Set during the difficult era of the Great War, The Devastation of Silence is the story of a captain in the Portuguese Expeditionary Corps who, with no documents showing his rank, finds himself in a German prison camp forced to share the circumstances of his poorer countrymen. He is hungry, constantly plagued by the sound of incessant detonations--and trying to finish his oral account of a strange story about a German scientist and voice recordings. In all this, he must seek meaning in his observations, his dreams, and, above all, silence.
João Reis (1985) is a Portuguese writer and literary translator. His books are published in Portugal, the USA, Brazil, Serbia, Georgia, Egypt and Greece. He writes both in Portuguese and English.
The Translator's Bride was his first work to be translated into English, and his novel Bedraggling Grandma with Russian Snow was longlisted for the 2022 Dublin Literary Award.
He's also the author of The Devastation of Silence (longlisted for Prémio Oceanos 2019, published in English in November 2022), Quando Servi Gil Vicente (shortlisted for Prémio Fernando Namora 2020), Se com Pétalas ou Ossos (2021), Cadernos da Água (2022, shortlisted for Prémio Fernando Namora and Prémio Fundação Eça de Queiroz), and An Atavic Fear of Hailstorms (2023).
Inicialmente havia considerado um 3,5 arredondado para 4, mas conforme sou obrigada a reflectir sobre a narrativa, entendo que não me tocou. É uma pena, porque é um retrato nítido, um close-up aflitivo do que foram as agruras que os portugueses passaram na Frente.
É uma abordagem interessate, na medida em que não é político. A política é o que menos interessa para aqueles homens, cujos corpos e a sanidade são postos à prova durante mais tempo do que deveria ser suportável, e que, no instante em que o autor aponta o seu foco ao momento histórico, já o seu calvário se tornara ensandecedor. É quase um ensaio, um teste. Não procura ser épico, e isso, a nível nacional, parece-me novidade.
A haver uma palavra que o resuma, esta seria fome. Sente-se a fome, como se sente a doença, como se sente o esquecimento, os percevejos, o frio, a lama, a devastação da paisagem, a influenza a aproximar-se. Salvo erro, a data específica em que a acção decorre, nunca é informada. Também não importa, trata-se de um encontro entre dois homens numa estação de comboio; e o incessante palavrear de um deles, que se dissera em tempos silencioso, revela que guarda ainda todos aqueles episódios em si, toda aquela angústia, todos aqueles recados de bons homens que iam perecendo ao seu redor.
A narrativa é muito coesa, o livro é muito bem conseguido, um pouco como se o autor o tivesse escrito todo sob o mesmo ânimo, com o mesmo princípio metódico, com a mesma cadência na respiração. Isso é algo que nunca consegui fazer, por isso é uma característica que admiro instintivamente.
Posto isto, o que não gostei no livro? Repetição. Há uma tendência que encontro nalguns escritores nacionais em repetir uma ideia até à exaustão. Talvez neste livro haja razão de ser, e de facto acompanha a psique das personagens, a sua fraqueza física e desgaste emocional, a sua confusão geográfica, temporal, a incerteza. Quase se ouve o espírito a quebrar-se-lhes, mas a verdade é que já em 2007, quando li Cemitério de Pianos, troçava da minha melhor amiga por o ter como seu livro favorito. "A luz na janela, a luz na cortina, a luz no chão, a luz no espelho e a luz no teu olhar", parafraseando. No caso deste romance, é a fome. A fome, o "gravar a sua voz" e, a dada altura, "as margens do rio". Se lesse mais uma vez "Baden-Baden"... A dada altura o discurso tornou-se repetido até ao expoente da loucura, talvez para entendermos como a personagem principal está entediada, como tem a cabeça noutro lado (nos talos, nos nabos, nos piolhos e nos percevejos).
Pareceu-me estar de novo no centro do furacão daquilo que me parece uma tendência muito forte nos autores lusófonos. . Achei o discurso corrido difícil de acompanhar às vezes, e devo ter precisado de talvez 2/3 do romance para me ambientar a ele, para começar a distinguir nomes, personagens, temporalidade, ritmo.
Ainda assim, e acima de tudo, é um romance que envolve, que nos arrasta para a Frente. Que nos faz questionar o que nos mantém sãos, o que conseguiríamos suportar; as intempéries estão ali todas, a testar-nos a sensibilidade. Mais importante ainda: recorda-nos a heroica resistência dos portugueses em circunstâncias ignóbeis, numa guerra que nunca foi para ser nossa.
Ironically, this novel tells the hardships of war and facts related to that, surprisingly and most funnily. I don't have much more to say. The silence determines it.
Terceiro livro,terceira obra prima. É tão curto e sintético quanto isto.
