Em O natimorto , publicado originalmente em 2004, a narrativa em primeira pessoa, entremeada por diálogos que lembram uma peça de teatro, atira o leitor no abismo da consciência de um homem em crise, que interpreta as fotografias antifumo dos maços de cigarros como se fossem cartas de tarô. Um casamento infeliz, a impotência sexual e a obsessøo por pureza levam o protagonista a buscar uma mudança de vida radical. A oportunidade surge quando ele encontra uma cantora cuja voz é tøo pura que ninguém escuta e inicia com ela um relacionamento feito de carinho e incerteza, seduçøo e dependência. Ele está disposto a se trancar para sempre num quarto de hotel com a mulher que ele mal conhece; mas ela ainda aspira a seguir uma carreira no mundo impuro ao qual ele decidiu renunciar. O livro O natimorto foi adaptado para o cinema por Paulo Machline, com Mutarelli e Simone Spoladore no papel do casal.
Não chega a ser um pensamento, é como um flash, é como luz. Clarões rápidos, intensos. Não chega a ter forma ou imagem. Tudo se mistura, tudo se confunde. Procuro, em vão, decifrar os padrões. Tomo o último gole de vinho. Apiedo-me da imagem do espelho. Apago o último cigarro aguardando a sorte mudar.
4,5 Peça de teatro, romance, poesia, roteiro de filme... ou tudo isso? Mutarelli é um dos autores brasileiros mais inventivos que já li. Escrita crua, direta. Porém, livro denso cheio de camadas e metáforas. Nada está ali por acaso, as referências devem ser absorvidas não apenas na periferia do romance, mas como sua espinha dorsal. Símbolos e significados para dar sentido a vida de um sujeito transtornado que vai se reconhecendo ao longo do processo de fechamento em si mesmo e abandono do mundo real. O 'não lugar' como área nebulosa, um limbo. Processo mórbido, desconfortável e agonizante. Uma representação bem contemporânea do caminho que o homem medíocre e ressentido desse início de século pode trilhar.
Mais uma aventura no mundo da leitura dinâmica do Guilherme. Fui no restaurante vegano. Enquanto esperava meu prato, peguei este livro do acervo deles disponível para os clientes. Li até a página 64 enquanto esperava o almoço e acabei de ler quando acabei o almoço. É um livro bastante interessante, numa prosa enxuta, que pode ser tanto prosa, como poesia, como um roteiro de teatro ou audiovisual (e até de quadrinhos). O que eu mais gostei é como os cigarros se tornam personagens da história e como os personagens comparam as imagens nas carteiras de cigarro (como um bebê natimorto) com os arcanos maiores de tarô. O personagem principal acredita que é possível ler o futuro, como nas cartas de tarô, nas fotos das carteiras de cigarro. Todos os personagens do livro fumam. Todos eles t~em vida, mas não tem. Todos são natimortos apoiados no vício do cigarro no qual descontam suas frustrações, anseios, inseguranças e até desejos sexuais. O protagonista aposta na leitura dos "arcanos" nas carteiras, quando eles só querem dizer a mesma coisa para ele e para todos os personagens de O Natimorto: pare de fumar e vá viver a vida!
Estou absolutamente viciado na escrita do Mutarelli. O jeito dele de contar histórias está me prendendo cada vez mais em cada livro. Já estou em busca da próxima leitura.
Segundo livro de Mutarelli que leio. Gosto bastante do seu jeito de contar histórias, estas sempre com ideias bem interessantes. O Natimorto não foge a regra. O Agente e a Voz da Pureza são personagens intrigantes, que vão ficar marcados na memória.
"O maestro. Com ele minha antiga mulher se deitou. Muitas vezes. O maestro gostava de fazer sua boca transbordar de esperma. Sexo, até os ratos praticam. Moscas fornicam. Vermes fodem. Eu sei porque ela me contou. Ela disse que não seria digno esconder de mim. Ela disse que não poderia mentir pra mim. Ela disse também que não pôde evitar. Foi mais forte. Eu fingi assimilar o golpe. Menti que a compreendia. Então decidi ser mais forte do que o sexo. Sexo, até as baratas fazem. Sexo é o que a Voz deve estar calando agora. Se eu pudesse trancar a porta. Quem me dera ter a sorte do Natimorto. Tudo teria passado".
Lourenço Mutarelli segue se mostrando, no mundo literário, tão genial quanto foi enquanto se dedicou aos quadrinhos. Em "O Natimorto", o autor nos traz, tal qual em "O cheiro do ralo", personagens sem nome, situações e diálogos que flutuam entre o fascinante e perturbador, e uma experiência de leitura, no mínimo, marcante. Tudo isso através de uma escrita muito particular. Ainda devo levar um tempo digerindo os diálogos entre "O Agente" e "A voz", e a relação entre as imagens chocantes dos maços de cigarro e as cartas de tarô. Ainda assim, não vejo a hora de abrir mais um livro do genial Mutarelli.
Este autor sobe cada vez mais na minha tabela de favoritos. Fantástico livro, captante e empolgante, faz nos sentir o sufoco do isolamento e a ansiedade nas situação mais tensas. E claro como é característico deste autor, um grande final com uma conexão de pontos contados previamente de forma a criar um círculo completo e um verdadeiro plot twist.
Lourenço é realmente um autor que me pega demais. Usando o tarot para compor a história em diversas camadas, ele consegue mais do que fechar um ciclo, abrir uma nova dimensão. Lemniscata.
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Lourenço est en effet un auteur qui me captive. En utilisant le tarot pour composer son histoire à plusieurs niveaux, il fait plus que fermer une boucle, il ouvre une nouvelle dimension. Lemniscate.
Só Mutarelli sabe escrever quadrinhos sem quadrinhos tão inteligentes e contundentes. Leitura rápida, muito rápida. Basicamente dois personagens com uma coadjuvante direta (que figura na história por tempo limitadíssimo) e mais dois indiretos. Um agente artístico e sua musa; um casamento em ruínas; idéias no limite do exagero; misticismos desbaratados. Minha única decepção é que eu queria mais.
Pensamentos e reflexões diante dos relacionamentos de um estudo dos arcanos, essa é tônica do livro. Vi uma jornada do personagem por meio da história dos arcanos maiores do Tarô. O autoconhecimento do protagonista é construído com todo os caminhos simbólicos do tarô. O nati(morto), é um caminho circular infinito de si, porém fluído!
Perturbadamente poético, o livro me pareceu um relato da loucura ou daquilo que o ser humano esconde no mais profundo de seus pensamentos. O Agente vai revelando sua natureza aos poucos para o leitor e o final nos traz um sentido para os elementos do grotesco que permeiam a história.
Lourenço Mutarelli é mais conhecido pelo "O Cheiro do Ralo" -- embora esse "Natimorto" também tenha virado filme (eu não sabia, pra variar). Ler custa só uma tarde, muito bem recompensada. Muito bom.