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As Doenças do Brasil

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A "fera branca" quase exterminou os povos originários do Brasil. Ao longo de séculos, os brancos mataram aqueles que não podiam escravizar. A dada altura, em fuga, muitos negros encontraram ao acaso os povos de peles vermelhas e tantas vezes o entendimento e a paz aconteceram.

Valter Hugo Mãe cria para a Literatura actual duas figuras inesquecíveis: Honra e Meio da Noite, rapazes peculiares que, ao abrigo das aldeias gentis dos abaeté, estabelecem uma cumplicidade para certa ideia de defesa.

Honra é fruto da violação de um branco a uma abaeté. Cresce claro, humilhado por uma pele que diz não ser cicatriz daquele golpe porque é ferida. É sempre ferida.

Esta é uma delicadíssima história de resistentes. Exuberante aventura das palavras e da imaginação em busca da hipótese da paz.

280 pages, Paperback

First published September 1, 2021

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About the author

Valter Hugo Mãe

68 books2,294 followers
valter hugo mãe é o nome artístico do escritor português Valter Hugo Lemos. Além de escritor é editor, artista plástico e cantor.
Nasceu em Saurimo, Angola em 1971. Passou a infância em Paços de Ferreira e, actualmente, vive em Vila do Conde.
É licenciado em Direito e pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea.
Vencedor do Prémio José Saramago no ano de 2007
É autor dos livros de poesia: Livro de Maldições (2006); O Resto da Minha Alegria Seguido de a Remoção das Almas e Útero (2003); A Cobrição das Filhas (2001); Estou Escondido na Cor Amarga do Fim da Tarde e Três Minutos Antes de a Maré Encher (2000); Egon Shiele Auto-Retrato de Dupla Encarnação, (Prémio de Poesia Almeida Garrett) e Entorno a Casa Sobre a Cabeça (1999); O Sol Pôs-se Calmo Sem Me Acordar (1997) e Silencioso Sorpo de Fuga (1996). Escreveu ainda o romance O Nosso Reino (2004).
Organizou as antologias: O Encantador de Palavras, poesia de Manoel de Barros; Série Poeta, em homenagem a Julio-Saúl Dias; Quem Quer Casar com a Poetisa, poesia de Adília Lopes; O Futuro em Anos Luz, por sugestão do Porto 2001; Desfocados pelo Vento, A Poesia dos Anos 80, Agora.

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Community Reviews

5 stars
261 (26%)
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375 (37%)
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270 (26%)
2 stars
69 (6%)
1 star
27 (2%)
Displaying 1 - 30 of 116 reviews
Profile Image for Idalina Batista.
34 reviews3 followers
November 2, 2021
Muitíssimo bom. Um dos melhores livros do Valter Hugo Mãe e só não digo o melhor porque não consigo fazer essa injustiça com " A máquina de Fazer Espanhóis" e a " A desumanização" dois dos livros que continuam, a par com este, a liderar os livros que li dele. Está escrito numa linguagem que no início, nos é quase totalmente imperceptível, mas que com o virar das páginas se vai tornando mais clara e fluente ao nosso raciocínio. É um livro arrepiantemente poético. Uma obra literária que perdurará no tempo.
Profile Image for Aline.
37 reviews152 followers
August 2, 2022
O romance não é nada ruim, mas demasiado consciente de seu próprio leitor e das armadilhas do "lugar de fala". Como se todo o cuidado na confecção do texto já não bastasse, Valter Hugo Mãe incluiu ainda uma espécie de posfácio em que se explica e garante não ter pretensão de retratar "comunidade alguma que exista", que sua busca é pelo "poema, que tem que ver sobretudo com o assombro, o preconceito e a maravilha que sobra a alguém que quer inventar uma hipótese por imaginação e exuberância."
Consciente, portanto, de seu papel e aliado certo nas lutas contra o racismo, a violência e a injustiça, o autor alcançou com este livro o mérito de causar um desconforto novo - distinto em tudo do clichê do livro "soco no estômago" - em seu público: como conciliar a fruição de um texto (bom) de um homem branco que inventa uma comunidade indígena, lhe dá língua, ética e imaginação próprias, com a noção dos limites de seu "direito" de fazê-lo?
Profile Image for Graciosa Reis.
539 reviews52 followers
February 9, 2024
VHM refere na sua epígrafe que retirou o título As doenças do Brasil de um excerto do “Sermão da Visitação de Nossa Senhora”, de Padre António Vieira (“Esta foi a origem do pecado original e esta é a causa causa original das doenças do Brasil: tomar o alheio, cobiças, interesses, ganhos e conveniências particulares, por onde a justiça se não guarda, e o Estado se perde.”).