Impar capacidade de despir a humanidade de presunções, olha-la com clareza,e, em todas as arestas da sua existência, mostrar a sua sedutora imperfeição. Inteligência absoluta ao serviço de um autor que se revela tao estimável como a sua obra.
Decididamente, gosto dos livros do João Reis, embora o meu preferido continue a ser A Noiva do Tradutor. Gosto sobretudo da escrita, sem artifícios, mas ao mesmo tempo elaborada (sei que isto soa um bocado contraditório, mas é mesmo assim).
Acho-lhe um talento particular para descrever a evolução do estado de espírito das personagens, o fio dos pensamentos, à medida que vão abandonando a sequência lógica inicial, para se irem, pouco a pouco, enredando, até acabarem no absurdo. Por fim, gosto da maneira como consegue escrever sobre temas trágicos (neste caso, a guerra) introduzindo toques de humor e sarcasmo, na dose devida.
“Palavras para quê? Boca fechada, sem me comprometer. Aperfeiçoar o silêncio…”
Vou vos confidenciar o que aconteceu no final desta leitura: regressei à primeira página e reli.
Verdade. Ler este livro é partir à descoberta: interpretar as mensagens por detrás das palavras. Não podia deixar ao acaso, deixar de desvendar tudo o que João Reis quis dizer.
Magnífico!
Não queria defraudar o autor, mas falta-me a sua mestria, a arte que tão bem domina: de forma sucinta dizer tanto. Este livro é como um bolo em camadas, há que descobrir e saboreá-las todas.
Original! Incisivo, conciso. Frases longas e intrincadas. Um humor subtil absolutamente pertinente e necessário para colmatar a angústia que nos vai sufocando perante tanta miséria, física e de espírito. Hilariante e macabro. Inteligente e sensível. Sem excessos de palavras, para não incorrer na “devastação do silêncio”. Um título perfeito!
“… que tínhamos o Fisga e eu a ver com aquilo? Nada! Não se podia fazer uma pergunta simples sem se incorrer no risco de ouvir uma parafernália de deduções, uma algaraviada… As conversas, as perguntas que incitam respostas, as palavras desnecessárias…”
Sim, porque o que não nos falta por aí é quem muito fale e pouco ou nada diga.
Dizia-me há tempos, caríssimo João Reis que o seu género literário não vende por cá (como seria merecido, digo eu e tantos outros fãs seus), mas por favor faça-nos o obséquio de não desistir e de lutar contra este país de tão poucos leitores e de nos presentear com estes mimos.
Despeço-me com mais uma citação poderosa: ”Um dia, pagaremos pelo que fazemos aos animais, disse eu ao meu amigo, chegará o dia em que seremos confrontados com o que fazemos aos animais, asseverei-lhe, no futuro, teremos de viver com o que fazemos aos animais e à natureza, disse eu ao meu amigo. As pessoas descartam-se das suas responsabilidades e um dia não o poderão fazer, garanti-lhe, hoje em dia, há pessoas que não aceitam as suas responsabilidades com a natureza, no entanto, um dia serão confrontadas com elas, para mim uma pessoa que tenha um elevado sentido de arte não vale nada se não respeitar a natureza, comentei eu, uma pessoa que desrespeite a natureza jamais merecerá a minha simpatia, mesmo que tenha um enorme sentido de arte e da cultura, que são tidos por muitos como o maior feito da Humanidade, por mais que alguém mostre quadros, livros ou esculturas, que são considerados as maiores façanhas do homem, nunca sentirei por si a menor estima se não respeitar a natureza e aceitar as suas responsabilidades, afiancei-lhe.”
Review A Devastação do Silêncio, de João Reis 14/2021
O tom sarcástico ao longo destas páginas, que passam demasiado rápidas, é tão refinado e na dose certa, que é difícil colocar em palavras. Enquanto pessoa cuja segunda língua é o sarcasmo, fiquei até com uma lagriminha ao canto do olho ao lê-lo.
Sou apologista da ideia de que só vale a pena brincar com coisas sérias. As desventuras bizarras deste capitão do Corpo Expedicionário Português, sem provas da sua patente, num campo alemão de prisioneiros não-oficiais, durante a Primeira Guerra Mundial, é algo de que só este autor, de uma criatividade e conhecimento histórico impressionantes, se lembraria.
É um livro onde damos, inevitavelmente, importância redobrada ao silêncio. À necessidade dele no meio de tanto caos, num ambiente tudo menos silencioso, apesar de o silêncio quase se tornar sinónimo de perigo e morte, daquilo que fica depois do ruído da destruição. Daí a Devastação que ele representa.
