Não se é considerado um clássico só porque sim. Estamos perante um grande livro, ponto!
Scarlett, Scarlett, que rico embuste me saíste.
Tivemos que levar com esta personagem principal, tão bela por fora como tumefacta por dentro. Apesar de bajulada, mimada, idolatrada consegue ser insanamente fria, seca, destituída de sentimentos, generosidade ou sensibilidade. Tive que ler cerca de 600 páginas (600!) para sentir alguma empatia por ela.
Esta razão só engrandece mais a autora que corajosamente coloca como protagonista uma personagem difícil de engolir. Em boa verdade, todas as personagens, quer se goste ou não, são o que são, numa verdade nua e crua.
Scarlett tinha o mau génio irlandês de Gerald deixando-se arrebatar pelas emoções e uma enganadora doçura do rosto que tinha herdado de Ellen. Tremendamente leviana na sua forma de agir, presunçosa, egoista e obstinada. Duma ignorância patética, tinha cabeça somente para usar adereços ou chapéus, e a sagacidade era apenas para as frivolidades mundanas (até a sua sobrevivência depender das suas acções).
Ellen, a matriarca, o pilar da família, dos criados, a benfeitora da comunidade, altruísta e tolerante.
"A vida de Ellen não era fácil, nem sequer era uma vida feliz, contudo, ela não esperava que a sua vida fosse fácil, e, se não era uma vida feliz, tal era o destino da mulher. O mundo fora feito para os homens, e ela aceitava-o como tal. O dono da propriedade era o homem, e competia à mulher governá-la. O homem colhia os louros desse governo, e a mulher louvava a inteligência dele. O homem bramia como um touro quando feria o dedo com uma farpa, ao passo que a mulher abafava os gemidos do parto para não viesse a perturbá-lo."
Capitão Butler é um postal. Cínico, mas verdadeiro, oportunista até ao tutano mas sensível à essência bondosa de quem encontra pelo caminho, assertivo, sem subterfúgios e absolutamente sem rodeios a atacar os podres da sociedade aristocrática e hipócrita.
"Não conseguia resistir a dar umas alfinetadas à presunção, à hipocrisia e ao aparatoso patriotismo das pessoas que o rodeavam (…). Era com muito espírito que ele rebaixava o pomposo e punha a nu o ignorante e o fanático, além de que o fazia com grande subtileza, arrancando verdades das suas vítimas através de um aparente interesse movido pela cortesia, de forma que elas nunca se apercebessem realmente do que tinha acontecido até ao momento em que se encontravam já expostas como figuras empoladas, jactantes e ligeiramente ridículas."
Lia ansiosamente os momentos entre Scarlett e Butler, farinha do mesmo saco, como este último dizia; situações amplas de tensões, cinismos e humor.
"«Meu caro», disse ela, «você não é de todo um cavalheiro!»
«Uma observação acertada», respondeu ele descontraído. «E você, menina, não é de todo uma senhora. (…) Não se pode continuar a ser uma senhora depois de se ter dito e feito aquilo que eu acabei de ouvir por mero acaso. Ainda assim, só raras vezes pude descobrir algum encanto nas senhoras. Eu sei o que lhes passa pela cabeça, mas elas nunca têm a coragem ou a má-criação necessárias para dizerem aquilo que pensam. E com o passar do tempo, acaba por ser aborrecido. Mas, a minha querida menina O’Hara, a menina é uma rapariga com um espírito raro, um espírito deveras admirável, e eu tiro o chapéu à sua pessoa.»" (O episódio de Scarlett e Ashley na biblioteca seguido do intruso Butler: uma delícia, entre outros)
Melanie é de uma sinceridade e generosidade a toda à prova, uma senhora digna desse nome, tal como Ashley um cavalheiro em toda a sua essência, leal, honrado, íntegro.
Mammy a escrava fiel que não se deixa lograr em situação alguma, sempre muito atenta aos seus amos para quem vive literalmente.
Em suma, existe um leque delicioso de personagens que a dado momento são confrontados com a chamada Guerra Civil Norte-Americana, e que tal como todas as guerras, não deixa de ser absurdamente inútil, dolorosamente cruel, despojando de tudo e a todos.
Uma história poderosa, muito bem contada, que anseio prosseguir de imediato!
Já me apropriei do segundo volume, em breve falaremos novamente.