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O Arquipélago da Insónia

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Começamos por uma casa, pelo sentimento uma força em exercício, um poder que vem de há muito tempo, quando essa casa era igual mas era uma herdade, um latifúndio, quando nada faltava – a família, as empregadas na cozinha, o feitor, os campos, a vila ao fundo, e a voz do avô a comandar o mundo. Agora há fotografias no Alentejo em vez de pessoas, e há objectos, cientes que também acabarão sem ninguém, há memórias de quem dorme, ou morreu, mortos que não sabem se a vida foi vida, há os irmãos, um é autista, e a imagem da mãe muito nítida, sempre de costas “(alguma vez a vi sem ser de costas para mim?)”. Nessa altura já não se sabia a que cheira o vento, como não se sabe para onde foi a Maria Adelaide, morta também, foi para Lisboa? A herdade foi tirada ao autista, e a doença (de quem?) é um arquipélago branco nas radiografias dos outros, um arquipélago normal, inocente. Estão todos mortos ou estão todos a sonhar e trocaram de sonhos, como se pudessemos trocar de sonhos.

263 pages, Paperback

First published January 1, 2008

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487 people want to read

About the author

António Lobo Antunes

88 books1,040 followers
At the age of seven, António Lobo Antunes decided to be a writer but when he was 16, his father sent him to medical school - he is a psychiatrist. During this time he never stopped writing.
By the end of his education he had to join the Army, to take part in the war in Angola, from 1970 to 1973. It was there, in a military hospital, that he gained interest for the subjects of death and the other. The Angolan war for independence later became subject to many of his novels. He worked many months in Germany and Belgium.

In 1979, Lobo Antunes published his first novel - Memória de Elefante (Elephant's Memory), where he told the story of his separation. Due to the success of his first novel, Lobo Antunes decided to devote his evenings to writing. He has been practicing psychiatry all the time, though, mainly at the outpatient's unit at the Hospital Miguel Bombarda of Lisbon.

His style is considered to be very dense, heavily influenced by William Faulkner, James Joyce and Louis-Ferdinand Céline.
He has an extensive work, translated into several languages. Among the many awards he has received so far, in 2007 he received the Camões Award, the most prestigious Portuguese literary award.

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18 (4%)
Displaying 1 - 26 of 26 reviews
Profile Image for Luís.
2,382 reviews1,375 followers
August 22, 2025
It was the author's first novel, after those that were more or less autobiographical or related to his experience as a doctor in Angola. Knowing that this author was a psychiatrist before undoubtedly devoting himself to writing explains much of the atmosphere he offers us in his novels.
Again, the same hypnotic style narrates this uncertain world between death and madness that we call life.
I approached this author through his last two novels. Is it for that? I found this one, which was highly acclaimed by critics when it was released, to be less successful. But still, this dazzling writing, with hardly any punctuation, entangles the characters and the memories, and the reader has only to find his way around or let this long chant lull him.
Great literature, indeed.
Profile Image for Rosa Ramôa.
1,570 reviews85 followers
December 8, 2014
http://youtu.be/cM5bSKc3Wuc
...
Eu,quando não faço sentido, gosto de ler o psiquiatra Lobo Antunes...
Uma espécie de viagem em sentido negativo!
Quando li este livro ainda não frequentava aqui o goodreads e não sei de que fala ou sobre que escreve o autor.Também não sei se ele quer que a gente saiba isso,mas acho que sei que a mensagem pode (ou não ?) ser essa...
António Lobo Antunes é de uma anarquia absoluta.Ele põe-nos em constante exercício e desafia sempre a inteligência...Tem o poder único,porque mordaz,de testar a minha paciência.Leva-me ao limite dos limites e a ficar cheia de raiva de mim...E volto a ler,outra vez!!!
Quando fala de morte,fala de vida.Quando fala de vida,fala de morte.Volta e mais volta e eu nunca sei de que está ele a falar.O certo mesmo é que tem cá um dom especial para me irritar...
Eu até sei que sou autista no sentido além do termo!!!
Sou tão autista que até gosto do que não percebo...
Portanto não é para a maioria ler e gostar.
É um livro complicado e convencido.
Completamente difícil definir-lhe o estilo ou dizer de que fala...Não sei se fala e se tem voz ou se é uma tentativa de teorizar sobre o ser e os seres que temos dentro de nós.São tantos e estão sempre relacionados uns com os outros!
O ser humano é "seres" humano!!!
É coisas e relações.É mudanças para algo idêntico. É ser inteiro sendo partes...Sendo geral!!!Por vezes transcendemos...Por vezes erramos...Por vezes,ambos coincidem!
Parece que se debruça sobre uma família de latifundiários,decadente ou em vias de decair.Aparecem pessoas metafisicas para nos perturbar e desassossegar.E ficamos a pensar na possibilidade da nossa insanidade completa.Possibilidade tão nítida...Reconhecer essa nitidez é próprio de ser predestinado,para o bem e para o mal.É a vida*A minha cabeça é a minha sentença!