“...Aquela guerra era um desfiar de atentados contra o silêncio, armas e explosivos, gritos e palavras que nos feriam”.
E o Fisga, coitado, de “discernimento não muito acutilante” e, no entanto, talvez o mais clarividente, minha personagem favorita deste terror de Babel...“-Meu capitão, força, meu capitão.”
O João Reis é daqueles autores que ganhou não só a minha profunda admiração mas, também, a minha fidelidade. É, sem dúvida, uma das maiores revelações deste ano para esta humilde leitora.
E o facto de conseguir a qualidade que tem na escrita, e em livros tão diferentes uns dos outros, faz dele um autor de façanha difícil de equiparar. Coisa rara na literatura portuguesa.
Até agora, não consegui encontrar uma palavra ou frase supérfluas nos livros do João. E, apesar de, sendo absolutamente franca, o único problema deste livro ser acabar, reconheço que ele não podia ser tão bom se não acabasse quando acaba.
Obrigada novamente, @joaoreis.author. Um livro destes não é fácil de encontrar.
🎼 Como música para acompanhar esta Devastação do Silêncio, de João Reis, sugiro playlist criada por mim “A Devastação do Silêncio”, no @spotify. Deixo-vos o link: https://open.spotify.com/playlist/2Jy...
The Devastation of Silence - the third novel by Portuguese author João Reis to be translated in English (The Translator's Bride was the first and Bedraggling Grandma with Russian Snow the second. I posted reviews for both these fine works).
In the spirit of Guy de Maupassant and Honoré de Balzac, with Devastation we're give a good old-fashioned frame tale where the narrator sits at a café and speaks to his friend of his time back when he was a prisoner in a German POW camp during WWI.
João Reis shares an affinity with Austrian author Thomas Bernhard in his way of constructing and fashioning longer sentences. So as to share a taste for the author's writing style and zero in on several of the novel's themes and highlights, I'll link my comments with author snips -
"I found this encounter to be deeply unpleasant, equal parts boredom and discomfort, although, if I'm being honest, I consider all social engagements to be, speaking is a lamentable act and pointless, I find social interactions deeply taxing..."
Here the narrator anticipates speaking with his friend at the café. There's little question, judging by the narrator's words, he's deeply skeptical about the value of language and all attempts to communicate. We are well to keep this in mind as we listen to his relaying various experiences back when he was a WWI POW.
"...my greatest fault is that I'm a good listener, others speak and I listen, they open their mouths and a steady stream of babble washes over me, I'm a receptacle, attentive, a victim, they talk talk talk and only require my ears..."
There's a good bit of possible irony here. What to do if words and language contain minimal value? Perhaps the narrator understands the best thing is simply to remain silent, to turn himself into a receptacle, an ear, for other people's chatter. After all, what people think and feel can be expressed via the way they hold their body, their movements and gestures, their body's vibe. And the more we listen to the narrator's tale of being a Portuguese army captain captured by Germans and, as he's without any official document stating his rank, reduced to just another POW with prisoners from England, France and Russia, the more we can appreciate the depth of his insights regarding language (and silence) in relation to truth.
Like all novelists, João Reis uses his characters' spoken language as dialogue within the context of his unfolding plot. Words might be devoid of depth and meaning in everyday conversation but when they are used in a novel, those same words can be elevated to the level of art by a creative author. Thus we are well to be attentive to the various levels of language, the dynamics of life and literature, as we read about the narrator's recounting conversations and interactions when in the POW camp.
"At the end of the day one expects a bit more from a captain, from a military officer of rank, yet I turned my back and abstained from speaking because it is my belief that silence is invariably the best option, I have found that there is no better response to any and all problems that not speaking."
So the narrator concluded while a prisoner dealing with near starvation, bedbugs, lice, the sickness and death of his fellow inmates along with the nightmare of wartime bureaucracy but when with his friend at the café, over coffee, his skepticism notwithstanding, he's more than happy to speak at length, which is a good thing. For as psychologist Rollo May states, "Communication leads to community, that is, to understanding, intimacy and mutual valuing."
"I concluded it was in our nature, that men are men because they can kill with pleasure or indifference, that man is nothing more than a violent monkey whenever he finds himself free from the binds of society, which is why crowds are so dangerous they'll string you up without batting an eye, those soldiers were the masses, war is waged by the masses that desire our elimination, each face in the crowd belongs to an assassin..."
Again, these are the reflection of the narrator in his role as captain and then as prisoner during a World War. However, his current life offers a different, even a transformed, perspective. And we as readers can follow the narrator's thinking and feeling as we turn the pages. How does the nature of life and our judgements of the past change as we grow older? By asking this and a number of other philosophic questions, The Devastation of Silence addresses the major themes of literature - Love and Death, Eros and Thanatos - in various forms and stages, all contained within a splendid work of literature. I highly recommend João Reis' book. And a special thanks to Open Letter for making this work available to English readers and Adrian Minckley for his clear, fluid translation.