Neste longo poema, como o próprio autor o classificou nas notas de autor, VHM transporta-nos para a comunidade imaginária dos abaetés, como povo originário do Brasil, relata-nos a sua cultura, língua, educação, crenças e costumes e dá-nos a conhecer o passado colonial dos brancos e o seu impacto no presente.
Transparecem neste texto a emotividade e a sensibilidade do autor quer através da escrita poética quer através da caracterização do povo indígena. Abaeté significa “pessoa gentil” e é gentileza, cumplicidade, piedade, generosidade, mas também ingenuidade que encontramos no “povo dos três mares”. Também percebemos como a questão racial, o domínio do homem branco sobre os povos indígenas e negros perturba o autor (“O negro era um animal domesticado pelo branco.”). A referência à língua branca que fede e apodrece na boca é uma constante:
“E seu bafo fedeu muito entre todos. (…) é a língua branca. A língua e o fedor da língua branca, a palavra que apodrece na boca e apodrece a boca.” (p. 105)

A acção centra-se no caso de um jovem abaeté, Honra, que vive o drama de ser o fruto da violação de Boa de Espanto, uma “feminina”, por um homem branco. Honra não se conforma, vive revoltado e promete matar o branco, o inimigo. Honra, o guerreiro feio, sente-se indigno, ferido de morte e não aceita ter herdado a cor do homem branco, da “fera branca”.
“ sagrado Pai Todo, sou branco. Sei agora e não sei como não o via mesmo que vendo. Sou branco. E esta cor não é cicatriz, é ferida e não sara. O inimigo parasita em mim para sempre. Sou uma possessão. Um espírito baixado sobre minha dignidade abaeté. Sou um bicho como nenhum outro da mata. Um inimigo menos semelhante. Um excremento do branco no ventre de minha mãe. Sou a morte, sagrado Pai Todo.” (p. 33)

Honra, bem aceite pelo seu povo e educado segundo os preceitos abaeté, só começou a aceitar a sua condição quando encontrou, na mata, um negro a quem deram o nome de Meio da Noite, ainda mais desafortunado e a quem se afeiçoou, primeiro porque recebeu ordem de lhe dar uma “educação abaeté” e depois porque nasceu entre os dois “feios” uma enorme cumplicidade que não vou desvendar.
“Um pouco depois, no silêncio profundo da maloca, comovido, Meio da Noite pressentiu que Honra não dormia e isso lho perguntou. O guerreiro branco respondeu:
penso. Não consigo parar de pensar.
E o negro entoou:
sagrado Honra, se entendi o que aconteceu, se por sorte me salvaram, quero que saibas que estou grato. Sou grato. Fujo sozinho mas sou testemunha de milhares. Ei vi milhares. A minha vida é a prova de que existiram, existem, e a minha voz será sempre uma pertença deles também.
O branco perguntou:
o que significas com isso.
E o negro respondeu:
obrigado, sagrado Honra. A minha vida dignifica meu pai, minha mãe, meus avós, meus irmãos, meus povos.
Honra perguntou:
estás a chorar, animal negro.
E o negro entoou:
sim.
Então, Honra chorou também. As feras eram incapazes de chorar. No sol seguinte, até estupefacto, o guerreiro branco foi declarar ao pajé que o negro era alguém. Entoou:
é alguém sagrado Pai Todo, intuí seu espírito. Eu intuí. (pág. 118).

Em conclusão, a narrativa poética criada pelo autor não foge muito à realidade histórica. O “colector de palavras” concebeu um poema a partir do seu fascínio pelos povos originários, escrito com o assombro e a violência de uma realidade que pretende manter viva, como lhe disse o cacique dos Anacés: “vá, e diga ao seu povo branco que um dia chegou aqui para nos matar, que seguimos de braços abertos para os receber como amigos. Ensine ao seu povo que somos amigos.” (p. 266). E VHM cumpriu na perfeição.

