Antes dos tratados, antes das capitanias hereditárias e da catequese, o Brasil nasceu no improviso – e no crime. É essa a tese central de Náufragos, Traficantes e Degredados, de Eduardo Bueno, um livro-reportagem que revisita o início da colonização portuguesa com ironia, ritmo ágil e faro de detetive historiador.
Bueno reescreve a narrativa oficial do “descobrimento”, mostrando que os primeiros que pisaram em solo brasileiro não foram heróis civilizadores, mas aventureiros, degredados, contrabandistas de pau-brasil e náufragos à margem do império. Enquanto a historiografia tradicional consagra a chegada de Cabral em 1500 como um marco fundacional e civilizatório, Bueno mostra que já havia portugueses por aqui antes – e por meios bem menos nobres.
O autor também desnuda a hipocrisia de um Portugal católico que expulsava hereges e criminosos da metrópole para fundar uma colônia explorada com o uso de mão de obra indígena escravizada e depois africana. A corrupção, o tráfico, a violência e o improviso se tornaram os pilares de uma formação social profundamente desigual, o que lança luz sobre muitos vícios estruturais do Brasil contemporâneo.
Apesar do tom provocador e quase cinematográfico, o livro se baseia em documentação sólida, embora sua leveza narrativa possa passar a sensação de irreverência excessiva. Ainda assim, cumpre bem o papel de retirar o verniz da epopeia lusa para revelar o Brasil real: um país que começa não com uma missa, mas com o contrabando.
Conclusão: Náufragos, Traficantes e Degredados é um soco histórico bem-humorado na mitologia da fundação nacional. Ao expor o Brasil como fruto da informalidade e da transgressão, Eduardo Bueno nos ajuda a entender não apenas o passado, mas o presente de uma nação que desde o começo se equilibra entre a ordem e a malandragem.