Portuguese author and literary translator João Reis, born 1985
Um relato satírico, com enquadramento histórico na primeira Grande Guerra, e que tem como protagonista um oficial do Corpo Expedicionário Português, que vai parar a um campo de prisioneiros alemão, sem as prerrogativas que a sua patente lhe proporcionaria, uma vez que os documentos que a comprovam lhe foram roubados.
O autor utiliza e doseia, de forma muito inteligente, a sátira, o humor negro e até a algum absurdo, para expor e enfatizar alguns absurdos e irracionalidades vividos em situações de guerra. Neste ponto fez-me lembrar um pouco Catch-22, na forma como, fazendo-nos rir, aborda situações à partida sérias e até dramáticas. Uma excelente leitura.
Nesta obra, João Reis continua a não desapontar o leitor. A escrita inteligentíssima, com um humor bastante refinado e sarcástico, que deixa o leitor, ora a chorar de rir pelo absurdo da situação, ora reflexivo, a questionar-se sobre as agruras da guerra.
Cheguei a questionar-me se para o bem da evolução da humanidade valeu/valerá a pena tanto sofrimento? Nunca o saberemos concretamente, mas sabemos, porque da guerra ficou inúmeros relatos, estudos e investigações de como funciona a mente humana: o medo, a raiva, o ódio, emoções estas, tantas vezes retratadas em livros autobiográficos.
Curiosamente, João Reis não enveredou por este caminho, também não imprimiu no livro uma posição do politicamente correto, nem de direita nem de esquerda, e fez muito bem.
A Devastação do silêncio dá-nos conta da vivência e convivência de um oficial Português que, sem documentos que comprovem a sua patente, foi “internado” num campo de prisioneiros para praças.
O nosso Capitão conta a um amigo as sua passagem pelo campo, daí se desenrolam todas as histórias. Mas há duas componentes comuns em todos os acontecimentos, ou seja, em todas as pequenas histórias que o Capitão vai contando, duas coisas marcam presença, uma é a FOME, a outra o SILÊNCIO.
É uma história ficcional com uma pitada de humor, mas com um fundo de verdade, combater a fome e silenciar as armas.
Mais um vez João Reis está de parabéns, aguardemos o próximo livro que, oxalá chegue em breve.
A Prudent Reader of João Reis or The Silent Invasion of Portugal
I started reading The Devastation of Silence by João Reis as I was quietly waiting for the barbarians—i.e., for the homonymous book of Coetzee—to arrive at my small-town library somewhere in Denmark. The library app showed me that I was the second person in the queue (kø), waiting for the barbarians; there was still one person in front of me (en foran mig)—some distant, unidentifiable person also waiting for the barbarians somewhere else in Denmark. This other reader could be anywhere; the interlibrary system here is a very efficient network, well spread between all libraries of the country. There is a constant traffic of books from one library to another: one orders these books online, as many as one wants, then picks them up at the local library upon notification and can then read them at ease, for up to four months, at one's home, for example, or some other place, someplace cosy (hygge), in this cold (kold) country.
There is no word for "hot" in Danish, and probably neither in Norwegian and Swedish; there is only the word "varm." The weather or anything else here can get warm (varm), very warm (meget varm), or even too warm (for varm), but never hot. While considering these poor gradations of warmth, I have already resigned myself to the thought that the other person in front of me (foran mig) and instead of me will soon be quietly invaded by the barbarians at his or her nearest library. The Danish word for immigrant is actually "indvandrer". And I’m also an invader of Denmark—already for 10 years now—all this time labouring in the factories of the land and reading mostly from the library because I’m not only an invandrer, but also a cheap-reader, a billiglæser, hardly ever affording to buy even paperbacks, and thus reading what I can get for nothing (gratis), or, more precisely, for the taxes I pay with my work in the factories, always waiting for more free books to arrive from the big libraries of this country to my small-town library.
These books pile up at home, in my small house, and I read them as fast or as slowly as it gets, but as many as I can, before I have to give them back to the library. Books in both barbaric and civilised languages that I learned here, not only using my eyes, hands, and mouth but also my ears, working at production lines with headphones on my head, constantly listening to foreign audiobooks while working. Giving up waiting for the barbarians, I simply picked up The Devastation of Silence by João Reis. But he’s also a barbarian! Not a Romanian like me, though—not to that extent—a Portuguese, from the opposite outskirts of the old Roman Empire.
