3,5*
As pessoas, por vezes, traem a selvageria que transportam na cabeça. Quanto mais velha fica, mais acha que é assim com todos, porque na verdade ser uma velhinha não impede uma pessoa de querer esmagar os painéis dos carros estacionados nos passeios com o guarda-chuva, e arrancar e pisar os telemóveis das pessoas com conversas em voz alta no autocarro.
Este é o terceiro livro de Sarah Moss que leio e, ainda que não me tenha deslumbrado com nenhum, gosto da escrita e dos temas por ela abordados, aprecio a sua perspectiva feminina aplicada tanto ao mundano como a situações mais extremas.
Infelizmente, “Água de Verão” foi assombrada pela péssima tradução/revisão, que me deixou em alerta desde as primeiras páginas e não me deixou usufruir realmente da obra, por desconfiar, justificadamente, de cada palavra. Esse sermão, no entanto, ficará para o final da recensão, pois sei que há pessoas para quem a tradução é uma questão de somenos, para quem o que importa é poder ler em português, tal como há quem não se sinta penalizado por pagar um corte de cabelo feito por um curioso, nem pagar uma refeição preparada por quem está claramente na profissão errada. Eu não gosto de pagar e ser mal servida, logo…
Comecei por ouvir “Água de Verão” em audiobook, mas passagens como esta fizeram-me crer que seria um livro que precisava de ter em formato físico para as marcar.
Agora que começou a levantar-se a meio da noite, prefere acordá-la a mijar que nem um cavalo do que sentar-se como uma mulher uma vez que seja. (…) Irrita, estar ali deitada a ouvir o mijar agressivo de uma pessoa que podia muito bem sentar-se, mas não, porque na sua cabeça a polícia da masculinidade está à coca mesmo a meio da noite, escondida, à espreita pelas janelas.
Sarah Moss consegue aqui juntar dois dos meus maiores pesadelos, férias com chuva e vizinhos barulhentos, neste livro passado num aldeamento turístico da Escócia, onde em cada cabana vive o seu tipo de casal: o jovem sem filhos, o menos jovem com filhos pequenos, o mais velho com filhos adolescentes e o de idosos. Cada capítulo é vivido na mente de um dos habitantes, que vê os membros da sua família da sua perspectiva e também os vizinhos pela janela, para posteriormente ser essa pessoa o alvo das observações dos outros, dando origem a algumas situações caricatas.
Bem, agora não, não penses sobre o Holocausto. Ou qualquer outra atrocidade, o genocídio Europeu não é mais importante do que qualquer outro. A Passagem do Meio. A Revolução Cultural. Os Khmer Vermelhos. Oh meu deus. É bom, diz ele, e ela, hum, o que provavelmente é verdade, ou seria se ela não estivesse a pensar sobre – Don Draper. Não, Josh.
Alguns comentários da autora são pertinentes e até divertidos, no entanto, a existência de tantas personagens permite que se levantem muitas questões, como o Brexit, a imigração, o sexo, o feminismo, o desgaste do casamento, as limitações físicas e intelectuais da velhice, a parentalidade, mas sem o aprofundamento de nenhuma, e no que toca a histórias em que está tudo ligado, já se fez melhor, como no caso de “Turbulência” de David Szalay.
Aparte os violentos e os loucos, casar é como votar que, escolhas o que escolheres, o resultado vai ser na melhor das hipóteses moderadamente satisfatório daí a quatro anos.
Compreendo que em Portugal poucos consigam viver somente da escrita, que para muitos escritores a tradução seja o passo natural e que as editoras aproveitem a prata da casa, mas admito sem problemas o meu preconceito, várias vezes validado ao longo dos anos, para com o percurso escritor-tradutor, ainda que não me cause pruridos o percurso inverso. Como saber o que veio primeiro, o ovo ou a galinha? É fácil saber e perceber, até mesmo pelo resultado final. Se uma pessoa é capaz de pedir um granizado de morango e uns churros na língua original e consegue perceber o enredo de um filme americano sacado da Internet, está automaticamente habilitado a ser tradutor de espanhol e inglês. Não é esse o critério? Parece. Se for autor publicado, pontos extra, domina automaticamente a língua portuguesa. Ou não? Não, por exemplo no caso da escritora que traduziu “Água de Verão” e da respectiva revisora, que se limitou, pelos vistos, a pôr duas ou três notas de rodapé e tudo o resto lhe escapou. Desde “Mediterrânio”, “vão haver”, desaprovar de”, pretéritos imperfeitos em vez de condicionais, trocas de sujeito e de pronomes que alteram o sentido das frases, até traduções disparatadas ou sem adequação à realidade portuguesa (owl/falcão-peregrino; cling film/plástico autocolante; fat-free yoghurt/iogurte sem gordura; deck/convés-numa casa) a tradução constante de “weather” como tempo, o que causa interpretações ambíguas como “os carrinhos eram tão grandes na altura, davam jeito para as compras e eram bons com o tempo (in the weather=chuva), ou seja, pormenores que não matam mas moem.
De quem é a culpa em última instância? Da editora Cultura, obviamente, que embolsa 17,5 € por exemplar. Se quiserem muito conhecer Sarah Moss e souberem inglês, não se aborreçam, leiam o original e ainda poupam uns cobres.