Profile Image for Héctor Genta.
401 reviews88 followers
December 16, 2018
Con Arcipelago dell'insonnia Lobo Antunes si conferma ai vertici della letteratura contemporanea e la prosa originale con la quale sceglie di declinare l'arte del romanzo dimostra una volta di più quanta vitalità e potenzialità ci siano in questo genere narrativo.
Non si tratta di una lettura semplice: qui siamo al cospetto di un non allineato al pensiero unico, uno scrittore che ha un profondo rispetto per il ruolo attivo del lettore e che in virtù di ciò decide di non semplificargli il lavoro ma di chiedergli impegno e attenzione costanti. A cominciare dalla forma del romanzo e dall'uso personale delle strutture della frase: il punto compare solo a fine capitolo (mediamente dopo una novantina di pagine), c'è uno sfalsamento continuo delle voci e dei piani temporali, un alternarsi di prima e terza persona, discorsi interrotti a metà e parole che si sovrappongono ad altre cambiando il corso della narrazione… La sintassi risulta a tratti disarticolata perché mancano verbi, parole, connessioni, con il risultato che ci si trova davanti a frasi tronche che impediscono la piena comprensione ma lasciano intuire, immaginare.
La trama - la storia della famiglia portoghese al centro del romanzo - si svela così a brandelli, per frammenti, e mai completamente, questo perché Lobo Antunes non si propone di raccontare una storia in maniera classica, ma di dare al lettore un'atmosfera, come se volesse ricreare un ambiente simile a quella parte del cervello in cui riposano i ricordi, un calderone che ribolle in continuazione e dal quale pensieri, fatti e fantasie saltano fuori senza ordine, senza una regola precisa.
Arcipelago dell'insonnia è un grande romanzo corale, polifonico, che a tratti fa venire in mente L'urlo e il furore e a tratti Pedro Paramo, un libro abitato da "personaggi senza cornice" che vivono fuori dal tempo, con vivi e morti sospesi nella medesima dimensione. Un libro sulla memoria e sulla parola che tiene viva la memoria, perché è la parola che come una bacchetta magica nomina oggetti, persone, animali, gesti, odori e così li fa rivivere nel ricordo.
Profile Image for David Fernandes.
Author 2 books21 followers
April 8, 2009
Inesquecível. O melhor (o que será isso!?!?!) livro que li em toda a minha vida.

Espanta-me que não seja capaz de "contar a história" ainda que pequena fosse; um pequeno episódio; uma coisinha qualquer. Nada; acho que não se pode.

É um "cubo" maciço de vida. Não em fatias ou pedaços mais ou menos lineares mas a vida como ela é: milhares de palavras enredadas, simultâneas; frases paralelas, entrecruzadas (literalmente - chega a colocar frases, parágrafos, no meio de uma palavra, mesmo no meio), ideias que se atropelam constantemente; o que as nossas cabeças são por dentro.

Diz-se que cada cabeça é um universo; Lobo Antunes mostra como.

