Damásio é para mim um materialista espiritual. À semelhança de tantos cientistas, a compreensão física e química dos fenómenos humanos não lhes retira beleza ou sacralidade. Difere, no entanto, da maioria na questão da aceitação da ignorância – muito não se sabe ainda. Por exemplo, o mecanismo especifico, as reacções infinitesimais, que transformam meros padrões neurais em verdadeiras imagens mentais. Como é que o corpo afecta a mente ( ex: Drogas, álcool, efeito da temperatura...) é mais passível de ser seguido pela neuro-biologia do que a reacção contrária: a mente afectar o corpo e também assim poder criar "falsos mapas"- como as reacções psicossomáticas ou a vitalidade súbita suscitada pela esperança e pela "força de vontade" ( o que quer que isto signifique em termos abstratos, tem o seu correspondente efeito fisiológico). A compreensão da interdependência deve fazer jus a um transcender do dualismo cartesiano (falar de mente e corpo, continua, no entanto, a ser um aparato heurístico e mesmo que se trate de uma só substância é difícil despregar de tal divisão. Mesmo Damásio fala que os sentimentos são a linguagem do "espírito" a respeito da homeostasia do corpo, dos estados do corpo) que se prova reducionista e falso à luz dos novos dados da ciência. Os mecanismos, permanecem, no entanto, semi obscuros. Mas tal, não faz resvalar para um agnosticismo sem chão: Damásio é ainda um positivista - considera estas questões dentro do escopo técnico, uma vez que radica toda a sua teoria na neurobiologia aplicada e associada a outras ciências sociais e exatas para a compreensão alargada e complexa dos comportamentos sociais, da imaginação, criatividade, os sentimentos, a razão, a poesia, a esperança, o desespero mais fundo ou o sonho mais metafísico de resposta.
Admirador de Espinosa (de um modo que poderia dizer poético) é, no entanto, crítico deste no que toca a uma resposta satisfatória para o alcance da felicidade (tida como a forma mais elevada de ser, contrariamente à tristeza, emoção tida como baixa e descendente). Se é certo que o estoicismo e o domínio das paixões mediante a razão e a construção da virtude é de salutar em Espinosa, tal disciplina continua a ser um trabalho essencialmente hermético, de um sábio na sua torre de marfim. Assim, contra um hermetismo contemplativo ou a tranquilidade passiva de um Espinosa “soalheiro”, Damásio, (à semelhança de Albert Camus), apresenta a acção no mundo como ponto-chave para essa filosofia. A luta, o combate de Sísifo a despeito da miséria e da morte, a construção ativa e benévola depois de uma aceitação bem lúcida do sofrimento humano, da condição humana. Afinal, não temos (subjetivamente pensando) de seguir os planos de indiferença e crueldade da natureza mas sim contribuir para o bem-estar cada vez maior – mediante a educação, a tecnologia, as instituições sociais, etc.
Quanto à ideia de Deus…Damásio acredita, (não surpreendentemente), que a experiência espiritual por excelência é explicada por uma harmonia ímpar do corpo e da mente. Constitui o equilíbrio mais perfeito, a exponenciação do " Conatus" (ou preservação de si), a celebração efusiva da vida. Pela primeira vez, li uma concepção espiritual que assenta a espiritualidade na animalidade e não despreza o corpo nem as emoções basais na construção mais complexa e elevada de sentimentos de união, paz, transcendência etc. Não deixar espaço para um lacuna fora do escopo material poderá fazer de Damásio um materialista/ reducionista, mas não acho o seu tom, de forma alguma, aparentado com o ateísmo arrogante, cru e afrontado, de um Richard Dawkins, por exemplo. Pelo contrário, acho humildade e elegância nas palavras de Damásio ( um dos factos que mais me surpreendeu juntamente com toda a sua pesquisa e experiência) , e uma busca sincera pelo conhecimento, sem grandes ganâncias ou julgamentos de valor.
Para mim, a concepção de Damásio a respeito da espiritualidade é também corpórea e misturada com a narrativa da vida:
"Deus" - Cabe-me no peito agitado pela incompreensão. Porque o Amor é fundo. Desce e sobe até ao céu. Deus é a aceitação. O eterno “sim” que não se anula com a tragédia passada, presente ou futura. Porque deus é a vida espezinhada que no entanto é e se levanta – todos os dias. Por mais um dia. Porque deus está nas pequenas histórias. Nas pequenas memórias. Nos pequenos gestos e glórias. Porque deus é aquele abraço, aquele beijo, aquele sol, aquele amar. Deus é a epifania de que isto chega quando isto está em harmonia. Connosco e com os que amamos. Epifania não circunscrita pela linguagem. É todo esse filme dentro de nós- agridoce. Deus é a mais humana paz e o mais puro amor. Essa paz apesar de. Essa confusão de lágrimas que são duas coisas ao mesmo tempo. Por ter sido e por termos acontecido. Deus é humano. Deus está dentro de nós. Em forma de riso e choro, chamamento, abandono. Deus é a única coisa que nos absolve – o Amor. Seja ele um mapeamento neural que se transforma numa sinestesia de imagens mentais, “um mistério sem rosto”, para mim, a espiritualidade assenta realmente na forma mais perfeita de estar vivo. Como Damásio descreve. É a consciência de si imersa em graça. O corpo é fundamental para o entendimento de tudo quanto é humano porque nos contacta com o mundo e com o olhar e afeta até a nossa linguagem e metáforas. A mente perde o seu trono por instantes. Ao mesmo tempo que se abarca.