I started reading his book, and I could immediately identify myself with the character that appears in the first paragraph—actually, the only thing I read before I already started writing about my reading experience. The character is described as being “prudent”; he always buys two tickets for the train, a train that he takes alone, he buys two tickets just in case he might lose one. I didn’t buy, but merely borrowed, two books by João Reis, the only ones available at the library. The first book was The Translator’s Bride, which I also reviewed in a rush, like this one. I found The Translator’s Bride to be a tricky parody-homage of Hunger by Knut Hamsun, a Norwegian bastard, a traitor of his country, and a foe to barbarians, but nevertheless a good writer, whom the prestidigitator João Reis—not only a writer but also a prolific translator—brought into Portuguese along with so many other Scandinavian blondes. I have also read some of these northern authors, but Knut Hamsun, for better or worse, is still the best one of them; I know some of his books by heart, but don’t hold him close to my heart, not like I do João, who was so kind to actually thank me for the review I wrote about The Translator’s Bride and with whom I could otherwise discuss on several other online occasions provided by Goodreads, via lengthy comments.
My own comments were lengthy, as you might have guessed; his—shorter but very considerate. And maybe he will also generously react to this review. I’m, of course, not asking for it; I’m only saying. I was prudent enough to take two books by João Reis from the library a couple of months ago. The first, I read and reviewed right away, as mentioned above. Then I read many other books by many other authors, good and bad, before I tackled this other one by Reis—the second for me, his prudent reader—and it’s already going very well. I can see immediately that this is a more mature work than The Translator’s Bride, more sober. I already gave it five stars after reading only the first few pages, and will now, since I had my say, read it to the end. I’m pretty sure I won’t subtract any stars from the rating after finishing the book. I will probably even rate it again five stars so that my review will be refreshed and appear once more on your Goodreads feed; thus it will get even more likes and it will, hopefully—most importantly—get João more of the readers he deserves, the ones that are not yet knowing what they were waiting for.
One fine day I might even read a book of João Reis in Portuguese, if some would be procured by the Danish libraries and made available to me for free. Or, if not, I will personally scrounge up some euros to buy one. I’ll slog my way through it because my Portuguese, a language that I never learned, is entirely derived from the other (so-called vulgar, Neo-) Latin languages that I also know without learning; I somehow acquired them, mostly by reading. I only have an intuition of Portuguese, which is a marginal Romance language; Romanian is at the other margin of the long-fallen Roman Empire. To reach the language of João Reis, I will have first made my way to Italian (after prudently sneaking through the lands of Huns and Slavs that settled between Romania and Rome) and leaving the Italian language behind, I will not be—I am not—afraid of crossing the German(s), because I always have Bernhard at my side, Thomas Bernhard, also a traitor of his land and a foe to barbarians, though in a radically different sense than Hamsun; with Bernhard, though lung-sick, I can even pass over the Alps, then the Jura Mountains and I will have already reached the fine French, then the swift Spanish, and, skimming the arid, quixotic hills of La Mancha, I’ll have João Reis at long last cornered in his own land, at the periphery or, granted, at “the head of all Europe” (a capeça de Europa toda), with only the ocean at his back, there “where the earth ends and the sea begins” (onde a terra se acaba e o mar começa).
And finally, I’ll read him in his language—though that’s rather improperly put, since he’s also a polyglot, holding the great majority of civilised and barbaric European languages in his grip—but you know what I mean, in his so-called native, his first language, and since I have set myself the challenge to always review books in the same language I read them in, no matter what and despite all difficulties of expressing myself in them, when I’ll ultimately reach João’s Cadernos da Água, I’ll slowly sip to the bottom those so-called Notebooks of Water, acquiring some Portuguese in the process, but because of my still-scarce knowledge of it, I’ll probably restrict my review of that book to the exclamatory eloquence of just one word—a superlative, something like “Legal!”, though that word is perhaps more Brazilian than European Portuguese, and it doesn’t mean what you might think. But it will be a triumph.
O que pode um homem fazer para suportar o absurdo da existência? Preso ao avesso do mundo, «contrafeito» e contra a corrente, o protagonista avança através de uma paisagem onde tudo está fora da ordem que o espírito lhe dita, onde o som ocupa o lugar do silêncio e o silêncio o lugar do som (que som será esse?). Resta o humor para o desconcerto (foi Wittgenstein quem disse que só o humor toca nas questões verdadeiramente importantes?). Neste itinerário de um proscrito — por defeito, acaso ou opção —, sobra (e não é coisa pouca) a proposta de embarcar em fina ironia na inevitabilidade de se estar onde não se pertence, fazendo pouco do desespero às mãos da astúcia e do sarcasmo. Riamo-nos pois, como se em pleno debate entre Cossery e Bernhard. A Devastação do Silêncio dá à literatura aquilo que ela merece: a coragem e a honestidade de se fazer por si mesma e em si mesma, indiferente a seduções estéticas e aos logros do tempo. Eis, pois, o que faz de João Reis um autor verdadeiramente universal, que muito aprecio, considero e estimo, e que está muito para lá deste burgo que não levanta os olhos do próprio umbigo com medo e inveja de perceber a extensão do horizonte. Mas João Reis conhece esse horizonte. E olha-o de frente.
