Resgate ao realismo ácido
O sugestivo título dessa publicação de 1894 traz em si a indefinição subjetiva e tragicômica da vida anônima de um personagem encontrado em certos tipos sociais, insignificantemente invisíveis à observação comum. Nesse empenho de aprofundar ao que é irrisório a meritocracia heróica e romântica dos exemplos graúdos de riqueza e poder, os leitores conhecem a vida prosaica de Alfonso, e de quem o circunda. Sob uma carta de recomendação, este protagonista sai de um pobre vilarejo para trabalhar num banco metropolitano em ascensão, a agência Maller & Cia. Recém-chegado à vida adulta, em constante sentimento interno e externo de inadequação, inepto em adaptar-se aos meios sociais diversos, por várias camadas, nas inúmeras dificuldades de sincronizar ação e pensamento, por toda parte, carrega o peso de sua ansiedade crônica. Incapaz de desfrutar a vida, com timidez consternada, a todo momento inventa preocupações avolumadas. Hesitante nas pequenas e grandes decisões, Alfonso opta pelas consequências do meio-termo, que mesmo sem atinar, obteve a sorte de frequentar a casa Maller, assim, as opiniões literárias de Alfonso passaram a interessar Anetta, a filha do banqueiro. Nessa narrativa fria, observadora, e incólume, Alfonso é a figura de um pseudo intelectual, acompanhado por impulsos nervosos contraditórios, cuja verdadeira vontade não é ter informações ou conhecimento algum.
Seu gosto literário possui proporções afetivas, que em situações extremas, o levam a um reacionarismo nostálgico. Se no passado ele não precisava se virar sozinho por conta dos pais, para proteger sua infância perdida, na biblioteca municipal faz pesquisas no intuito de escrever um tratado sobre a moralidade, pelo qual, não passou do primeiro capítulo. Por força maior, o trabalho impede-o de cuidar dessas vontades inconscientes, além de promovido, a partir das relações com o extrovertido e sádico Macario, primo de Anetta, ele retorna à casa Maller. Mal percebendo o gosto excessivo e duvidoso do banqueiro, novo burguês, nesse cenário de pompa e falso requinte, as personagens desse circuito social são postas ao ridículo. Anetta preparara encontros literários, e no intuito de conquistar Alfonso, juntos escreveriam um romance. Todos homens que lá frequentavam viam em Anetta uma espécie de sonho de consumo, ironicamente desligado, Alfonso nem sabia ser invejado, embora morresse de ciúmes, nunca imaginaria a possibilidade dessa disposição amorosa. Até sua natureza se acostumar à ideia, visto que, por conta do dinheiro, em seu inconsciente, nela estaria, a continuação da proteção materna, então extraviada, na vida adulta. Sem grandes voos, nesse círculo diletante, a arte admirada por essa elite não passa do valor decorativo de um penduricalho, que serve de moldura moral para a burguesia explorar e ser opulenta. Depois de incontáveis idas e vindas, dramatizações e subterfúgios, Alfonso beija Anetta. Em seguida, nas enormes dificuldades em se familiarizar, principalmente com a parte rentista do arrogante e soberbo Federico, não sabendo tirar proveito sendo frio, no hábito de alegar sempre algum mal-estar como desculpa, Anetta obteve sua primeira frustração amorosa, a timidez de Alfonso nada tinha de semelhante ao coquetismo de sua pose fria, calculadamente, aristocrática.
No aluguel de um quarto, Alfonso dividia a propriedade precária da família Lanucci. O pobre casal acreditava piamente nele como melhor partido para a filha, Lucia. Para as meninas daquela época, toda perspectiva familiar era depositada no futuro marido. Devido à influência dos pais, ela já gostava de Alfonso, com o corpo apresentando os primeiros rebentos, não era linda, nem feia, mas peculiar. Na malfadada tentativa de arranjá-los, o desconforto indiferente de Alfonso se ampliava. Inconsequente e irresponsável, Gustavo, o irmão pouco mais velho de Lucia, com assentimento geral, começou a trazer pretendentes para o casamento dela. Pela intimidade sugestiva, tudo parecia como um leilão para o homem que pudesse arcar com as despesas do casamento. Por meio dessa ingenuidade grosseira, a família Lanucci enxergou um pouco de Alfonso em Gralli, visto que o primeiro era amante das letras e o segundo trabalhava na tipografia. Com os feromônios agitados no ar, de voyeurismo ciumento, pelos corredores da casa, Lúcia grudava-se em seu namorado. Todavia, introvertido e apaixonado, o despercebido Alfonso voltava à casa Maller. Francesca, responsável pela educação de Anetta, está enroscada amorosamente com o banqueiro. Com os objetivos de obter as melhores chances para desposar o viúvo, separadamente, Francesca dá conselhos a Anetta e Alfonso. Assim, o autor coloca na figura da jovem governanta o papel de uma orientadora sexual pronta para desvencilhar a castidade de ambos. Aliás, a pedido de Carolina, mãe de Alfonso, Francesca fora quem escrevera a tal carta de recomendação. Conterrânea do mesmo vilarejo, como alpinista social, ela tem objetivos mais definidos que Alfonso, o qual, num desbloqueio, deflora Anetta.