Recomendo vivamente!
Profile Image for Larissa.
37 reviews2 followers
June 23, 2022
Walter Hugo Mãe é sempre bonito, mas essa obra, apesar de bonita, é um equívoco. Um português branco decidir imaginar — sem pesquisa ou vivência — uma aldeia indígena na Amazônia pré-colonial e seu encontro com um jovem negro em busca da liberdade é de uma arrogância que apenas por saber das boas intenções acaba por perdoável.

Há uma poética de algum valor na dinâmica de significados e palavras por ele inventada para os Abaetés. Há beleza na descoberta do outro, o negro, e na civilidade comum reconhecida no ódio pelo inimigo. Mas em especial o encontro inicial e as dúvidas e estranhezas entre os índios e o negro se tornam difíceis de separar do autor português branco por trás dos personagens que decretam o pequeno Meio da Noite, apenas uma criança, de bafo fedido (porque fala o idioma dos brancos, que é apodrecido. Hmmm… passa?), de membros avantajados capazes de rasgar uma moça (sério? Sério mesmo?), de aparência feroz de bicho.

Eu não sou tirana do lugar de fala, e acredito que histórias devam refletir a diversidade do mundo em que vivemos — e portanto, não acho que um homem não possa escrever uma personagem mulher, um negro, uma branca, uma belga, um japonês. Mas há que ter um grau de sensibilidade para a ironia não-intencional, e a incursão de VHM pelo universo indígena e negro da resistência ao colonizador, temperada por seu interesse exclusivo na própria imaginação — na prática, desinteresse nas vozes e histórias reais que busca retratar — é exatamente um exemplar de tal situação infeliz.
Profile Image for Paulo Borges.
Author 3 books7 followers
December 27, 2021
Três livros lera eu de VMA. Por esta ordem: A máquina de fazer espanhóis, Desumanização e Homens imprudentemente poéticos. Este romance fica aquém. Compreende-se a ideia, compreende-se a poesia. É um longo poema, cheio de enigmas à primeira leitura. Enigmas do que é a existência humana, com uma espécie de narrativa genesíaca, enigmas nos vocábulos, enigma no fecho do livro...

Porém, nas suas Notas, o autor explica-se um pouco e diz que chorou em algumas partes do seu labor. Penso que está longe de ser novo. Nos três títulos mencionados chorou de certeza.
Valorizo, sem pestanejar, a poesia e as lágrimas, mas:
Não senti.
Profile Image for Hugo Noguchi.
5 reviews1 follower
May 11, 2024
Promissor, principalmente em seu estilo e na tentativa de revisão por parte do colono, porém esbarra nos próprios fetiches coloniais do autor. Tem três parágrafos realmente bons e o final é bem executado, me foi útil na minha pesquisa mas não recomendo. Em sua essência um livro que nasceu datado e ultrapassado.
Profile Image for Healthy Dose of Self-Destruction.
486 reviews3 followers
May 4, 2024
★★✩✩✩✩✩✩✩✩
2/10 Muito ruim
Valter Hugo Mãe busca com As doenças do Brasil expiar seus pecados mais claros. É homem alvo português e, portanto, carrega gravada em sua "branquitude" a anacrônica – e, paradoxalmente, perpétua – culpa pelos atos de seus antepassados. O resultado, como seria de se esperar, é risível (além de muito chato).

O livro compila lendas fantásticas indígenas, com o diferencial de serem apresentadas em nova cor, "branco-remorso". É o que revelam trechos como:

Sou branco. E esta cor não é cicatriz, é ferida e não sara. O inimigo parasita em mim para sempre. Sou uma possessão. Um espírito baixado sobre minha dignidade abaeté. Sou um bicho como nenhum outro da mata. Um inimigo menos semelhante. Um excremento do branco no ventre de minha mãe. Sou a morte, sagrado Pai Todo, eu sou a morte.


De se destacar, ainda, que Mãe comprou (e nos vende caro – livros enfadonhos sempre custam muito mais que seu preço de capa) a lorota de que, no Brasil, os primeiros séculos de miscigenação entre brancos e índios ou brancos e pretos seriam exclusivamente fruto de estupros. Embora o autor não tenha coragem suficiente para dizê-lo com todas as letras, é o que sobressai das entrelinhas.

