulheres, de seres humanos reduzidos a larvas. Aquela embarcação de papel estava cheia de gente com o nariz como o meu, com a boca como a minha, com os meus cotovelos. Todos nós da diáspora somali, no dia em que ficamos sabendo dessa notícia, não sabíamos o que fazer com os nossos corpos. Os que morreram nas costas da ilha de Lampedusa tinham provocado não somente uma comoção sem igual, mas um mal-estar. Por que eles morreram e nós estávamos vivos? Por que o destino nos dividiu em dois? A estação melhorou muitíssimo nos últimos anos. De uma parte, houve a restauração feita pela prefeitura, de outra, várias comunidades migrantes também se organizaram. Há lojinhas de todo tipo. Quer colocar aplique no cabelo? Quer um pouco de cardamomo para os chás condimentados do seu recanto? Quer um tecido com a história da rainha de Sabá para pendurar nas paredes de casa? Em Termini, encontram-se coisas fantásticas: de saris a raiz de rummay para escovar os dentes, e até goiabada que os brasileiros comem com queijo e chamam romanticamente de 'Romeu & Julieta'. E também quantidades infinitas de eenjera e zighinì.
[...] Moha, em sua época de ouro, pintou e bordou. Eu e minha mãe éramos espectadoras mudas das confusões que ele armava. Por um período, ele teve até três nomes. Louis para as mulheres que achavam que ele fosse sul-americano, Ali para as brancas que não sabiam pronunciar seu verdadeiro nome (e todas as vezes lhe diziam 'Que massa, como Ali Babá', e Amedeo para as mais duras na queda e experientes. Só disse seu nome verdadeiro à mulher que se tornou, por fim, a mulher da sua vida. 'Eu não queria estragar o nome. É o que me sobrou da Somália, além de vocês." [Capítulo 5: Estação Termini, p. 94-95, p. 100, p. 106]
"'Igiaba, está vendo aquelas mulheres?'. Bem, sim, eu as estava vendo. Eram mulheres somalis com porte de realeza e trajando roupas vivazes. 'Aquelas mulheres, no passado, eram poderosas. São filhas ou esposas de antigos funcionários do governo, algumas chegaram até a ocupar altos cargos. Mulheres que trabalhavam com a diplomacia e lidavam com segredos diplomáticos. Olhe para elas, mesmo mal cuidadas, que belo porte elas têm. E se aquelas mãos já não ostentam joias, ainda reluzem bem-estar. E sabe por quê? É porqeu, minha filha, elas não se sentem humilhadas de ter que pedir ajuda. Não há nada de errado no que estamos fazendo aqui.' Eu olhava ao meu redor. Não havia rostos tristes, só havia pessoas passando por maus bocados, mas que desejavam superar aquele momento ruim. Nós estávamos entre aquelas pessoas." [Capítulo 6: Trastevere, p. 115-116]
"quando penso num evento em especial, minha mente viaja para a maratona das Olimíadas de Roma de 1960: quarenta e dois quilômetros, cento e noventa e cinco metros. Maratona ganha por Abebe Bikila, que a completou, descalço, em duas horas, quinze minutos e dezesseis segundos, com uma vantagem de duzentos metros à frente do marroquino Rhadi ben Abdesselem. De uma só vez, Abebe Bikila quebrou o recorde mundial e deu ao continente africano a primeira vitória nessa modalidade olímpica. Para o ex-agente da polícia e guarda-costas de Hailé Selassié, foi um dos momentos mais lindos da sua vida. Para mim, considerando tudo a posteriori, é quase simbólica a sua vitória descalça naquele estádio. O estádio Olímpico, que nascera para celebrar a pompa de um regime fascista cujos planos incluíram a desfaçatez de humilhar as gentes da África, ao contrário, celebrou em 1960 a vitória de um pequeno grande homem que não tinha medo de se mostrar ao mundo de pés descalços.