Não esperando por alguma ebulição sentimental, Anetta apresenta inseguranças a respeito de sua posição social. No intuito de preparar terreno, ela sugere a Alfonso para se afastar temporariamente. De bom grado, Alfonso pede quinze dias de folga, a caminho do trem, Francesca faz-lhe a seguinte advertência, se ele voltar para o vilarejo, nunca mais terá Anetta de volta, e que assim, por entrelinhas, ela estaria arruinada com o Sr. Maller. Alfonso desconversa, nunca entendendo a função dela, dentro de sua fuga psicológica, sente-se aliviado. Entretanto, ao chegar na cidadezinha, observa sua mãe de cama, prestes a falecer, desse modo, Alfonso reverte o papel de Anetta com a mãe viúva. Em uma carta explica a Anetta o pedido de mais quinze dias. Envergonhado diante da mãe, sequer cita Anetta com o merecido respeito, conjectura mil formas diferentes em que ele e a mãe poderiam viver juntos, ao tentar ocupar o espaço deixado pelo falecido pai, o autor antecipa a teoria edipiana de Freud. Observador da sociedade, o romancista piora as circunstâncias, a mãe de Alfonso vai a óbito. Em resultado disso, ele contrai febre tifóide, por obrigação, e pressão astuta do administrador dos bens da família, Alfonso recebe as duas propostas de compra da casa. A primeira vem do amigo de infância que se tornou noivo de sua ex, cuja intenção era a de fazer um comércio familiar, a segunda vinha de um empreendedor que montaria um bar. Por idiossincrasias pessoais, a partir da mudança de comportamento do colega, sem olhar nos contratos, ele vendeu a casa no menor valor para o taberneiro. Ao retornar à casa, os Lanucci estavam preocupados com a desonra da filha estar grávida, e que, Gralli não se importava com isso. Enquanto no trabalho, não teve nenhum sinal de Anetta, com medo de perseguições por parte do Sr. Maller, Alfonso trabalha dobrado. Preocupado com o que achassem sobre ele, procura ser extremamente cauteloso.
Pronto para matar Gralli, informado pela Sra. Lanucci, Alfonso sai em busca de Gustavo, ao encontrá-los alegres de tanto beber, ele propõe contribuir financeiramente com o casamento. No intuito de ajudar a criança, sem expor nada, se casasse, prometeu dar-lhe a quantia da venda da casa. Nessa conjuntura, por mais que houvesse arranjo moral, Lucia agradece, mas afirma a Alfonso que nessas condições jamais poderia amar Gralli. Por pensamentos tortuosos, Alfonso não sabia se era visto como um aventureiro, segundo Francesca, tudo estava perdido porque ele era um imbecil. Para elas, a fuga era clara, Alfonso nunca soubera com antecedência se a mãe estava de fato doente, pois havia semanas que ele não respondia suas cartas. Mesmo que se outrora inconscientemente pensasse que um dia Anetta iria adaptar-se à personalidade de Carolina. A essa altura, o Sr. Maller já tinha tomado as rédeas da situação. No serviço, por boatos, Alfonso soube do noivado dela com Macário, e estava disposto a ser ao menos um amigo, independentemente do que achassem dele. Sem entender bolhufas, transferido para um setor menos importante do banco, confirmou o que sua neurose afirmava. Em um dia qualquer, encontrou Anetta atravessando a calçada, mal reconhecendo-o, Alfonso, então, escreveu-lhe uma carta pedindo um encontro de acordo no cais. No local combinado à beira mar, recebe um empurrão surpresa de Federico, primo de Anetta, o Sr. Maller também o ataca, que, em golpes e contra golpes, Alfonso escapa de ser lançado ao mar. Ridiculamente ilógico, o protagonista reflete sobre sua pobre e única maneira de fazer bem a todos, o suicídio. Os Lanucci não entenderam a radicalidade do ato, Gralli não cumpriu o papel de pai, e no seu endereço, o banco mandou um comunicado oficial lamentando não saber o real motivo que levou o fim de seu funcionário. Por isso, para além de escrever sobre humilhados e ofendidos, Ítalo Svevo escreve sobre os esquecidos.
Com doses sóbrias de Marx e Shopenhauer, percebe-se, nesse pessimismo, o quanto a ascensão social é um empreendimento dificílimo, pois, a vontade que organiza a elite é a mesma de manter o status classista de seu poder econômico representado no completo domínio da luta de classes. Ainda mais, nessa antecipação psicanalítica das relações entre o eu e o mundo, Ítalo Svevo finca na literatura o quadro clínico de uma das facetas do sujeito social moderno. No enredo, com exceção da elite masculina e burguesa, todas personagens tem suas pequenas tragédias desiguais, por esse realismo psicológico contundente, Ítalo Svevo escreve também sobre a produção da subjetividade humana alienada no martírio da moralidade cristã contraposta ao materialismo liberal. Mesmo porque, diante da própria repressão psicológica individual do eu, a auto imposição gerada na abdicação, abnegação e resignação forma um conjunto apolítico distante de si e do mundo. Numa época em que a palavra ansiedade e depressão não eram usadas, essa narrativa impessoal alerta brevemente os pontos de fixação desses tipos de condicionamentos depressivos, de tal modo que se mostra o quão complexo um ser humano pode ser. Autor triestino desconhecido do grande público de sua época. James Joyce, em sua viagem à Itália, descobriu este livro. Impressionado com a qualidade estética da obra, encarregou-se de divulgar Ítalo Svevo, de modo a compará-lo a Marcel Proust. Nesse estilo, "Uma Vida", "Senilidade" e "A Consciência de Zeno" formam uma trilogia. Por fim, Anetta tinha três pretendentes, que de uma forma ou de outra, avançaram o sinal: o primeiro (não nomeado) perdeu o emprego logo de início; o segundo era Fumigi, um inventor, recusado durante o pedido de noivado, morreu de paralisia cerebral; o terceiro, Alfonso. Na hipótese da riqueza ter parentesco com o dinheiro, o casamento talvez forçado com Macario é financeiramente autofágico, como se nessa metáfora, a economia também recaísse ao tabu do incesto.
(Yuri Ulrych)