Não queria nada terminá-lo. Estou meio abalelado ainda.

Nota: começar pela 3ª parte (a última) pode facilitar a leitura. Não me responsabilizo por eventuais "perdas" ou desilusões; é favor usar esta nota com cuidado.
Profile Image for Nuno Ferreira.
Author 19 books85 followers
March 24, 2020
António Lobo Antunes é aquele eterno candidato ao Nobel da Literatura em terras lusitanas e era de certa forma constrangedor para mim nunca ter lido um livro da sua autoria. Acabei por optar ler um livro seu que nem é dos mais conhecidos, O Arquipélago da Insónia, por uma razão estratégica. Não quis ler algo demasiado recente, nem um mais antigo, onde a sua escrita poderia não estar tão amadurecida. Este romance de 2008, o seu vigésimo, acabou por ser uma opção mais do que válida para o efeito.

O livro deixou-me uma sensação agridoce na boca. Por um lado, é evidente a mestria literária de Lobo Antunes. Cada palavra é uma emoção, um sentimento, um hino à literatura e à língua nacional. Cada uma revela-se um clarão de luz num mundo escuro, uma bofetada contra a estupidificação, um acrescento a nós próprios. Há aqui uma cadeia de palavras que por menos sentido que possam parecer fazer, fazem todo o sentido. Senti cada linha com maravilhamento e entusiasmo.

Desta forma, de cada vez que comecei um capítulo, só consegui parar para respirar quando o terminei. Para isso contribuiu e muito o facto de não existir um único ponto final até à última linha de cada capítulo. Cada um deles é uma cadeia difusa de ideias, um contar de história entrecortado que nos assoberba com a sua prosa anticlimática. Imaginem-se a ler um capítulo inteiro de um livro sem respirar, de um só fôlego, pois é muito disto O Arquipélago da Insónia.

Por isso, também se revela uma leitura cansativa. Não é um livro que nos faça relaxar ou que nos entretenha, mas que nos estimula e obriga a pensar e a rearranjar ideias. É um livro extremamente complexo, com os seus emaranhados de intriga. Imaginem um livro normal como um passeio à beira-mar. O Arquipélago da Insónia obriga-vos a correr, e muito, como o personal-trainer mais exigente.

Também a forma como a história é apresentada, o seu fio de intrigas, nos deixa completamente de rastos. É essa teia de acontecimentos de difícil compreensão, que nos confunde e inquieta, porém, o que torna a narrativa mais desgastante. Podemos admirar a escrita de um autor e até nos dispormos a acompanhá-lo a ritmo de corrida, sem pausas, mas essa tarefa torna-se extenuante e até inválida se não conseguimos compreender quem é quem, quem está a falar ou sobre quem estamos a ler.

Lobo Antunes apresenta-nos um protagonista sui generis, o neto de uma qualquer família abastada que, no regresso às suas origens alentejanas, revisita os rostos nas molduras de família e recorda, ou imagina, acontecimentos que marcaram a vida trágica dos mesmos durante o tempo em que aquela mansão foi habitada. É um livro que revela por camadas os eventos fulcrais de uma família e todos os preceitos que a vida rural obriga. Amores, ódios, assassinatos e traições permeiam grande parte da obra.

Sempre, porém, a partir do olhar de um narrador passivo, de braços e pés atados, constrangido pelas suas próprias particularidades. Um homem autista que recorda o seu avô poderoso, a vida no casarão e a gestão das terras, tudo de uma forma muito confusa, como uma matrioska, acontecimentos dentro de acontecimentos dentro de acontecimentos. Um relato que não deixa de ser entusiasmante mas que obriga o leitor a ser obstinado e perseverante, até chegar ao último terço do livro e finalmente compreender alguma coisa da história.

De entre as personagens que me despertaram mais interesse, talvez pelo seu mistério, foram Maria Adelaide, o feitor e o padre. Foi um livro de que gostei, tanto da escrita como da história, mas que me deixou extenuado e confuso demasiado tempo para que de facto lhe possa dar uma avaliação mais proeminente. É uma prova de fogo para quem gosta de ler.

