Conheci a Susana na apresentação do seu último livro, “Inquieta”. Gostei tanto deste livro! Claro que a vontade de conhecer os livros anteriores, principalmente este “Bairro das Cruzes”, era enorme. Só agora foi possível, quando a Susana, que além de escrever muito bem é muito querida, me enviou esta nova edição.
Já sabia que este não tinha muito que ver com o “Inquieta”… pensei que, sendo anterior, encontraria uma escrita menos envolvente. Como me enganei! A Susana tem a capacidade de nos prender, logo nas primeiras páginas, em histórias que parecem tão simples mas se revelam cheias de surpresas, histórias que se cruzam com as histórias que podiam ser as nossas, mas que, por isso mesmo, acabam por nos dizer tanto. E é mestre nos finais inesperados!
Começamos esta viagem na atualidade e mergulhamos na história de Luísa, uma miúda cheia de garra, de determinação e de sonhos. Vamos até ao Bairro das Cruzes e aí ficamos, até às últimas páginas. E não queremos sair! Eu não cresci num bairro como este, mas identifiquei-me tanto com a Luísa Baliza: a maria-rapaz, a miúda que tinha ideias, a menina cheia de sonhos e projetos. A Luísa queria voar, mas as raízes tão fortes trouxeram-na sempre de regresso ao bairro, às suas origens, à família… sempre a par com Rosa, a prima da mesma idade, uma criança problemática e depois uma mulher sem grande caráter, desequilibrada, inconsequente e com comportamentos inexplicáveis. Duas primas tão diferentes mas inseparáveis, porque os laços de sangue nem sempre se explicam. Fui acompanhado avidamente o crescimento destas miúdas tão peculiares, sempre à espera de que algum acontecimento fosse a gota que faltava para quebrar aquela relação… mas a Susana conseguiu surpreender-me com o final, que não foi nenhum dos que fui traçando durante a leitura. Tal como no livro anterior, a Susana consegue fazer-nos gostar das personagens mais “bruxas”, por mais questionáveis que sejam as suas atitudes. Há sempre “um motivo para serem más”, disse-me a Susana.
Luísa e Rosa crescem durante o Estado Novo: sentiram o terror da PIDE, assistiram às atrocidades de que foram alvo os presos políticos, foram testemunha da luta dos que se opunham ao sistema e viveram a alegria da liberdade do 25 de Abril. É visível o trabalho de pesquisa da autora, que nos consegue transportar para essa altura tão importante da nossa história sem nos dar a sensação de que estamos a ler passagens de um livro de História de Portugal. Tudo flui naturalmente a par dos acontecimentos da vida das protagonistas: duas raparigas de uma família com poucos recursos, numa época sem liberdade em que o destino mais provável para Luísa era continuar a lavar cabeças e fazer permanentes no salão de cabeleireira onde já trabalhava para ajudar no sustento da família.
Já tinha percebido no livro anterior que a escrita da Susana é cuidada, expressiva, envolvente, e este livro vem provar isso mesmo. Nota-se o cuidado na construção das personagens, tão iguais a qualquer um, com defeitos e sonhos. A narrativa é cheia de realidade, com doses iguais de emotividade e delicadeza, ainda que as perdas e as relações familiares complexas sejam o mote principal. Gostei bastante da história destas miúdas, da relação tão especial da Luísa com o avô, da cumplicidade com o seu amigo homossexual Manel, e de como estas vidas se entrelaçam com a lenda do Bairro das Cruzes. Por isso, é fácil ficar agarrado a elas… sei que a Luísa, o avô Zé, o Manel ( e até a Rosa) vão ficar comigo!