Não tivesse a certeza de que a intenção de Mãe, com esta obra, é se flagelar em público pelas ações de ancestrais que morreram há séculos e regozijar identitários "decoloniais", eu concluiria que tudo não passou de uma grande troça contra a extemporânea busca pela reparação de supostas "dívidas históricas". Afinal, como levar a sério alguém que bota na boca de um índio de 13 anos de idade, vivendo no meio do mato séculos atrás, lacrações como "cabelo é discurso como a voz", ou abstrações como "Rezará a sua lenda acerca do dobro da morte. Acerca do triplo da morte. Acerca do absoluto da morte. Se o lembrarmos, será apenas para garantir que nada nele vive. Nada. Que seja tão morto que ninguém o possa lembrar nem que queira."?

———
(Prefiro a leitura a audiolivros, mas ouvi As doenças do Brasil por alguns dias enquanto lavava louça e dobrava roupas.)
Profile Image for Monica Cabral.
249 reviews49 followers
December 5, 2021
..."Os abaete debateram que os brancos chegavam em suas maldades. Eram inimigos, repetiam. E entoavam:
Malditos. São malditos.
Foram amaldiçoados para que não houvesse esquecimento, e foram proibidas as suas palavras para que os espíritos puros do povo da mata não fossem capturados pelo inquinado dos seus sons, pela força de seus deuses terríveis. "
Honra, é um jovem fruto de uma violação por parte de um branco sobre uma india abaete.
Como se lida com dois venenos no corpo?Violação e ódio...sede de vingança?
A complexidade deste livro é tão boa como a complexidade de uma luta contra sentimentos revoltosos...
Dos 4 livros que li de Valter Hugo Mãe este, talvez por ele ter optado por uma escrita do povo indígena, custou um pouco a entrosar-me com a narrativa, mas á medida que fui desbravando as suas páginas, ela ( narrativa) tornou-se muito fluída e prazenterosa... adorei 😊
⭐⭐⭐⭐⭐
Profile Image for Vanessa Pimenta.
123 reviews7 followers
September 27, 2024
Temo que pela escrita (que não é nada simples) muita coisa me possa ter escapado neste livro e, também por isso não foi uma leitura fácil. Mas é muito importante, pelo tema, pelas personagens merece as 4 estrelas.
Profile Image for Carolina.
4 reviews2 followers
July 27, 2022

Sabe quem me conhece que sou profunda admiradora de Valter Hugo Mãe. Idolatro as suas obras, que me comovem e agitam o espírito da primeira à última palavra.

Ora, qual o meu espanto, quando ao começar a sua mais recente obra, “As Doenças do Brasil”, me deparo com uma quase ilegibilidade, autêntico mato impenetrável de um dialeto por ele inventado. Talvez seja essa a estranheza que se tem quando a nossa cultura choca com o desconhecido.

Aos poucos, e capítulo após capítulo, o leitor é imiscuído nesta dimensão nova e, já conhecedor da mecânica de comunicar, é convidado a sentir.
Afloram os sentimentos de pena e, quiçá, vergonha pelos crimes levados a cabo pela fera branca, mas sem dúvida, compaixão pelo Meio da Noite e todas as noites na terra.

As lágrimas do autor foram a água que fez germinar a semente de poeticidade nesta obra, que de tamanha estranheza ao começo, se entranha e toca nas entranhas.

É preciso chegar ao fim para que a ausência de sentir se transforme em sentimento puro.

Mais uma obra belíssima.
Sai reforçada a minha admiração.
Uma vénia à genialidade de quem vive para produzir poesia.
Profile Image for Julia Coppa.
126 reviews17 followers
March 14, 2022
Não esperava gostar tanto desse. Comecei a leitura com certas ressalvas, do próprio título, e depois da sinopse fiquei me perguntando se seria uma história apropriada (literalmente).

Mas é Valtinho, é lindo e é surpreendente e eu não sei onde esse omi acha as palavras!!
Profile Image for Duda Delmas.
12 reviews
March 14, 2025
Um livro com uma agenda declarada desde a dedicatória. Apesar de momentos de escrita interessantes e bonitos - entre outros mais pretensiosos -, a leitura acaba óbvia e quase didática.
Gostei demais da seleção inicial de excertos de documentos!
Profile Image for Clarissa.
63 reviews5 followers
March 11, 2024
Eu gostei dos outros dois livros que li do autor, de modo que a minha expectativa em relação a esse era boa. Desta vez, desgostei do começo e cogitei abandonar a leitura de cara. Não entendi a linguagem e a proposta. Li três vezes os primeiros capítulos. Decidi seguir.
Não foi uma leitura fácil. Por vezes, sequer foi agradável. Não é o tipo de livro cuja proximidade do fim anuncia uma solidão vazia, que pede o passo lento, ou com enredo progressivo, que nos envolve numa sanha para conhecer seu desfecho. Tem seu ritmo próprio, não permite qualquer toada.
Fascinante. Poético. Profundo. Há que se ler sem qualquer compromisso com o factual. Há que se distanciar de reivindicações históricas. É tocante, como se as palavras tivessem sido encontradas brutas e limadas cuidadosamente para espelhar beleza.
Depois de me familiarizar um pouco com o estilo, a "cosmogonia" abaeté, os valores e crenças desse povo imaginário, me vi diante de uma grande obra.