Ainda assim, quero conhecer mais deste escritor, tentar perceber se a sua narrativa comum se assemelha a este romance, se nela consigo ouvir os ecos das suas personagens e a sua incessante demanda pela reflexão e pela memória. O Arquipélago da Insónia é um convite a permanecer acordado, sonhando os sonhos agitados e pouco nítidos de um narrador com muitas histórias para contar.

https://noticiasdezallar.wordpress.com
Profile Image for Elalma.
901 reviews103 followers
July 19, 2016
Sembra di entrare in una vecchia casa polverosa, di trovare fotografie sbiadite in cui i personaggi si mettono a parlare, così, alla rinfusa, come un fiume con una corrente impetuosa ma senza tempo, dove morti e vivi si mescolano. Occorre lasciarsi trascinare, perché così il fluire delle parole scorre con ritmo e grazia lasciando dentro la curiosità di scoprire qualcosa in più di quei personaggi. Per certi versi mi ha ricordato "l'urlo e il furore" e "Assalonne, assalonne",una famiglia strana, un fratello ritardato, la cui percezione è tanto acuta quanto poetica, il Padrone prepotente, la fanculla amata. Mi viene voglia di leggerlo di nuovo, certa di apprezzarlo ancora di più.
Profile Image for Daniele.
308 reviews68 followers
September 22, 2019
Difficile commentare un'opera così...
Un romanzo a più voci con uno stile narrativo che per certi versi ricorda un pò il Faulkner di Assalonne Assalonne, Mentre Morivo e L'urlo il furore mixati insieme, la storia di una ricca famiglia in decadenza vista con gli occhi di alcuni dei suoi componenti.
Armatevi di taccuino e penna per prendere appunti sui personaggi, vi torneranno utili alla fine.
Ah e se non ci capite un granchè non preoccupatevi, è più che normale, è un libro che per ovvie ragioni prevede almeno una rilettura, ma la prima se vi è possibile fatela tutta d'un fiato, con meno interruzioni possibili e in un ambiente che non permette distrazioni.
è la prima opera di Antunes che leggo e mi ha già stregato!
Profile Image for João Abreu.
21 reviews1 follower
November 20, 2019
Um verdadeiro desafio à capacidade de concentração dada a estonteante organização caótica de ideias, de parágrafos, de frases, de palavras. Creio que Lobo Antunes só não interpela letras, pois tal representaria um desafio acrescido à editora. O caos somente começa a fazer algum sentido a algumas dezenas de páginas do final, o que torna a leitura desta obra, também, um teste à resiliência do leitor. Por este motivo, comecei a leitura em 2018, mas, poucas páginas depois, pousei o livro na estante à mercê do pó por cerca de um ano. Estou bastante satisfeito, e, quiçá, orgulhoso, por ter tido a coragem de limpar o pó e de eliminar o fardo que é ter uma leitura inacabada. Esta leitura despertou, em grande escala, o meu interesse por António Lobo Antunes.
Profile Image for Mccouto.
5 reviews
January 1, 2020
Dos livros mais difíceis que já li. Não se percebe a história, vai sendo dada em fragmentos, tipo puzzle. Deixou - me frustrada por não conseguir encadear quase nada. No entanto não consegui deixar de ler atê ao fim, porque, embora muitas vezes sem aparente nexo, vai-se construindo na imaginação uma novela marcante, trágica mas a seu modo cativante e profunda. É um livro para ler com muita atenção e paciência. Sem duvida diferente da maioria da literatura pela sua grande profundidade e envolvencia. Em conclusão, apesar do percurso de leitura turbulento, acho que valeu a pena.
Profile Image for Sorin Hadârcă.
Author 3 books259 followers
April 18, 2016
Tot așa, indescifrabil. O sumă de frustrări inter-generaționale deși în partea cu iepurele jupoiat nu ține marca, mi se pare forțată metafora și nu, nu e o mare tragedie. Adică poate, dar nu din cauza iepurelui. Bunicul tiran ține de codul penal și-atât.
1 review
February 25, 2022
Referindo-se à obra do beatnik Jack Kerouac, o seu comparsa, Allen Ginsberg, afirmou, em 1991, o seguinte: “Cada livro de Kerouac é único, um diamante telepático.”. O mesmo posso dizer, quanto a este estranho romance de António Lobo Antunes. "O Arquipélago da Insónia" é o protótipo de uma obra telepática: com uma escrita fragmentada, aplicando a famosa técnica do fluxo de consciência, ao estilo de Faulkner, Proust e Joyce (a divina trindade da prosa modernista), o famoso autor (considerado o maior escritor lusitano da atualidade, ao lado do seu rival falecido, José Saramago) molda, em todas as páginas do livro, o inconsciente coletivo de uma família situada numa herdade no meio rural, parecendo dar sinais de ser no Alentejo ou Ribatejo; porém, Lobo Antunes não estabelece, em qualquer instância do romance, um espaço e um tempo totalmente definidos, levando-nos numa viagem à frente e atrás no tempo (mas que tempo?); quanto ao espaço, dá-nos uma noção geográfica mais concreta: uma herdade, um celeiro, uma serra, uma lagoa, um poço, uma vila habitada por defuntos. Tal noção geográfica impressa no livro, apesar de nos ser dada de uma maneira vaga e onírica, transporta-nos imediatamente para esse ambiente rural, como se estivéssemos lá e pudéssemos respirar o mesmo ar que as personagens respiram. Talvez se tal noção possuísse um cunho mais realista e descritivo, tal teletransporte não se proporcionaria. Assim, se vê a enorme proeza técnica do autor.

