Confesso que, nas minhas leituras, dou sempre prioridade a narrativas mais profundas, aquelas nas quais tento sempre apropriar-me de algo que me poderá fazer evoluir enquanto ser humano, ou aquelas que, de alguma forma, confirmam a minha forma de estar na vida, as minhas expectativas, os meus receios, os dramas que nos atingem a todos e sobretudo, aquelas que nos apontam um caminho para nos tomarmos melhores seres, mais empáticos, mais solidários, mais compreensivos com toda a diversidade que este mundo é composto.
Mas não estaria a ser sincera se não dissesse que também aprecio um bom thriller psicológico, daquele que nos fazem refletir sobre a condição humana, os seus problemas, as suas dúvidas, sobre os caminhos inóspitos pelos quais a nossa psique se atreve a percorrer.
Sem qualquer tipo de referencia, apostei na leitura de “O Olhar que me Persegue” sem ter tido qualquer tipo de recomendação ou dica, apenas aquilo que a sinopse me proporcionava. E, sem hesitar, entreguei-me e acabei por me envolver nesta extraordinária narrativa. Creio que um livro é algo que se pode aproximar ao encontro com alguém, ao desejo, à paixão atingindo depois o estado pleno de um amor incondicional; primeiro, vamos avaliando se há afinidades, o que poderemos dar e receber a/dessa pessoa, o que nos transmite, que tipo de aprendizagem nos proporciona, se poderemos crescer e/ou evoluir na sua presença. Que tipo de herança nos trará? Como todas as relações amorosas, um determinado livro poderá nos proporcionar uma atenção especial.
Apropriamo-nos da história fictícia de Sigurd e Sara, jovem casal que vive nos arredores de Oslo, mantendo uma vivência burguesa nos seus propósitos profissionais, pessoais e emocionais.
Estive a ler algumas reviews sobre este livro e a conclusão que cheguei é que, a maior parte dos leitores, não partilha da minha admiração, mas isso nada significa pois aquilo que uma narrativa nos permite absorver terá sempre a ver com a nossa formação, educação, experiências e perspetivas de vida, fragilidades, impotências, desilusões e ilusões, características essas muito próprias do ser humano e vividas de forma diferente (sem qualquer uma delas estar errada) em cada um de nós.
Mas voltando a narrativa, creio que “O Olhar que me Persegue”, consistiu num dos livros, dentro do género, mais interessantes que li ultimamente. Como anteriormente referi, prefiro narrativas mais complexas, mais densas, aquelas que ou trazem alguma magia nos seus propósitos ou aquelas que fornecem pistas para os nossos desideratos quer pessoais, quer ao nível do conhecimento global das mais diversas e diversificadas realidades, sejam elas culturais, sociais ou politicas.
Ainda assim, Helene Flood consegue atrair-nos para uma realidade prenhe de receios, medos, interpelações pessoais sobre, no meu entender, as características da mulher. Por vários momentos, pude compreender que, na maior parte dos casos, apenas nós as mulheres conseguem penetrar nas consequências do livre arbítrio, nas probabilidades de situações que se transmutam em factos apenas nas nossas mentes. Creio consistir numa das mais valias desta narrativa.
Por outro lado, também nos revela situações que, não sendo normais na idade da protagonista, nos fazem confirmar algo que mais tarde, sempre acontece: “Toda a gente quer ser amada e respeitada, é próprio do ser humano. Mas pior do que sermos odiados, é sermos invisíveis. Não sermos vistos como a pessoa que queremos ser, OK, isso é uma coisa, mas não vermos a nossa própria existência reconhecida? Se gritarmos na floresta e ninguém reagir será que chegamos mesmo a gritar?”. Como poderemos reagir à indiferença, à falta de honestidade daqueles que se mostram invisuais à nossa existência? Essa é uma das particularidades mais notáveis deste livro. “Parece que deixaste de te importar comigo. Sinto que sou apenas um objeto de decoração que precisas de ter nesta casa para conseguires viver (…). Falamos sobre o facto de eu me sentir sozinha. De o Sigurd saber disso, mas não ter energia para fazer nada a esse respeito”. E porque não? Creio que esta pergunta está no cerne de toda a narrativa. Sabemos que todas as ações têm uma reação e se juntarmos crenças inalienáveis, teremos a resposta para o crime que foi cometido.
“O Olhar que me Persegue” nada tem de banal, ou vulgar, ou prosaico. Muito pelo contrário. Trata-se de uma narrativa que nos envolve, que nos apresenta um final imprevisível, e que permite, ao longo do enredo, sentirmo-nos remetidos para situações de proximidade, de existência espiritual gregária naquilo que mais nos importa nas suas mais diversas aceções.
Uma nota para a prosa: Excelente!!