# nonfictionnovember
Nunca mais, nunca mais, a minha Mãe. Estamos ambos sós, tu na terra, eu no meu quarto. Eu, um pouco morto entre os vivos, tu, um pouco viva entre os mortos.
De todas os livros sobre mães que já li, e já lá vão alguns, este foi o de que menos gostei. De facto, não gostei mesmo nada, mas como só cada um pode saber dos seus sentimentos e da sua dor, tentarei conter-me nas manifestações de desprazer. No início do século XX, quando Albert Cohen ainda era pequeno, os seus pais, judeus gregos, emigraram para Marselha, onde não conheciam ninguém. Como o pai trabalhava fora de casa e o filho estudava, a mãe passava o dia sozinha, ansiosa pela chegada dos dois.
Sentada debaixo do meu retrato aos 15 anos e que era o seu altar (…) a minha mãe respirava com uma respiração satisfeita mas um pouco patética porque eles estavam a chegar, os seus dois homens, as luzes da sua vida. Ah! Como se sentia contente por eles irem achar a casa tão asseada e luxuosa nesse sábado, por lhe irem elogiar a resplandecente arrumação da casa.
Quando o autor foi estudar para a Suíça, a mãe continuou a devotar-lhe a mesma adoração, aguardando as suas cartas e antecipando as viagens para ir visitá-lo como único propósito na vida, numa anulação total para lá do papel de mãe.
Nunca mais me tratará, ela, a única. A única que nunca, nunca perderia a paciência nem que a minha doença durasse 20 anos e eu fosse o mais insuportável dos doentes. (…) Todas as outras mulheres têm o seu precioso euzinho autónomo, a sua vida, a sua sede de felicidade pessoal, o seu sono que têm de proteger e ai de quem o perturba. A minha mãe não tinha um eu, mas um filho.
Quando os alemães ocuparam França durante a Segunda Guerra, Cohen encontrava-se em Londres, a trabalhar numa organização que ajudava judeus a fugir para a Palestina, mas a mãe permaneceu, por razões inexplicadas, em França. Em 1943, Cohen recebeu a notícia da sua morte pelo Exército de Salvação e, não podendo ir enterrá-la, viveu o seu luto escrevendo uma série de ensaios num jornal francês, os quais foram posteriormente reunidos e deram origem a este livro.
É uma obra fúnebre num tom demasiado melodramático, cheia de interjeições e, em simultâneo, uma hagiografia repleta de pleonasmos, numa linguagem tão sentimental e empolada que roça frequentemente o tétrico e o ridículo.
E vós, oh pálpebras cerradas, ainda estais intactas? E tu, oh mãe tão branca e amarela que, num fechar de olhos me atrevo a ver na tua caixa apodrecida, oh minha magra e abandonada, tu que tanto te agitavas e ao meu encontro sempre acorrias, tu, tão sombria agora e tão lacónica na tua terrosa melancolia, deitada nesse negro silêncio do sepulcro, nesse pesado húmido silêncio de terra de sepulcro, diz-me, oh tu que me amavas, aí no teu sepulcro ainda pensas às vezes no teu filho.
Há algo de edipiano nesta relação demasiado umbilical em que o autor expia uma culpa que parece ocultar algo mais do que as simples insolências e faltas de consideração de adolescente, que ele confessa como grandes pecados imperdoáveis já à beira dos 50 anos, quando se espera uma maior maturidade.
Na verdade, nenhum filho sabe que a sua mãe morrerá e todos os filhos se zangam e perdem a paciência com as suas mães, loucos cujo castigo não tarda.
Como mãe de dois rapazes, acho este nível de adoração a um filho sufocante e pernicioso, pelo que não me espanta que, quando escreveu estes textos, Albert Cohen estivesse prestes a casar-se pela terceira vez. Que mulher poderia estar à altura deste menino da mamã?
Chorar a mãe é chorar a infância. O homem quer a sua infância, quer reavê-la e se, à medida que avança nos anos, cada vez gosta mais da mãe, é porque a sua mãe é a sua infância. Fui criança, já não o sou e não me conformo com isso.