Na pena inigualável de Sérgio Rodrigues, José de Alencar e Machado de Assis revivem no século XXI em um romance único, erudito e inventivo
Ao saber que seus livros seriam reescritos para alcançar mais leitores, os finados José de Alencar e Joaquim Maria Machado de Assis abandonam o Olimpo e desembarcam no Rio de Janeiro de 2020. Ali, Jota e Jota se envolvem com milicianos, conhecem uma jovem estudante tão enigmática quanto apaixonante e se veem às voltas com os debates identitários contemporâneos. Os renomados escritores atuam como uma dupla cômica de dar inveja a Stan Laurel e Oliver Hardy (O Gordo e o Magro, no Brasil) neste livro curto, poderoso e sarcástico.
"Muito doudo o livro do Sérgio. Devorei, gostei demais." – Chico Buarque
"Saio deliciada da leitura de A vida futura, transportada pela linguagem a algum lugar muito especial – que é nosso de direito mas poucas vezes temos a oportunidade de visitar. Uma jogada de craque. Na torcida, autores e leitores de nossa língua agradecem." – Ana Maria Machado
"Um romance único, divorciado de tudo quanto se anda produzindo e, ao mesmo tempo, engajadíssimo no embate e na interpretação desse Brasil 'dos vivos, dos moribundos, dos mortos-vivos, dos vivíssimos'. [...] Uma pérola maior que o nosso tempo.". – Caetano Galindo
Sérgio Rodrigues (Brazil, 1962), fiction writer, literary critic and journalist, is the author of seven books of various genres: novels, short stories and non-fiction.
Having worked for most major newspapers and magazines in Brazil, Rodrigues is now a full-time writer who keeps two columns – one about literature, the other focused on language issues – in Veja.com, the online version of the largest weekly magazine in Latin America. He was awarded the Prêmio Cultura (Culture Prize) 2011 by the Rio de Janeiro State Government for the whole of his work. He lives in Rio de Janeiro.
É notório que o mundo anda complicado e até mesmo nós, meros leitores, temos nossa parcela de responsabilidade. Em especial, quando se trata da leitura de um clássico cujo entendimento exige apenas um dicionário e a contextualização da narrativa para posterior interpretação. Duas regras seminais que parecem incomodar boa parte das pessoas, a ponto de correrem o risco de serem trocadas por um paliativo denominado releitura, capaz de transformar um livro num Frankenstein de capa e miolo.
Sobre esse assunto provocativo é que versa A Vida Futura, o último romance de Sérgio Rodrigues. Com capítulos curtos e de rápida leitura, trata-se de uma comédia em prosa protagonizada e narrada por Joaquim Maria Machado de Assis, contando com a honrosa colaboração de ninguém menos do que José de Alencar.
Em resumo, quando em pleno no século XXI, na nuvem onde residem, os dois finados beletristas descobrem que suas obras serão reescritas para torná-las mais acessíveis para quem tropeça no vocabulário oitocentista, ou sente-se constrangido com as opiniões retrógradas e até preconceituosas da dupla, só resta uma saída. Eles resolvem descer à Terra, ou melhor, ao Rio de Janeiro, a fim de puxar o pé da professora universitária Stella McGuffin Vieira, responsável pelo tal projeto que, subsidiado por verbas públicas, recebeu o sugestivo nome de Lutas dos Clássicos.
Todavia, “as aparências enganam” e o que era para ser uma rápida viagem, sem maiores percalços, transforma-se numa aventura de consequências inimagináveis que se distingue pela criatividade e a fina ironia de Rodrigues, como se pode observar neste parágrafo: “Para resumir um caso comprido, meditei que um dos defeitos mais gerais entre nós, brasileiros, é achar sério o que é ridículo, e ridículo o que é sério. Sabia-o antes de ser um autor defunto e mais o sei agora. A nata de nossa crítica literária levou sessenta anos para começar a quebrar o código de meu romance mais famoso, e hoje querem que ginasianos de joelhos ralados e álbum da Copa debaixo do braço decifrem tudo antes do bigode. Se conto isso a Molière, inspiro-lhe uma comédia em dois atos.” (Página 14)
Aliás, entre as tais consequências, está a dificuldade dos dois defuntos diante da linguagem neutra e o jargão identitário, porém, enquanto Alencar resiste à acentuada sensibilidade contemporânea, o Bruxo do Cosme Velho aproveita a oportunidade para refletir acerca da própria negritude e encantar-se por Mar, uma personagem não binária e negra.