_________________________________________

I enjoyed the other two books I read by the author, so my expectation for this one was good. This time, I disliked the beginning and considered immediately abandoning the reading. I didn't understand the language and the concept. I read the first chapters three times. I decided to continue.
It was not an easy read. At times, it wasn't even enjoyable. It's not the kind of book where the proximity to the end signals empty loneliness, calling for a slow pace, or with a progressive plot that engages us in a frenzy to know its outcome. It has its own rhythm and doesn't allow for any particular tune.
Fascinating. Poetic. Profound. It must be read without any commitment to the facts. One must distance oneself from historical claims. It's touching as if the words had been found raw and carefully polished to reflect beauty.
After getting familiar with the style, the "cosmogony" of the abaeté, the values, and the beliefs of the imaginary people, I found myself facing great work.
Profile Image for Flávio Alves.
100 reviews70 followers
March 6, 2022
“O cadáver de todas as coisas está na língua. Naquilo que se pronuncia sobra tudo quanto foi, e a existência não se livra do cúmulo do que já passou. Para que cada palavra seja criadora, é também inevitável que saiba que sepulta dentro de si mesma. Quando entoas, nem que à deriva sem muito domínio ou consciência, o tempo todo e o espaço inteiro podem comparecer e qualquer palavra é infinitamente de maior tamanho do que o teu. Em cada modo de fala há uma identidade. Em cada língua um mesmo guerreiro encontra nova identidade. Usar outra língua implica atenção para haver modo de regresso. Sob pena de ser impossível voltar. Sob pena de ser impossível a paz no instante de voltar. Nossa língua é nosso comportamento. Ela dirá sobre o que fazes, dirá sobre o que és e sobre a inteligência de seguir uma conduta gentil. Nossa língua é gentil. Gentileza é tua obrigação.”

Este foi o primeiro livro de Valter Hugo Mãe que eu li e não poderia ter escolhido melhor. Neste livro somos dados a conhecer os Abaeté, tribo originária do Brasil. Honra, fruto da violação de uma Abaeté por parte de um branco, cresce no seio desta comunidade, diferente dos demais, em virtude da sua pele clara, da sua pele branca. Sentindo-se sempre de parte, encontra-se sempre desejoso de vingança, contra aqueles que profanaram o espaço da sua tribo. Eventualmente junta-se-lhe Meio da Noite, rapaz negro que encontra por acaso os Abaeté, fugindo de uma catividade onde viu a família a morrer.

Trata-se de uma poderosa narrativa sobre o colonialismo, sobre a invasão do Brasil pela raça branca, sobre a história vista do outro lado. Uma história comovente, escrita de uma forma magistral. No início, a linguagem empregada é estranha, com uma construção gramatical muito própria. No final do romance, verificamos que não poderia ter sido escrito de outra forma.

Adorei este livro, adorei conhecer as duas personagens icónicas, bem como a relação que se estabelece entre elas, e adorei conhecer os rituais desta tribo. Recomendo vivamente este romance!
Profile Image for Sónia Carvalho.
196 reviews17 followers
March 13, 2022
A 'fera branca' quase exterminou os povos originários do Brasil. Ao longo de séculos, os brancos mataram aqueles que não podiam escravizar."

Valter Hugo Mãe cria para a Literatura actual duas figuras inesquecíveis: Honra e Meio da Noite, rapazes peculiares que, ao abrigo das aldeias gentis dos abaeté, estabelecem uma cumplicidade para certa ideia de defesa."
Honra é fruto da violação de um homem branco a uma índia, crescendo "zangado" e com vontade de vingança. Este jovem acaba por simbolizar a força de um novo povo que precisa de se pacificar com a sua mestiçagem, mas que sente uma ferida sempre aberta. Meio da Noite representa todos os escravos que têm o grande sonho de libertar o seu povo. Juntos, vão lutar, crescer e conhecer a amizade.

