Apreciação final: seca absolutamente monstruosa.
Este foi dos livros mais complicados de começar que já tive oportunidade de encontrar. Sem exagerar, devo ter começado a lê-lo umas dez vezes até conseguir ter coragem para dar continuidade à leitura. E porquê? Porque há muito tempo que não lia um início tão aborrecido, extenso e sem noção de direção.
Desde miúda que sou fixada em mitologia egípcia em tudo o que a isso se relaciona, ou seja, eu estava com algumas expectativas quanto a esta obra. O que se segue, no entanto, é a minha mais sincera e triste opinião.
A história foca-se no reinado de Neferkara Pepi (Pepi II), cujo reinado durou 94 anos, o que o torna um dos monarcas que mais tempo permaneceram no trono (senão mesmo o que mais tempo permaneceu).
Tendo isto em conta, seria de esperar uma história sólida, recheada de acontecimentos relevantes e bem narrados, como merecia. É o que acontece? Não.
Infelizmente, as cenas que dominam a obra são corriqueiras e muitas vezes não ajudam em nada o avanço da narrativa. Para agravar a situação, o tom com que a história nos é apresentada torna difícil a sua leitura, e os diálogos sempre hiper-formais e demasiadamente extensos não fazem outra coisa senão deixar o leitor aborrecido e com vontade de saltar páginas (eu não saltei páginas, mas admito que saltei parágrafos). O tom formal pode ser apresentado numa obra sem deixar de provocar interesse e curiosidade da parte do leitor, desde que bem aplicado. A expressão "bem aplicado" é exatamente o que falta a esta obra a vários níveis.
Passo a indicar alguns dos problemas maiores que fui encontrando:
- Personagens retratadas e apresentadas de uma maneira tão simplista e óbvia que aparentam ser pensadas para um público-alvo entre os 10 e os 16 anos (juro, algumas das personagens só faltava o autor dizer que tinham olhos vermelhos e um sorriso esquisito enquanto esfregavam as mãos com ar maléfico para o seu caráter ser ainda mais óbvio, se é que é possível) - o que torna ainda mais bizarro o facto de se juntar isso com um tipo de discurso tão formal;
- Páginas e páginas de discussões do sexo dos anjos entre personagens que não interessam (e bem recheadinhas do muito abusado discurso hiper-formal);
- Introdução de personagens que são realmente bem apresentadas e que parece que vão realmente ser importantes e ter um papel ativo na trama apenas para umas páginas depois (por vezes, parágrafos depois) desaparecerem bruscamente e não se voltarem a falar delas (especialmente algumas personagens femininas);
- Descrições demasiado extensas e sem ponta de interesse ou finalidade específica;
- Saltos temporais de anos de um parágrafo para o seguinte (muitas vezes o leitor só se apercebe devido a pequenos indícios, como uma nova esposa do rei que de repente aparece);
- Cenas que suponho serviriam como alívio da tensão principal, não conseguem atingir esse objetivo já que apenas conseguem exasperar o leitor;
- Cenas místicas/mágicas/de calmaria não conseguem também atingir o objetivo proposto. Nada no texto nos faz sentir a solenidade mágica que seria suposto em algumas situações-chave (exceto, talvez, uma pequenina cena perto do fim), o que é logo meio caminho andado para me fazer desligar do livro.
Esta obra tem imenso potencial desperdiçado, o que me enerva e quase ofende a título pessoal. Um livro sobre o Antigo Egipto, com tantos rituais descritos ao longo das 258 páginas, com tanta alusão a deuses e deusas, com conflitos e mortes a nascerem de feitiços e mezinhas falhadas, deveria ser capaz de, pelo menos, conseguir passar para o leitor alguma da sua solenidade e presença mágica. E já nem falo no interesse que o próprio enredo deveria ser capaz de proporcionar.
Que desperdício.