Fui transportada para um campo de prisioneiros alemão da Grande Guerra e senti a importância que podem ter duas palavras aparentemente simples: fome e silêncio. Imaginei, muitas vezes ao longo do livro, os dias de inferno vividos pelo meu bisavô Joel Rodrigues e pelos outros soldados do Corpo Expedicionário Português nos campos de prisioneiros de guerra. O horror não esteve só presente no campo de batalha e nas trincheiras, o horror continuou a fazer parte da vida daqueles que sobreviveram à Batalha de La Lys. Que o passado nunca seja esquecido e que os bravos soldados sejam sempre homenageados!
Viver num campo de prisioneiros, durante a Grande Guerra , é enfrentar outra batalha com várias frentes. Tenta-se vencer a indignidade, a humilhação, a fome e outras privações com astúcia , contenção e uma grande dose de humor.
Em plena guerra das trincheiras, num campo de prisioneiros, quando a desordem dá tréguas o silêncio surge, trazendo a ilusão da simplicidade e tranquilidade. São breves estes momentos que permitem ouvir o trinar de um pássaro, que quase ninguém ouve.
Num campo de prisioneiros, em plena GG, travam-se lutas internas de palavras e privilégios, e outras tantas interiores contra a pestilência, a fraqueza e a doença. Caem projéteis. Matam-se piolhos. Ecoam berros. Atiram-se provocações. Persegue-se comida. Evadem-se projetos. Explode o ruído e sucumbe o silêncio. Nunca teremos paz?
De entre os três livros publicados do João Reis, é neste que ele melhor se revela. Não é uma história; é um modo de olhar para as situações e de estar nelas, e isso deverá importar e interessar muito mais. Não é um exercício de revelação das personagens ou dos seus universos escondidos; é o por-nos as pessoas à frente, como elas são, desassombradamente. E elas aparecem, cheias de fraquezas, de imperfeições, de piolhos, mas também de ironias, compaixão, pequenas expectativas. O João Reis escreve de uma forma tão clara, tão incisiva, cheia de um humor negro que faz redobrar a seriedade do que é escrito. É neste livro que isso se revela, a mim, de forma mais evidente.
I never read Portuguese novels and now two in one month (the other one was Empty Wardrobes). Both very good!
The Devastation of Silence is an absurd and comic novella set during the First World War. I thought Portugal was neutral, but apparently they joined the Allied forces on the Western front halfway through the war.
This is the story of a Portuguese Captain who has been captured by the Germans and held in a POW-camp. He has lost all his identification papers and keeps trying to be transferred to an officers camp where conditions are better. All the while everybody keeps chatting at the captain; an endless stream of chatter driving him crazy as he longs for silence and birdsong.
It reminded me of Catch-22 but also of the smart and fun little novels of Mark Haber.
Neste terceiro livro João Reis volta ao melhor do que nos tinha dado no primeiro, a escrita curta, direta, incisiva, sem rodeios nem floreados, capaz de imprimir um ritmo próprio e assim marcar o universo ficcional e dar conta da sua marca autoral. Depois do universo de um tradutor numa realidade paralela, depois de um neto em busca da esperança da sua avó, no seio de uma família russa no Canadá, agora temos militares portugueses na frente de combate, prisioneiros de guerra, da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Tanto o primeiro como este terceiro livros se destacam pela forma, no conteúdo o seu segundo livro continua o mais elaborado, pela teia de personagens e complexidades que os envolvem e produzem interação. Neste terceiro, voltamos ao tom de humor do primeiro, mas ainda mais sarcástico, no entanto tenho de confessar que raramente se aproximou da acuidade do nível conseguido no primeiro livro. Claro que a isto não será alheio o facto de existirem já várias obras muito conseguidas a trabalhar a guerra a partir da sátira, nomeadamente “Cama de Gato” (1963) de Kurt Vonnegut ou “Catch-22” (1961) de Joseph Heller. Sendo eu fã do primeiro, e morrendo pouco de amores pelo segundo, que por sinal me parece ter servido de pauta a João Reis, resta-me pouco para dizer, já que repetiria os argumentos feitos a propósito da obra de Heller.
