O que dizer do novo livro de Maria Isaac?!
Antes de me alongar na minha opinião, começo por dizer que ler este livro foi sentir-me envolta num abraço quentinho alimentado pela escrita simples, mas ao mesmo tempo tão poética, de Maria Isaac. Ler "O que dizer das flores" é uma dupla viagem: uma viagem no tempo, até a um Portugal algures no tempo após a Revolução de Abril, e uma viagem geográfica até muitas das aldeias do nosso Portugal mais interior, onde a Igreja, a mercearia, o cabeleireiro e o café central se encontram impregnados no ADN de forma tão mais forte que a herança que os pais carimbam no nosso material genético. Mont-O-Ver é, duplamente, um retrato passado e presente do nosso Portugal, no qual facilmente somos capazes de reconhecer as vilas e aldeias da nossa infância, sejamos nós do Norte, Centro ou Sul de Portugal. Ao ler as primeiras páginas deste livro, senti que Mont-O-Ver poderia ser qualquer aldeia ou vila portuguesa que encerra segredos de família em cada esquina e em que as aparências e conversas sussurradas sobre a vida dos outros ditam a velocidade da vida dos habitantes deste local onde não podia deixar de existir um café central e onde a porta da igreja serve de ponto de encontro para muitas destas conversas. Eu, que tenho as minhas raízes, no Baixo Alentejo, ao começar a leitura deste livro, quando se fala em Santa Luzia como padroeira de Mont-O-Ver, facilmente pude viajar ao longo do Alentejo até Elvas, que possui o Forte de Santa Luzia e que tem uma autoestrada bem perto a ditar a proximidade e o afastamento de todos... (calma, leitores mais atentos... Bem sei que Elvas não possui campos de arroz alagados nas redondezas, mas um leitor também pde ter a sua liberdade livrólica enquanto lê, não é verdade?).
Ao longo do livro, a importância das flores vai surgindo no caminho das vidas das personagens deste livro. Por exemplo, na pág. 40, pode ler-se: "Catalina sonhava escrever e o Sr. Bilros, da biblioteca itinerante, disse-lhe que o difícil era escrever sobre as coisas simples, como as flores. Ao que Catalina prontamente respondeu: “toda a gente sabe o que dizer das flores. Que interessa isso? Nada!". E nesta explosividade algo contida de Catalina perante a afirmação de que é difícil escrever sobre coisas simples, não pude deixar de sentir um dos heterónimos de Fernando Pessoa a espreitar por cima do ombro do Sr. Bilros... O mestre da ingenuidade, Alberto Caeiro, tinha a capacidade magistral de escrever sobre as coisas simples e penso que este Sr. Bilros tem um pouco desta ingenuidade deste órfão de pai e de mãe, que vê na natureza que o rodeia um dos seus maiores catalisadores inspiracionais. Quem sabe quantos pontos de comum existem entre Bilros e Caeiro?!
À semelhança do que se pode encontrar em "Onde cantam os grilos", este livro vai revelando muito do preconceito enraizado no cidadão português e que continua a ditar muita da forma de reagir aquilo que se entende como indiferente. "Antónia falava, adivinhando por instinto o que se passava além dos olhos bovinos; a condescendência e o preconceito eram animais que viviam no mesmo rebanho, liderados pelo mesmo pastor surdo" (pág. 91). Este pastor surdo continua a deambular, mais ou menos perdido no meio na multidão, mexendo com convicções, ditando conversas em surdina e palavras que nunca vão para além do silêncio. A forma doce de crítica social que encontramos na escrita de Maria Isaac convida-nos a refletir sobre um conjunto de aspectos variados da essência de se ser humano e e de se ser português, sem uma declarada narrativa nesse sentido. Gosto desta linha paralela que a autora nos permite fazer durante a leitura e que torna os seus livros ainda mais ricos do que poderíamos esperar à primeira vista. E, assim, se consegue cativar os leitores de uma forma iningualável. Impossível não relembrar a descrição que encontramos de duas das personagens deste cativante livro, cunhado de retrato social das aparências que tanto parecem valer, mais do que a essência, que se encontra no início do capítulo 13: "Viviam na casa perfeita que combinava com a perfeição dos dois, da sua história de amor, do seu casamento e de outras coisas igualmente importantes para quem os rodeava. Ela era a rapariga forte e inteligente, de origens humildes, que estudara na capital e regressara para salvar a vila de ser cortada ao meio pela nova autoestrada. Ele era o rapaz simpático de boas famílias, que não olhara ao berço desfavorecido da mulher que era o seu primeiro e único amor.”