Enfim, mesclando assuntos recorrentemente machadianos – o adultério ou “cornitude” e a figura do agregado – com temas contemporâneos – as milícias e o crime de feminicídio – a narrativa se encaminha para um desfecho apoteótico e, dispensando o peremptório “fim”, fico com um tal de Arcanjo Saraiva que ensandecido desabafa dos céus: “Doudos! Esses brasileiros são todos doudos!” (Página 149)
Deste eu nem falaria. Não por nada, mas só porque, falando de livros, nunca consigo nem cinquenta, nem vinte, e quando muito dez. Dez? Talvez cinco curtidas. Postaria apenas, numa seleção de várias imagens e sem muita legenda, qualquer fotografia em que o livro aparecesse no primeiro plano com o Pão de Açúcar de verdade no segundo, aproveitando que amanhã retorno ao Rio por uns dias. Mas me pegou; posto-o já. Antes de tudo pela graça gargalhante que o destaca do dramalhão geral que é a maioria dos romances brasileiros de hoje em dia. O doudo do Sérgio Rodrigues, como diz Chico Buarque, faz Machado de Assis chamar de Lulão, espiem só, curtidores, de Lulão, meu xará caolho, o poeta Luís de Camões. E nos trechos, então, quando lhe inculca a indecisão entre a existência e a ausência de exclamação em certa pergunta dirigida a seu Sancho Pança, José de Alencar? Só rindo… Contudo, se a pena é da galhofa, como sabemos, a tinta é da melancolia. Apesar das piadas todas, colocar alguém de outro tempo na sordidez do nosso, como o autor de fato coloca, leva a percepções de realidade que, caso contrário, indo direto a elas, montado no burrinho manco do, digamos, realismo puro, por incrível que pareça a elas não se chega. A vida futura, como poucos, dá uma noção da miséria da vida presente, da violência, das políticas e de muito mais que sentimos embora nem sempre saibamos expressar. Vocês precisam ler os fantasmas de Machado e Alencar, antes de assombrar, assombrados com o Rio de Janeiro de 2020: uma graça e uma tristeza!
a premissa é genial e a execução é muito boa! o autor conseguiu emular muito bem a escrita do Machado, então o livro tem muita personalidade. a construção de mundo é bem divertida, principalmente no começo com toda a ambientação ali no pós-vida dos escritores. oq me impede de dar 5 estrelas é q achei q a trama se perde em alguns momentos, mesmo pra um livro tão curto. e enquanto um livro curto, esses desvios na narrativa ficam ainda mais incômodos. de toda forma, é um exercício narrativo divertidíssimo.
Que divertido! Li super rápido, porque o livro tem uma fluidez legal. Sergio Rodrigues conseguiu criar uma personalidade bem verossímil para o Machado de Assis. Achei a pandemia meio solta na história, mas faz parte. Acho que muitos livros dessa época vão ter esse assunto passando pela tangente.