Todos sofrem à sua maneira, mas dizem que há sofrimentos maiores do que outros... Um livro divertidíssimo e ao mesmo tempo psicologicamente profundo, com uma construção narrativa fenomenal. Já esperava humor negro tendo em vista o outro livro que li de Reis, mas neste livro terá atingido um cinismo sublime na sua visão que mistura asco com ternura pela humanidade. Não conheço obra portuguesa sobre a Primeira Guerra como esta, e é lamentável que não pareça ser muito conhecida. (Curiosamente, segundo pesquisei, alguns dos factos do livro que parecem irreais foram na verdade reais.)
Ponto alto: a digressão do oficial inglês que perde as pernas e a vida para tirar a limpo o roubo das galinhas.
A Devastação do Silêncio marca a minha segunda incursão pela obra de João Reis, sucedendo a uma leitura extraordinária, o magnífico Avó e a Neve Russa. Com um domínio excecional sobre a língua portuguesa, Reis conquista pelas palavras sempre certeiras e insuspeitas e a narrativa que, destafeita, decorre num campo de prisioneiros alemão, durante a Primeira Guerra Mundial. É aqui que o narrador, um capitão do Corpo Expedicionário Português, se arrasta sem poder aceder a um conjunto de privilégios que lhe seriam devidos, se munido dos documentos que comprovam a sua patente.
No campo, a miséria, a fome e a doença provocam um ruído ensurdecedor. Já diz o ditado "casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão". Os prisioneiros lutam entre si, reclamam, gemem com dores, berram e lamentam a sua frágil condição. O quadro fica completo com os sons de guerra que nunca cessam. E tudo o que o narrador quer é silêncio. Sabemos que ele sobrevive porque, anos mais tarde, alguém lhe pergunta se é verdade que os alemães pediram para lhe gravar a voz. Para quê?
Lido A Devastação do Silêncio, posso afiançar que João Reis é, para mim, uma das grandes vozes contemporâneas da literatura nacional. O seu estilo é inconfundível. Cru, cáustico e poético. O capitão que procura silêncio no meio da guerra é uma premissa deliciosa à qual o Autor atribui plena realização. Um belíssimo romance que conquista pelo narrador empático, originalidade e riqueza vocabular. Se não for por mais nada, que seja pela escrita que, no caso de João Reis, é belíssima.
I really enjoyed this smartly constructed satirical romp full of pathos and dark humor, written by João Reis and translated from Portuguese by Adrian Minckley. Via a nested narrative structure, we follow a captain in the Portuguese Expeditionary Corps who, because he has no papers proving his rank, is relegated to grotesque conditions in a German POW camp during WWI. The reader is privy to his observations on his grim situation, his fellow POW's, war in general, and life itself.
The prose style is unique: lots of long run-on sentences with the clauses strung together by commas. Normally this style is hit-or-miss with me, but there is such a compelling rhythm to it here that it suited the mostly interior material wonderfully.
Ao terceiro romance, "A Devastação do Silêncio", João Reis, autor e tradutor literário, troca-nos as voltas. Se no seu romance anterior, "A Avó e a Neve Russa", também editado pela Elsinore, o cenário era um que seria expectável para um especialista em línguas nórdicas, neste novo livro o ambiente apresentado é, inesperadamente, um bem diferente: decorre na Primeira Guerra Mundial, e nem aí se circunscreve a lugares óbvios.
Narrado por um capitão do Corpo Expedicionário Português, "A Devastação do Silêncio" decorre num campo de prisioneiros alemão, onde este narrador se encontra sem as prerrogativas que a sua patente lhe proporcionaria, já que não tem os documentos que a comprovem, sendo, portanto, obrigado a manter-se entre os seus conterrâneos mais pobres e desgraçados.
No campo as condições são miseráveis, o tempo passa, a fome persiste, travam-se lutas internas entre os homens e outras tantas contra a doença e a fraqueza, tal como a fome persistem a guerra, os piolhos, as provocações, os berros, os projécteis, os aviões. Ecoa o ruído e o silêncio persiste em fugir, e tudo o que o capitão deseja é que se prolonguem os poucos segundos em que é finalmente possível ouvir o trinar dos pássaros, quando a desordem dá tréguas e traz a ilusão da simplicidade e tranquilidade.