"As Doenças do Brasil" foi o meu primeiro contacto com a escrita de Valter Hugo Mãe. No início não consegui "sentir" e conectar-me com a história e quase desisti. Não é uma narrativa simples. Estranhei muito a linguagem e demorei algum tempo a assimilar o que me era contado. Mas insisti e à medida que fui avançando e me habituei à linguagem dos Abaeté, a leitura tornou-se mais clara e fluída, tornando-se num livro altamente poético. Sobre a linguagem utilizada, o escritor referiu que precisou "inventar um português que fosse deturpado ou perturbado o suficiente para parecer um universo relativamente paralelo." Considera ainda que a "grande conquista do livro tem que ver com essa dimensão de ter chegado a um vocábulo novo. E isso é apanágio da poesia. No fundo acaba por ser um romance que se faz com a estratégia do poema."

Este livro parece uma espécie de livro catarse, onde o autor tenta perceber como o racismo foi construído, como a escravatura foi uma instrumentalização para conseguir industrializar a captura de material nos territórios ocupados. Aborda questões importantes como a violação, a vingança, a amizade, a família, a escravatura, a violência, as raízes e a cultura indígena. Fala-nos da propensão de "não deixarmos o alheio em paz", de sermos "eminentemente predadores e de a perpertuarmos, ao ponto de destituirmos o outro da sua dignidade."

Citações:

"Minha educação está completa. Estou preparado para defender e vou ser abençoado quando for obrigado a atacar. Negócio, assim, a paz e a guerra. Não posso negociar contigo. Tenho desconfiança e sinto pena. Observo tua tristeza mas aguardo teu ataque e temo ter também de te matar. Eu já não o quero. Mas julgo ainda ser obrigado. Eu matarei qualquer animal que enfureça por desespero contra os Abaeté."

"Serei teu amigo até que saibas ser meu amigo também. Honra, sem resposta, sentiu o significado daquelas palavras como o mais belo que já escutara. Acelerou o pé. Não aceitava que a língua do branco trouxesse qualquer gentileza. Era uma língua suja, maldosa, estaria claramente a enganá-lo com astúcia para o derrotar. Meio da Noite sorriu."

"E ele mais demorou a bater meu corpo do que ferindo um filho em mim. Bateu muito para acertar de matar. E eu fiquei sem mover porque também acreditei ter ficado morta. Pensei, estou morta. Chegarão os ancestrais, escutarei a Voz Coral, serei salva. E supliquei (...)."

"A feminina fechou os braços em torno do filho e padeceu de sua dúvida. O filho ergueu daquele abraço despontando de um esconderijo inteiro. O medo das mães podia ser uma forma de retenção, uma covardia egoísta que preferia recusar a valentia pelo exercício do amor. Para o frio branco, o amor era inexplicável. Não existia. Tinha jeito de fraqueza, uma fraqueza inaceitável para o povo abaeté mais ameaçado do que nunca."

"O negro ainda procurou recusar. Eram demasiado novos, demasiado pequenos, demasiado aleijados no orgulho, demasiado ignorantes, ele estava com demasiado medo, tinha demasiada dúvida acerca de matar alguém, não queria matar já, ser matador agora, naquele instante tão súbito, sem mais pensar, sem mentalizar-se para o gesto que mudaria o seu espírito para sempre."

"O pajé intuiu que os brancos eram apenas uma semelhança. Uma fera dotada de semelhança. Não eram alguém. Animais feios, os brancos faziam o horror. Não significavam maravilha alguma. Infectaram as ilhas Abaeté, haveriam de coagular as águas dos Abaeté. Eram sujos. Suas intenções eram primitivas, sem educação, bestiais, desconhecedoras de gentileza. Não eram verdadeiríssimos."

"O branco não respondeu. Seria bom incapaz de confessar que usava a cor como desculpa para ser torpe. Incapaz de uma aprendizagem gentil, Honra escudava-se na cor para ser torto. Queria que ser torto fosse sem culpa, para se corromper sem limite na voracidade de seus sentimentos. Viciava-se naqueles sentimentos. Odiar era caminho sem muito regresso. Talvez também nunca tivesse lugar de chegada. Era uma ida contínua, sem satisfação."