Grande porção do livro (as duas primeiras partes) é narrada por um rapaz autista, fazendo-nos debruçar na sua família, constituída por um avô, chefe da família, austero, cruel, que puxa empregadas para a dispensa (- Chega cá) com o intuito de se satisfazer sexualmente, capaz até de engravidar a sua nora (mãe do protagonista) e perpetrar assassínios com o auxílio do seu companheiro de infância, o feitor, que o ajudou a estabelecer a herdade, desde o seu início. Depois temos o seu filho (suposto pai do protagonista) que é totalmente negligenciado pelo seu pai, recebendo insultos (- Idiota) e outro tipo de humilhações e a sua mulher, ex-empregada da herdade que têm dois filhos: o já referido menino doente e outro que, mais tarde, se descobre que se envolve, maritalmente, já em idade adulta, com a paixão de infância de seu irmão, Maria Adelaide; o mais interessante é que, em várias partes do livro, está personagem é dada como falecida, apesar do primeiro capítulo da terceira (e última) parte da obra ser narrado por ela. Sim, é verdade. Este tipo de excentricidades não acabam aqui: prima Hortelinda, outra personagem do romance, tem a função dramática de representar a morte (entornando uma chuva de goivos, sob as vítimas) possui, igualmente, um capítulo, na última secção do livro. A terceira parte é composta por cinco capítulos; cada um deles, além das duas últimas personagens que referi, contém a participação de uma diferente, sendo elas o ajudante do feitor (que se percebe ser o verdadeiro pai do rapaz autista), o pai (filho do patrão) e o filho saudável que encerra a obra.

No Jornal das 9, na SIC Notícias, numa entrevista conduzida por Mário Crespo, Lobo Antunes afirmou, com a sua usual voz velada, referindo-se a O Arquipélago da Insónia: “Tudo se passa numa espécie de sonho, como se o sonho fosse a única realidade possível”. Não existe melhor maneira de definir este livro, pois diria que nunca, na minha vida, li uma obra parecida com esta. É um livro inclassificável. Parece que o autor nos leva ao interior mais recôndito do subconsciente humano, aliás, como referi anteriormente, melhor dizendo, vou reformular: como se essa família de camponeses tivesse uma só mente, ou seja, o inconsciente coletivo dessas três gerações estão estampadas no romance. Todos os medos, traumas, esperanças, sonhos. Como se todas as personagens estivessem, em simultâneo, a fazer psicanálise, deitadas no sofá, interrompendo-se umas às outras, contradizendo-se, suspirando, praguejando. Não é por acaso que o autor de "Os Cus de Judas" tenha exercido psiquiatria, antes de se dedicar profissionalmente à literatura.

