Leitura muito importante, sobretudo face ao panorama político no nosso país. O livro divide-se entre o fenómeno Incel e a ascensão da extrema-direita (e na forma como esta se relaciona com a masculinidade).
Kaiser aborda o poder da Internet nesses movimentos (no fundo, aquela ideia de que atrás do ecrã se pode dizer o que se quer, sem consequências):
""A Internet cria omnipresença e momentos de fama até para aqueles que normalmente são ignorados. Cada pequeno segmento pode ser insuflado até ganhar dimensão global, e por vezes isso acontece praticamente à velocidade da luz. Hoje em dia, e por mais pequeno que seja, cada monitor tem a aura de poder que, ainda há poucos anos, só emanava dos monitores de figuras de peso ou de entidades oficiais"" (p. 63)
A autora mostra também como os movimentos de extrema-direita se aproveitam da insegurança das pessoas e fazem uso da raiva que é gerada por essa insegurança (e nesta citação podemos substituir o nome Trump por aquele-cujo-nome-não-deve-ser-mencionado-para-não-alimentar-o-algoritmo):
"Tal como tantos outros demagogos da direita populista, Trump sabe explorar politicamente a raiva dos inseguros e atiça-la vez após vez para reforçar a sua própria popularidade. A raiva está ligada a outro traço da masculinidade hegemónica, que pode ser politicamente instrumentalizado, a partir da invocação da sua perda: o controlo." (p. 201)
Kaiser demonstra ainda como a fórmula desses movimentos é sempre a mesma, mais uma vez assente em insegurança (imaginada) e numa alimentação do medo:
"(...) isto é típico da lógica populista de direita, que se baseia na ideia de que existe um "inimigo interno" (a elite corrupta, as feministas, os ativistas LGBTQ+, o politicamente correto) e um "inimigo externo" (os imigrantes que roubam os "nossos" empregos e benefícios e ameaçam a "nossa" cultura nacional e autodeterminação sexual das mulheres brancas, e a "ideologia de género", que é vista como uma ameaça transnacional às famílias, às crianças e à reprodução da nação" (p. 204)
Por fim, destaco também a abordagem da autora no que se refere ao modo como estes movimentos de extrema-direita incorporam mulheres (as poster girls - e sim, é impossível não nos lembrarmos da adjunta-daquele-cujo-nome-não-deve-ser-mencionado), com o único fim de conseguir assim mais votos, mesmo que a incorporação de mulheres nestes movimentos seja um contrassenso que vai contra a ideologia do próprio partido (mas enfim, estas mulheres alinham neste jogo porque "pimenta no cú dos outros para mim é refresco"...):
"Não que o partido de extrema-direita tenha uma inclinação especial para a promoção das mulheres, mas porque ambas as partes tiram daí benefícios. Miazga pode fazer carreira como política, e escolhe a sua promoção pessoal a despeito da discriminação estrutural. Por seu lado, a AfD pode apresentar um rosto feminino e responder assim às exigências de ter mulheres nas suas fileiras, a fim de emprestar ao partido uma imagem mais contemporânea. As mulheres funcionam como modelos para outras mulheres e no papel de poster girls, são úteis para uma mudança de imagem." (p. 212)