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128 pages, Paperback
First published January 1, 1969
Se conhecemos bastante mitologia, podemos formar uma teia completamente coerente de todos os grandes arquétipos. Há sempre uma lenda ou uma saga que liga dois arquétipos em uma nova forma, e é uma tragédia que as pessoas não percebam isso. Os autores que escrevem sobre mitologia escolhem sempre um tema predileto, digamos o sol e, depois, respigam-no de todos os mitos e dizem que tudo é solar. Depois aparece outro camarada que diz que tudo é lunar, enquanto Mannhardt afirma que tudo é o deus da vegetação que foi pendurado na árvore. [...] os chineses diriam que, se puxarmos um pé de grama, obteremos sempre o prado inteiro, e foi a isso que Jung chamou de contaminação das imagens arquetípicas [...] Eu escolhi esse arquétipo da Grande Mãe de modo inteiramente aleatório [sic] [...] isso é completamente arbitrário". (pp. 107-108)
No alpinismo, as cinco pessoas que estão presas à mesma corda não podem se dar ao luxo de brigar. Podem detestar-se tanto quanto quiserem, mas para além da simpatia ou antipatia recíprocas, está uma Schicksalsgemeinde vital, uma comunidade do destino; são assim as comunidades primitivas do homem. Elas sempre têm dificuldades e problemas comuns, existem muito poucos problemas individuais; portanto, para o adivinho da tribo que joga os ossos de galinha para descobrir se haverá chuva ou boa caça, isso é tão importante para ele quanto para todas as pessoas que se aglomeram à sua volta e observam o que ele faz. Então há uma tremenda preocupação coletiva e, ao mesmo tempo, uma tremenda carga de energia psíquica; a tensão é enorme, o que, é claro, torna sumamente provável que o adivinho seja inspirado para obter do inconsciente a informação que se refere aos fatos e não uma resposta para o seu problema pessoal. Se a adivinhação falha, pode-se geralmente ver que o adivinho apresenta um problema neurótico pessoal que foi projetado no material. [...] Em comunidades primitivas, não existem muitos problemas pessoais; um problema pessoal é, de fato, um problema de todos em uma comunidade do destino, de modo que provavelmente o adivinho não projetará com frequência ninharias pessoais, mas funcionará corretamente" (pp. 73-74)
Suponhamos que uma tribo primitiva está em apuros e não pode livrar-se deles pelos meios comuns, ou por sonhos, ou pelo senso comum. Eles não conseguem enfrentar a situação. O que, nesse caso, é bastante provável que esteja constelado [sic] no inconsciente é o arquétipo do herói, ou salvador, visto que, para superar a dificuldade, tornam-se agora necessários um esforço psicológico extraordinariamente heroico e a mobilização de incomuns e sobre-humanas 'capacidades da psique'. [...] Isso aconteceu quando a Alemanha projetou em Hitler a imagem do heroi-salvador. Era um período de terrível crise, tanto psicológica quanto econômica, e sob todos os aspectos. [...] De certo modo, era verdadeiro que a única saída para essa dificuldade era uma tremenda mudança de atitude [sic], e isso mobilizou a ideia de um líder heroico, ou de um salvador, no inconsciente. [...] Tivesse a projeção recaído sobre uma personalidade conveniente, talentosa e ética, o povo poderia ter sido conduzido de modo a sair dos apuros, mas recaiu num psicopata, com todas as consequências disso. (pp. 96-97)
Em histórias honestas da ciência é possível encontrar esse tipo de observação, ou seja, que por mais estranho que pareça, há uma tendência para certas ideias e invenções surgirem no mesmo tempo e em lugares diferentes. Do ponto de vista psicológico, isso não tem nada de milagroso. No espírito do tempo, por assim dizer, estão consteladas certas interrogações e certos problemas psicológicos. Depois, várias pessoas inteligentes têm a mesma questão em mente, exploram os mesmos caminhos e chegam aos mesmos resultados; isso se deve à constelação de um arquétipo no inconsciente coletivo. (p. 121)