A escrita de Lobo Antunes é nervosa, cheia de ideias que se sobrepõem umas às outras, totalmente vanguardista, pós-modernista, pela inovação técnica que se encontra presente em cada parágrafo. Diria, em tom de brincadeira, que o livro é como se tivesse sido escrito de rajada por Marcel Proust, durante uma trip de LSD; é como se fosse "Em Busca do Tempo Perdido" com contornos alucinogénicos, psicadélicos; e, além disso, é claro que se nota fortemente a influência de Faulkner, seu ídolo literário, pela abordagem de temas tão caros ao escritor americano: um deles é o conflito entre membros da mesma família, sendo ela obviamente disfuncional, que permeia totalmente a sua magnum opus, "O Som e a Fúria", tal como o romance em questão; curiosamente, ambas as obras são compostas por uma personagem doente mental: no romance do Prémio Nobel norte-americano, Benjy (narrador do primeiro capítulo) é atrasado mental, enquanto que a personagem principal de "O Arquipélago da Insónia" sofre de autismo; já agora, traço mais uma linha paralela: ambos os livros passam-se em ambiente rural.

O que mais me surpreendeu e agarrou à leitura foi a originalidade da escrita, a coragem de não seguir as regras tradicionais literárias, do quase (ou total) abandono da lógica, sendo todas as conexões entre ideias feitas de uma maneira psicanalítica e surrealista. Por isso, é dificílimo escrever sobre este livro. É uma obra de arte que não é para ser lida: é para ser experienciada. "O Arquipélago da Insónia" não dá explicações, nem oferece soluções. Apenas é, existe. Numa entrevista, António Lobo Antunes revelou o seguinte: “Se a gente quer escrever livros a sério, tem que aspirar ao silêncio e encher os livros de silêncio” e “tirar toda a gordura, reduzir as coisas à pedra de que somos feitos”. Este romance conseguiu tal feito.
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24 reviews2 followers
November 18, 2011
O arquipélago da insónia é o mais recente livro de António Lobo Antunes um dos mais galardoados escritores portugueses e um nome de vulto na literatura nacional e internacional.
Este livro é um exercício literário de enorme alcance e profundidade, fugindo à regra tradicional do género romance, num conjunto articulado, mas por vezes aparentemente anárquico, de conjugação de interjeições e descrições penetrantes e arrebatadoras.
É difícil definir concretamente o objecto desta obra: talvez relate a estória de uma decadente família de latifundiários, onde se reúnem indivíduos únicos e os seus mais intensos e perturbadores pensamentos.
Não conseguimos afirmar peremptoriamente que determinada personagem é o centro da narrativa, mas podemos dizer que esta função é principalmente desempenhada por um dos elementos mais jovens da família, o neto do patriarca que tudo comanda numa postura de extrema rigidez.
A confusão do estilo seguido, faz-nos perder entre as análises metafísicas do comportamento das personagens que nos dá o narrador. Não existe uma estória estruturada, ou sequer a sua aparência.
É um livro extremamente difícil. Será provavelmente o livro mais complicado que tivemos oportunidade de ler até ao momento. Estamos convencidos, que a originalidade (pelo menos para nós) do estilo não conseguirá entusiasmar a grande maioria dos leitores.

