Diários do Exílio, edição portuguesa das Edições do Saguão, Setembro 2022
17 de Novembro
Acendemos um lume com ramos secos,
aquecemos água, tomámos banho nus
ao ar livre. Fazia vento. Tivemos frio. Rimo-nos.
Talvez não fosse de frio. Mais tarde
ficou uma amargura. De certeza que os meus gatos,
do lado de fora da casa trancada, vão subir às janelas,
arranhar as portadas. E não seres capaz
de lhes escrever uma ou duas palavras para lhes explicar,
para que não julguem que os esqueceste. Não seres capaz.
- Diário do Exílio I
Quem pensa nas ilhas gregas, suspira decerto por férias em terreolas pitorescas e praias divinais, e não as associa a locais de encarceramento e repressão. O poeta Yannis Ritsos, porém, conheceu o lado lúgubre do mar Egeu, onde passou cerca de quatro anos, entre 1948 e 1952, em campos de reeducação pelos seus ideais comunistas.
São três os diários escritos neste exílio, mas foi o primeiro que me impressionou particularmente pelo seu registo mais diarístico do que poético, enquanto nas duas outras a poesia se sobrepõe ao relato diário.
5 de Dezembro
Rapaz com a barba por fazer, desgrenhado, banho por tomar
na chamada da manhã com nuvens por companhia
camisola grená calças desabotoadas
ainda ensonado – um pedaço do sono a desfazer-se no cabelo
uma canção amarga no bolso
vou pentear-te, vou lavar-te, vou-te apertar o cinto
vou reaver todas as palavras que me tiraram
as palavras que ninguém me sabe dar
as palavras que não posso pedir
- Diário do Exílio II
Não tenho pretensões de imaginar sequer o que é viver em cativeiro ou em isolamento, mas sinto que apesar da morte, da tortura e das condições sub-humanas destes campos de prisioneiros, a alma pode resistir pela escrita confessional, pelo companheirismo e pela beleza das coisas simples, como já vi acontecer no caso de Etty Hillesum anos antes, noutro extremo da Europa, e agora com Yannis Ritsos.
24 de Maio
Escrevemos testamentos tão bonitos
nunca abertos
nunca lidos por ninguém
porque não chegámos a morrer.
Dissemos coisas
que só se dizem uma vez
Demos coisas
que só se dão uma vez.
Grandes palavras
tão simples
como as colheres nas sacolas
dos que foram mortos.
Vimos a eternidade
reflectida de corpo inteiro
nos óculos do míope
que mataram há dois meses.
E agora, repara.
como é já não conseguires pronunciar
“n ó s”
sem baixares os olhos
sem corares.
- Diário de Exílio III
[Em havendo próxima edição, e espero que sim, ela beneficiaria bastante com uma passagem pelo spelling]