"Não me morras, Meio da Noite. Sinto que és no meu lugar, confuso comigo, por teus pulmões em parte respiro, por teus lábios em parte sorrio, por tua paciência em parte medito. Minha inteligência, em parte, és tu. Minha coragem em parte és tu. Sinto que há necessidade nenhuma de sermos dois ou nenhuma possibilidade de prosseguirmos sozinhos. Meio da Noite, não escureças que te apagues. Não desilumines que te apagues. Não silenciosa que não te volte a escutar. Entoa, meu irmão. Entoa por mim, por teus povos que precisam de ser contados, precisam de ser amados na mais pura alegria de que formos capazes. Meu irmão não deixes minha mão."
Profile Image for Melissa.
15 reviews2 followers
July 26, 2022
Eu sinto
Eu choro
Eu entoo
Eu sou Brasil.
848 reviews
November 28, 2021
Este romance, que o autor prefere nomear como longo poema, é belíssimo e poderoso. Hugo Mãe constrói um universo na mundividência dos povos originários do Brasil, ameaçados pelo homem branco. Honra é o filho da violação de uma indígena por um branco, que procura derrotar para restaurar um equilíbrio para sempre perdido, recusando a sua língua e a sua violência. Meio da Noite é o seu gémeo negro, escravo em fuga em direcção ao mocambo dos povos livres da escravidão, a duras penas conquistado.
Este romance é para mim uma viragem na obra de Valter Hugo Mãe, que, através do domínio da língua, sim aquela dos brancos, mas que é tão plástica e tão poderosa que se transforma, não é já meio de violência, mas espaço comum de todos os seus leitores, capaz de acolher todas as diferenças.
Profile Image for Helena.
302 reviews13 followers
September 13, 2024
Este foi o primeiro livro que li deste autor, e surpreendeu-me pela escrita poética e pela maneira única como construiu a fala de um povo.
A obra aborda de forma profunda o colonialismo e as violências que o sustentam, com destaque para a violência sexual. Além disso, explora temas como o crescimento, família, comunidade e amizade.
Fiquei desconfortável com a recorrência de descrições de violação. Embora entenda que isso faz sentido dentro do contexto das personagens e da narrativa, penso que é um tema pesado demais para estar tão presente sem um aviso prévio. Em relação ao colonialismo, não sou a pessoa indicada para fazer uma análise profunda, mas sei que existem muitas reviews relevantes sobre o assunto.
Profile Image for Betina.
90 reviews
January 8, 2022
Talvez eu tivesse despreparada para abeirar esta leitura. Volta e meia, perdi o fio à meada, porque as ideias se enredaram em demasia na minha cabeça e eu fiquei toda confusão. Aqui e ali, sorri, porque encontrei poesia. Senti sempre e muito em todos os anteriores livros do autor que eu li (4), nas neste, senti pouco. https://express.adobe.com/page/y5ggqU...
Profile Image for Giovanna Querubim.
13 reviews
February 16, 2022
Achei só incrível cada passagem, somos levados para um mundo completamente diferente, cheio de fantasias. A escrita é lindíssima, como tudo aquilo que Valter cria. A relação do personagem com os sentimentos, a vingança, a família, as raízes, são grandes temas durante a obra.
Profile Image for Francisco Loureiro.
94 reviews
May 15, 2024
"Como matarei de mim o que me invade, esta metade intrusa, que recuso."

A obra é bastante interessante e aborda temas importantes como o racismo, o colonialismo e a própria existência humana. Contudo, acabo o livro com a sensação de que falta algo mais.

Recomendo.
Profile Image for Marina Tommasi.
166 reviews3 followers
April 17, 2023
Eu li outros dois livros de Valter Hugo Mãe que amei, mas esse não me prendeu tanto. O livro é genial por trazer a história da colonização do Brasil ponto de vista de um indígena, que se une a um negro fugido da escravidão. Mas eu achei TÃO difícil de ler, a ponto de não entender muitos trechos e atrapalhar o entendimento do todo.
Profile Image for Je Pas.
56 reviews2 followers
June 25, 2025
é bastante experimental e interessante, tem alguma narrativa, mas com uma escrita bastante poética, o final é muito bonito. o estilo é um bocado pretensioso às vezes
Displaying 1 - 30 of 116 reviews

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