Profile Image for Marco Sousa.
26 reviews5 followers
February 20, 2016
"(estou a acabar prima Hortelinda e estou vivo)"

Talvez seja esta a frase que melhor descreve a minha experiência de leitura com o "Arquipélago da Insónia". Estas duas estrelas ficam marcadas pela indecisão. Sendo esta a primeira vez que li António Lobo Antunes, não sei até que ponto fui capaz de compreender este livro. Em parte devido, claro, ao seu singular estilo de escrita, mas também devido aos próprios devaneios, ao facto de não existir um seguimento concreto da história. Deixo o livro com o sentimento de que algo melhor podia ter sido feito com o seu material, isto porque não me identifiquei de todo com a escrita de Lobo Antunes. Sinto que este livro podia ter sido um dos meus preferidos não fosse este jorrar de memórias algo desconectadas, este não-se-saber-exatamente-o-que-se está-a-ler.
Mas nem tudo foi mau, obviamente. Existem certos parágrafos, certas passagens do livro, que considerei magníficos e de uma grande excecionalidade. Daí me custar deixá-lo desta forma.
Esta foi, sem dúvida, a minha leitura mais difícil. Se voltarei a pegar-lhe? Ou a ler Lobo Antunes sequer? Talvez, se um dia me sentir capaz.
Profile Image for Rui Naves.
7 reviews2 followers
June 14, 2021
Uma casa habitada maioritariamente por retratos, o murmúrio pertubador de gerações anteriores, bisavós, trisavós, ad infinitum, a condescendência das mulheres-a-dias que, num grito interior para que as acudam, se refugiam em vão num compartimento secreto onde, num "golpe de canário", o patriarca todo-poderoso as alcança, pratica o coito e se "serve" das mulheres, alguns tiros de caçadeira, os tucanos, os milhafres, mais uma vez o olhar interrogativo dos retratos, a angústia do homem no tempo, tudo condensado num livro que põe as nossas vidas em cada página.
1 review
February 26, 2021
Queria que me ensinassem a ler a obra de Antônio Lobo Antunes.
Lia,não sabendo o que estava a ler.
O entendimento da sua escrita, é cruel para quem, o quer efetivamente entender.
A determinada altura, pensamos...Antònio Lobo Antunes, escreve só para ele.
O que é um paradoxo,uma vez que os edita, logo são livros que querem ser lidos por nós,amantes da literatura.
Sendo assim cheguei á conclusão,(quem sou eu para concluir que assim é..claro que ninguém) a sua escrita é um exemplo de um puzzle de 5000 peças,dependendo do livro do n° de páginas,palavras , frases,baralhadas,que abitualmente deveriam ter uma lógica, e dado o seu factor anacrónico, não têm.
Puzzle criado intencionalmente.
Pois na sua construção de puzzle,há um certo grau de dificuldade de encaixar cada peça (palavras,frases etc.)como e o apanágio do mesmo, no seu devido lugar.
Mas é este o fascínio do mesmo,mas com o afinco,persistência e alguma reseliencia,uma vez que nos perdemos há procura, do melhor sentido.
Mas chegando ás últimas peças
Tudo se encaixa e o prazer de completar,compensa todo o esforço de entendimento.
Será esse o objectivo da literatura de Antònio Lobo Antunes..criar um puzzle literário
Em que no final tudo se encaixa na perfeição..?
Eu um simples autodidata amante de literatura.
Acho que sim....
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for João Miranda.
259 reviews10 followers
November 8, 2016
Foi o primeiro livro para despertar da (in)consciência de não ter lido uma linha de um romande de Lobo Antunes.

Reconhecia uma diferente forma de escrita pelas suas crónicas espalhadas nos media. Não lhe reconhecia uma perspicaz capacidade de me dar uma autêntica porrada cerebral. O enredo, esse, vagueia de trás para a frente, de quando em vez segue para este, outras para oeste. O autor prefere escrever a várias vozes, onde algumas falam mais do que outras. Nem por isso nos ajuda na viagem, nem por isso conseguimos perceber como foi o quotidiano da herdade.