A premissa é muito interessante, tendo relido Memórias Póstumas recentemente e pesquisado um pouco sobre os dois autores-personagens antes de começar a ler, gostei muito das referências. Mas a história em si não me pegou muito, talvez porque algumas passagens foram confusas para mim, talvez porque achei muito "simples" como o personagem compreende o mundo atual, acho q esperava um pouco mais de atrito e contradição aí
“A imortalidade das letras é para poucos, escrevi certa vez com a pena prematura dos vivos, mergulhada naquela tinta mista de arrogância e candura a que chamamos sangue. Corrijo-me, leitor, leitora ou que outro gênero inventem de inventar. As nuvens que nos servem de leito lembram alojamentos militares, o pé do insigne poeta pernambucano no nariz do dramaturgo irlandês, o ironista irlandês a roncar junto da orelha peluda do romancista russo. É natural que tanto aperto desande por vezes em altercações ríspidas e babélicas, afugentando o sono”. Assim começa o ótimo romance “A vida futura”, descrevendo como era a pós vida numa espécie de “panteão no além” onde passaram a habitar, por toda a eternidade, a essências vitais (almas?) de todos os grandes escritores que a humanidade produziu, nem sempre em harmonia, como mostra o trecho selecionado, diga-se de passagem. Nesse “panteão no além”, logicamente, estavam os grandes Machado de Assis e José de Alencar, dois dos maiores nomes da literatura nacional em todos os tempos. Eis que, subitamente, chega ao conhecimento dos grandes escritores que uma professora carioca estava viabilizando um projeto para verter as obras dos dois mestres para um público maior reescrevendo os seus livros utilizando uma linguagem mais acessível e mais “moderna”. Indignados, os dois luminares das letras nacionais decidem voltar ao plano dos mortais para passar um corretivo na tal professora e impedi-la, no entender dos dois mestres, de conspurcar o que eles tanto se esmeraram em elaborar. De volta ao “plano mortal” os dois grandes escritores passam a ter que lidar com um Rio de Janeiro muito diferente daquele que conheciam chocando-se com o uso massivo da tecnologia, pouca leitura, linguagem neutra, violência urbana, degradação dos espaços urbanos etc. Vale a pena reproduzir uma fala indignada de uma estudante negra que fascina o personagem Machado de Assis tecendo um raciocínio, junto a seus colegas de faculdade, acerca de uma questão muito interessante: o “escurecimento” do “Bruxo do Cosme Velho”:
“Eu amo esse homem, já amava antes de saber que ele era negro. [...] O que significa dizer que ele era negro? Ser negro é ter sangue negro? Quantos por cento de sangue negro fazem um negro? [...] Para mim a importância de dizer para todo mundo que ele era negro, como nunca me disseram na escola quando eu era pequena, é uma só. Sabem qual é? A importância de espalhar que esse homem tinha sangue negro, que seu pai era um mestiço forro, que seu cabelo era de negro, que seus pelos faciais eram de negro, que seu pau com certeza tinha um roxo profundo de pau negro, a importância disso tudo para mim não tem nada a ver com uma essência preta que a gente pudesse encontrar no fundo do texto, mensagens revolucionárias, nada disso. Isso é conversa mole. O cara era totalmente assimilado, fez questão de passar por branco o quanto pôde. [...] É muito importante enfatizar neste momento que ele era negro, concordo. Uma coisa que sempre se escondeu, se abafou, se desconversou. Mas eu digo que a coisa só vai ser completa quando a gente puder acrescentar com ênfase também grande que ele não gostava nem um pouco de ser negro e fazia de tudo para se passar por branco. Chato né? Mas era justamente isso que fazia ele ser diferente, a única criatura bilíngue num mundo bipartido de monoglotas. Ele olhava aquela sacanagem toda de dentro e de fora ao mesmo tempo, e aí é que está. E nesse entrelugar, e só nele, que uma voz profunda se faz possível. Podem confessar: dá meio que vergonha alheia do gênio, não dá? [...] A consciência de classe que o nosso tempo valoriza, a militância do Luiz Gama, a revolta da Carolina, tudo isso é maravilhoso, mas abole justamente esse entrelugar, essa fresta. Não são cinquenta tons de cinza entre o preto e o branco: são cinquenta milhões. É ali que a genialidade dele, a improvável genialidade brasileira, se torna possível. Por isso aquele homem foi maior do que todos os outros, os de antes e os de depois, todos juntos e empilhados jamais nem poderão ser, ah, mas nem em sonho. E ao mesmo tempo, que frágil, que casquinha de ovo, que bolha de sabão, que vontade de pegar aquele homem no colo, puta que pariu”.
Ou seja, a notoriedade de Machado de Assis não se resume a sua negritude, como muitos hoje sustentam, e sim está mais ligada ao seu inegável e incomparável talento. Essas e outras interessantes questões acompanham os atônitos Machado de Assis e José de Alencar em sua cruzada contra a revisão de suas obras e valorizam sobremaneira a leitura do livro. “A vida futura” é um romance breve mas instigante de autoria de Sérgio Rodrigues, nascido em 1962, mineiro de nascimento, carioca por adoção, contista, romancista, organizador de antologias e colunista. Escritor premiado e prestigiado já teve seus livros editados na França, Portugal, Espanha e Estados Unidos. Ótima pedida!
Uma boa premissa, mas pouco elaborada e confusa no geral.