. Este livro e os pequenos vislumbres que vamos vendo pelos cortinados entreabertos nas janelas é um retrato do Portugal já do pós-25 de abril, mas em que os hábitos de um prolongado Estado Novo continuam a estar impregnados no mais profundo ADN de muitas aldeias e vilas. Uma linha menos explorada na narrativa, mas a que não pude ficar indiferente, foi a breve menção à saúde mental de Duque e de Elias Froes, regressados da guerra colonial: " Ele estava… como deves imaginar, desorientado, nervoso, mal conseguia articular uma palavra…gemia como um animal, coçava-se, puxava os próprios cabelos” (pág. 140). Esta descrição de um soldado que volta da guerra pelas palavras de outro que partilhava “as noites de pesadelos e suores frios recorrentes após o regresso da guerra”. Será tudo isto apenas stress pós traumático de Duque ou esconde algo mais? E, claro, a forma crua e bastante directa como é descrita a violência doméstica neste livro: “No final, como em todas as outras noites iguais aquela noite, ficou o silêncio, rostos molhados por olhos a transbordarem terror, lábios sangrados pelos gemidos que tiveram de prender, o alívio e a resignação dos segredos tristes, guardados por mulheres que, ainda assim, conseguem sempre voltar a sorrir” (pág. 165) Um relato cru mas que revolta por se saber que esta é a realidade de muitas mulheres por esse país fora… E que afecta mulheres cada vez mais jovens no nosso país.
"O livreiro guardião de histórias intermináveis, sempre paciente com a nossa presença, sempre disposto a responder a perguntas desnecessárias com a sua voz calma de quem lê vários livros ao mesmo tempo, sem pressa de os acabar. Tudo nele fazia lembrar mistérios do passado. Nós gostamos dele, não é de admirar” (pág. 96)
Para além de uma dupla viagem, "O quer dizer das flores" faz-me também sentir em dois lados de um espelho... De um lado, o olhar sobre a realidade dos ricos e da sua vida pincelada de dramas familiares que não deixou ninguém indiferente no seu livro de estreia. Do outro lado, Mont-O-Ver com a sua realidade de vilarejo afastado do desenvolvimento fruto da proximidade a uma autoestrada que fez rumar a outros destinos as pessoas novas e o investimento. Outra particularidade muito especial deste livro são as linhas narrativas que se cruzam com outras leituras. Encontramos agora fitas temporais cruzadas e que nos ajudam a compreender a dimensão dos dois lados do espelho e aquilo que se veem pelos olhos do narrador/personagem… a gostar cada vez mais deste livro! E o que dizer dos padres que surgem nas histórias de Maria Isaac: Sombra e padre Elias Froes… mas que destino é este o de Mont-O-Ver com os seus padres?! Outro aspecto também que já vem sendo habitual na escrita de Maria Isaac são os segredos que moldam vidas: “Os dois deixaram-se ficar, escassos segundos ousados nas barbas de uma vila adormecida, a transbordarem de sentimentos que a proximidade exacerbava ao infinito dos amores proibidos e impossíveis de se tornarem reais” (pág. 160). E por isso é tão delicioso ler as histórias criadas por Maria Isaac… porque nunca sabemos quando as redes do tempo nos podem trazer os segredos de vidas por viver."
Gostei mesmo muito de ler este livro. Um livro doce, envolvente, que nos abraça e que nos prende à leitura desde as primeiras páginas. Uma escrita poética, doce, mas que transmite força ao mesmo tempo e que mostra o quanto os mal-entendidos podem determinar a vida das pessoas que nos rodeia. E, Maria Isaac... Obrigada por aqueceres o coração com o regresso breve da pessoa de quem tanto gostamos e por teres escolhido um narrador tão especial: aquele olhar que pode estar sempre presente sem nos darmos conta, mas que é o símbolo maior da amizade, do amor, da entrega sem esperar nada em troca... Um olhar que nem a paixão por cavar buracos afastada da leitura da realidade à sua volta :) Parabéns por este livro e espero, novamente, poder voltar a olhar para o nosso Portugal pela doce lente da Maria Isaac! :)