Talvez presos no mundo da imaginação, da vida depois da morte, Lobo Antunes não nos deixa preso ao enredo mas a passagens fabulosas. Por decisão do autor, não foi à primeira tentativa que entrei no seu mundo.
Profile Image for Cristina.
385 reviews105 followers
July 17, 2017
Llevo tiempo buscando un libro como 'La insolación' y por eso me desilusioné al principio porque el estilo caótico se alejaba demasiado. Sin embargo, parte del caos se va ordenando hasta que te enteras (más o menos, echándole imaginación y suponiendo mucho) de quién es quién y qué está pasando. Sobre todo, lo que me ha ganado ha sido encontrarme con un estilo precioso, del nivel de Mercè Rodoreda, con personas que no mueren sino que revientan como perros, y que si enferman le cortan las trenzas para que la sangre no se gaste con ellas.
Profile Image for L.S..
604 reviews57 followers
June 13, 2020
This is not easy to read but is worth it. Antunes seems to be writing in a faulknerian style here, so if you did not get over the first part of "The sound and the fury" do not read this. Not only the style but also the environment described here reminds me of the north american farms, the opened countryside. And the complicated relashionships within a family with many secrets...
Profile Image for María Lourenzo.
15 reviews28 followers
November 5, 2010
Aunque ciertos pasajes de la novela pueden resultar pesados. Lobo Antunes logra un desencarnado retrato de la familia y la naturaleza humana.
Profile Image for Cuando Leo.
74 reviews1 follower
July 4, 2025
Esta es una lectura de todas las estrellas. No de cinco estrellas. Es una lectura de una hasta la cinco. Es un delirio estructurado, un flujo desorientador, una historia que abraza y asfixia, una vida rural con el ruido de la ciudad en la cabeza. No es una lectura que pueda recomendar, pero ojalá tengas la oportunidad de leerla.

Lobo Antunes nos entrega estas palabras desde la voz de un hermano, que es a su vez su otro hermano, su padre, su madre, su abuelo, su abuela, la prima, alguna esposa, algunas criadas. Encontramos la intimidad y la historia de tres generaciones de una familia portuguesa más cercana al presente de lo que pensaríamos. El trauma de relaciones interfamiliares, el miedo, el patriarcado, la salud mental, la muerte, todos los elementos que construyen esta amalgama literaria, que aceptas o rechazas.

El archipiélago del insomio es una de las lecturas más difíciles que he realizado, pero a su vez, una muy rica en experimentar las palabras y la compañía. Esa idea de islas conjuntas, con marullos, erosión, ruido y soledad que son las personas... Permiten que esta obra sea un retrato único de la humanidad, y sus maneras la convierten en una obra magistral.
Profile Image for julucha.
418 reviews10 followers
September 16, 2025
[2008] Acercamiento exigente pero atinado de ruralismo mágico porque es fantasmagórico con una escritura musical y preciosista donde puedes ver y valorar a veces la decisión de António de sacrificar la narración en pos de la bruma y la musicalidad (delícia, portuguesa) aunque como tal fantasmita le veo el defecto de ser casi todo el tiempo bastante confuso.
Profile Image for Luís Henrique Borba.
56 reviews1 follower
July 21, 2021
A linguagem metafórica em seu melhor momento (de novo) a narrar o mundo dos que se forma e dos que estão.
Profile Image for Jesús Alcaide.
88 reviews4 followers
May 6, 2024
Impresionante. Un estilo heredero de Faulkner y una historia que recuerda en ocasiones a Pedro Páramo. La historia de una familia de terratenientes portugueses contada a través de los pensamientos de uno de sus miembros, el cual sufre autismo. Realidad y ficción se entremezclan en la mente del narrador haciendo que no sepamos si todo lo que nos está contando es mentira.
Profile Image for Rui Reis.
36 reviews4 followers
January 22, 2022
A minha primeira leitura, única até ao momento, de António Lobo Antunes. Terei de o fazer mais uma vez para o assimilar pois desconfio que ainda não tenha atingido a maturidade de leitor exigida a quem quiser entrar no mundo de quem, um dia destes, poderá tornar-se no nosso segundo Nobel...
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