As trinta primeiras páginas vão bem, mas da chegada no século XXI em diante nada é interessante. Poucos são os momentos em que alguns debates bons são levantados - o motivo das duas estrelas - mas eles são rapidamente interrompidos por momentos que se pretendem engraçados mas pecam pelo excesso. Alencar é alívio cômico durante toda a segunda parte do romance, e antes disso também não se desenvolve enquanto personagem. O Machado que eu esperava, crítico e ácido em suas colocações, não apresenta nem a maturidade de alguém com séculos de morte. Isso sem falar da conotação perturbante dos relacionamentos românticos...professores e alunos, espíritos e recém adultas, enfim, não acrescentam em nada, para dizer o mínimo.
Poderia me deter em pormenores da narrativa, como as soluções que o autor encontra para de repente conseguir contar a história de vida das personagens ou mesmo avançar a trama, mas não pretendo me aprofundar tanto.
Esperava mais, mas entendo a dificuldade de emular a escrita machadiana e ao mesmo tempo contar uma boa história.
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Sérgio Rodrigues escreveu uma bem-humorada carta de amor à Machado de Assis, e é uma delícia de ler. Emulando a prosa machadiana com muita propriedade, o livro é (dentre outras coisas) uma instigante caça ao tesouro das referências ressignificadas dos livros de Machado. A presença de Alencar, nesse sentido, enriquece muito o personagem-narrador-autor tão amado pelos leitores e leitores Brasil afora.Dito isso, um ou outro trecho incorre em certa caricaturização das personagens aparecendo ao longo do romance, por oposição à sua caracterização mais detida. No caso deste livro, porém, isso se torna mero detalhe, pois a narrativa envereda justamente para o questionamento dessas caracterizações no (pseudo?)narrador Machado. Recomendo muito.
Uma leitura deliciosa, divertida e perspicaz em muitos pontos, e uma narrativa que começa e segue bem até mais ou menos o quarto final do livro, quando perde, para mim, um pouco da coesão numa pressa de ser finalizado. O fim da leitura me deixou com a sensação de que poderia ter sido mais, especialmente por ter deixado José de Alencar como uma personagem que some aos poucos sem que esse sumiço contribua para o contexto narrativo. No entanto, é certo que dei muitas risadas e fiquei a pensar, inclusive, se não caberíamos refletir - a exemplo das discussões que temos visto pelo uso de inteligência artificial para reviver gente morta - qual o arcabouço ético de usar, como personagem e evocação de estilo, um artista como Machado de Assis que, se pudesse mesmo vir ao futuro como na proposta desta obra, talvez se desgostasse daquilo no qual seu nome foi envolvido.
Descobri A vida futura através de uma lista de indicações da revista Quatro Cinco Um (se não me engano). A obra foi indicada pela sempre genial Fernanda Torres. Acho que essa lista foi lá por 2022. Apenas esse ano consegui ler e adorei a maneira como Sérgio Rodrigues brinca com o espírito do tempo e as organizações do lugar-poder, imaginando uma conexão entre os escritores clássicos e os contemporâneos. Busco sempre pensar a partir de uma relação sustentável com o tempo, onde para o futuro existir não se deve descartar o passado, e essa obra de certa maneira propõem isso. Demais 🧡
Sérgio Rodrigues é, sem dúvida, um dos escritores mais criativos que temos em atividade. Que atrevimento delicioso um Machado narrador-personagem. O trabalho fabuloso com a palavra, a metalinguagem, a metaficção, os diálogos intertextuais. O humor, que anda rareando nas narrativas contemporâneas, ainda que para tratar dos absurdos áridos que permeiam o mundo. O reconhecer, sem que nada permaneça imaculado ou sacralizado, os nossos maiores. Um gosto brincar de adivinhar as alcunhas, apelidos, epítetos. Que ideias imagéticas de um Alencar-cachecol. Que bom ter lido esse romance.
A premissa é interessante:se Machado de Assis e José de Alencar chegassem no Rio de Janeiro contemporâneo ?Uma destas obras que conta como uma "homenagem " aos escritores citados mas como valor próprio, muito confuso,zero senso e mediocre.
História divertida, criativa, irônica. Machado de Assis e José de Alencar perambulando pelo RJ do século XXI é realmente um enredo muito inusitado. O livro peca na parte final, com um desfecho desconexo e a meu ver meio sem sentido. Mas no geral, vale a pena ler!