[...] Fedíamos todos. Nós, da diáspora somali, naqueles dias, fedíamos pelos sonhos apodrecidos e pelas promessas quebradas. Aquele cheiro rançoso nunca mais nos abandonou. Ficou impregnado em nós até hoje, mesmo depois de passados tantos anos, como o suor das piores doenças. Eram os mesmos anos em que minha mãe desapareceu, desaparecida nas ramificações do terror daquela guerra sem sentido.
Por dois anos, os primeiros dois anos de guerra, eu não tive mais notícias suas: cresci sem a sua voz, sem o seu toque, sem a sua presença. Muitas vezes, os vizinhos me perguntavam: 'Onde foi parar a sua mãe? Há tempos que não a vemos'. Eu nunca sabia o que responder. Claro, poderia dizer a verdade. Poderia dizer: 'Mamãe desapareceu. Estourou uma guerra. Ela estava em Mogadíscio por acaso, por falta de sorte, por azar, por maldição, porque assim estava escrito no livro de Deus. Não sabemos que fim levou. Não sabemos se está viva ou morta. A guerra a tragou. Às vezes, é difícil acreditar que ela sequer tenha existido'. Porém, no fim das contas, eu não dizia a verdade aos vizinhos: eles não entenderiam; explicações demais, palavras demais.
[...] Minha tia Howa, como muitos idosos, jã não tinha mais qualquer autonomia depois do começo da guerra somali. Antes, os velhos eram o pilar da sociedade somali, davam conselhos, produziam pérolas de sabedoria e ofereciam seus ombros antigos seja para o choro, seja para o repouso. Eram um grande ouvido, uma boca oracular, um abraço infinito. Todo gesto estava carregado de afeto. Eram odres de amor. Mas, quando necessário, também sabiam repreender. Desferiam suas palavras repletas de verdade. Não havia sombra de raiva neles, somente de justiça. A Somália dos idosos era um país digno de ser vivido. Era a Somália dos nobres dromedários, das praias imaculadas de Jazeera, dos tuqul portentosos, das mesas cheias de beris skukaris e de uvas passas." [Capítulo 7: Estádio Olímpico, p. 119, p. 122-123, p. 126]
"'Sabe Igiaba, quando te vi assim, eu me senti impotente. Eu era tua mãe, uma adulta, mas me sentia sem recursos.' Porém, mamãe tinha e ainda tem muitos recursos. Começou a me contar histórias da Somália. Porque, para os nômades somalis, sempre há uma solução escondida numa história. Suas histórias tinham um objetivo: ela queria que eu entendesse que não surgíamos do nada; que por trás da gente havia um país, tradições, toda uma história. Não existiam só os antigos romanos e gauleses, não havia só os latinorum e a ágora grega. Havia também o antigo Egito e os coletores de incenso do Reino de Punt, ou seja, da nossa Somália. Havia os reinos de Ashanti e Bambara. Ela queria que eu me sentisse orgulhosa da minha pele negra e da terra que tínhamos deixado para trás por motivos de força maior. Ela me contava dos nossos reinos distantes, das fortes ligações com o Egito, com a Índia, com Portugal, com a Turquia. Ouvindo a mamãe, eu sentia o eflúvio paradisíaco de incenso e unsi, cheiros que motivaram a rainha Hatshepsut da décima-oitava dinastia egípcia a ordenar uma expedição à Somália.
Com as suas histórias, minha mãe me livrou do medo que eu tinha de ser uma caricatura viva criada pela cabeça de alguém. Com as suas histórias, Ela fez de mim uma pessoa. De alguma forma, ela me pariu novamente.
[...] foi somente quando eu voltei para Somália que comecei a usar novamente minha língua materna. Em poucos meses, comecei a falar muito bem o somali. Agora, posso dizer que tenho duas línguas-mãe que me amam na mesma medida. Graças à palavra, sou hoje o que sou.
[...] Eu sou fruto desse caos entrelaçado.
E o meu mapa é o espelho daqueles anos de mudanças.
Não é um mapa coerente. É centro, mas também é periferia. É Roma, mas também é Mogadíscio.
É Igiaba, mas também é você." [Capítulo 8: O que é ser italiano para mim, p. 148-149, p. 152-153, p. 156]