Entre anjos e demônios, eu torci pelo caos.
Anjos guerreiros, demônios sedentos e um Brasil que finalmente serve de palco pra coisas mais interessantes que golpes de estado e novela ruim. André Vianco pega tudo o que você achava que sabia sobre céu e inferno e encharca com gasolina. Daí ele risca um fósforo, sorri, e joga em cima. O resultado disso? Uma fantasia urbana e sombria, suja e deliciosa que te faz torcer pelo capeta e amaldiçoar o abençoado.
Quase tudo funciona. A história começa com um clima de "olha, mais um livro de anjo", e do neida você está enfiado em uma batalha celeste com direito a troca de tiro, sem saber se reza ou pega a pipoca (botem o meme do Michael Jackson aqui). O equilíbrio entre ação, mitologia e blasfêmia bem dirigida é quase pornográfica de tão bom. As cenas de ação são fantásticas (literalmente), você consegue se imaginar participando de cada uma das batalhas. O fato de utilizar o Brasil como pano de fundo para uma história de fantasia urbana tão detalhada e profunda é o passo mais audacioso do autor.
Nem se eu fosse obrigado a apontar algo que não gostei eu seria capaz. Mas posso dizer que Gregório é um receptáculo ótimo, mas em certos momentos parece que ele perde o protagonismo para a própria batalha.
Nada aqui é preto no branco, e isso é maravilhoso, os personagens passam por culpa, fé, sede de redenção e puro instinto de sobrevivência. Ninguém, nem mesmo os anjos, está 100% certo ou errado, com destaque para a batalha entre o sagrado e o mundano dentro de um mesmo corpo. A fusão de Thal e Gregório é a metáfora perfeita pra dualidade ferrada do ser humano.
André Vianco escreve como nenhum outro escritor que eu conheça, sua escrita é rápida, brasileiríssima e mística. Com esse livro ele te mostra que não é somente um mestre em escrever livros, e sim, em contar histórias. E mesmo nos momentos mais viajados da trama, a escrita consegue segurar firme o leitor e arrastá-lo até o término.
No final, você não sai ileso. Não porque chorou (talvez seja difícil, mas não impossível), mas porque foi marcado com uma reflexão incomoda: E se o bom e o mal foram só os lados de uma mesma moeda? Vianco planta essa dúvida no leitor como dinamite, e no último capítulo, ela explode bonito.
★★★★★ 5 estrelas — Uma fantasia urbana sobrenatural que faz qualquer outra guerra parecer briga de condomínio entre arcanjos aposentados.