Sabemos, apesar de tudo, que o narrador sobreviveu para contar a história, já que nos relata esta história a partir de um futuro temporalmente indeterminado, onde, conversando na mesa de um café de uma estação de comboios, um amigo lhe pede que conte a história de como a sua voz foi gravada por um grupo de cientistas alemães. Mas, tal como o próprio livro de João Reis, aquilo que o narrador procura contar ao seu amigo é não apenas essa história, mas também a sua vida no campo, como, nessa constante busca pelo silêncio, o capitão se movimenta pelo campo como um moribundo veraneante, tentando de qualquer maneira vencer a sua indignidade, a humilhação, e sobretudo a fome, dificílima de suportar, e como, enquanto tenta lidar com ela e com a conversa e os ruídos incessantes que parecem rodeá-lo, vai conseguindo observar e recordar.
A ideia, no entanto, está longe de ser apenas expor e enfatizar alguns absurdos e irracionalidades vividos em situações de guerra, até porque a própria postura dos dois, no café, enquanto o capitão relata a sua história ao seu amigo, é também francamente absurda, por contraste. Acumulam-se as chávenas de chás diferentes que, por não serem bebidos, vão ficando frios, enquanto se espera o final da história e a partida de um comboio, tudo enquanto o narrador prossegue a sua história, o seu amigo ironicamente absorto numa história de tragédia e despojamento. Nem mesmo passada a guerra ganha direito ao silêncio que deseja.
De todo esse ruído constante, o que fica é, acima de tudo, uma escrita que, conquanto seja elíptica, se mantém firme e fluída. João Reis traz-nos, nas suas frases longas e intrincadas, precisamente aquilo que é necessário e não mais, não temos adornos supérfluos para uma guerra que atinge também os nossos ouvidos. Acima de tudo, nota-se o seu controlo exímio sobre a frase, a plena noção dos tempos que tem de ocupar, e, acima de tudo, o confirmar de uma voz que finalmente revela todo o seu potencial. Fica a expectativa de qual será o próximo coelho que João Reis tirará da cartola.
O “humor sarcástico e subtil” do autor anunciado na capa cumpre-se na leitura. A narrativa de um ex-soldado português acerca do tempo passado num campo de prisioneiros alemão durante a 1ª Guerra Mundial trouxe-me, amiúde, de um modo algo paradoxal, uma sensação de ar puro e brisa fresca. O absurdo, quando é bem escrito, é uma ferramenta poderosa. Em termos formais, senti uma breve dificuldade perante o estilo da escrita. Todavia, os raros pontos finais, as reticências no meio do discurso e as constantes adjetivações impuseram-se rapidamente, conseguindo o autor que essa simulação de oralidade do protagonista se tornasse natural para a minha leitura. No fundo, é disto que o talento é feito, assim como também de um trabalho impecável sobre a linguagem, em particular na utilização de adjetivos e substantivos da época, quando foram entretanto substituídos contemporaneamente por outros. Um belo texto num belo livro, acompanhado de algumas ilustrações decorativas, bem construído, de ritmo certo e equilibrado, entre os dois períodos em que decorre a sua narrativa, com um cuidado exemplar. Um dos livros de arquitetura mais inteligente que li este ano.
O que nos move? Os grandes ideais? Ou simplesmente a vontade de sobreviver? E sermos nós? Ser português é adiar coisas: o envio de uma carta, a entrega de um embrulho. É ter fome e falar de comida. É ter piolhos e habituar-se a eles. É ir para uma guerra com espingardas que encravam. "A devastação do silêncio" aborda a presença portuguesa na primeira guerra mundial, mas sem qualquer consideração política ou histórica. O que importa ali são as pessoas, o caricato do nosso quotidiano, mesmo que esse quotidiano esteja virado de pernas para o ar. Aliás, diria que este é um conto satírico do absurdo, não apenas do absurdo que é a guerra mas também porque o livro está repleto de situações absurdas e sarcásticas. Terceiro livro que leio do autor. Será sempre um mistério para mim como é que um autor consegue escrever assim tão bem e de forma tão simples. 4,5
Belíssima escrita que prende o leitor na expectativa de que algo vai acontecer. Prende o leitor e prende o "amigo" a quem conta história. Curioso é o facto de parecer que é um relato escrito por alguém que viveu há cem anos mas que, na verdade, é bem jovem. Mais uma boa história de João Reis.
Primeiro livro que li do Autor, é que Maravilhosa leitura. E como é importante o Silêncio, como é importante ouvir, ouvir o silêncio nas palavras 😊 Que viagem incrível desta devastação 🍀
Mais uma pequena grande obra. Desta feita mais polida, mais crua, mais forte. O João Reis mostra-nos uma realidade que raras vezes é alvo de aventuras literárias e sobre a qual pouco há na língua portuguesa. Naturalmente fá-lo com uma mestria que só surpreende quem nunca o leu. Que o silêncio se mantenha nos títulos, porque a voz do João é certamente das que mais merece ser ouvida no panorama literário português.