CANTIGAS NO ESCURO – VÁRIAS AUTORAS
Nota: 3.5 estrelas
1. Diga adeus e vá-se embora - Jana Bianchi
Nota: 4 estrelas
"A criatura em posse dele o fazia andar de um lado pro outro dentro do círculo de sal. Era até engraçado pensar que a criatura inexplicável tivesse tanto repúdio por algo tão banal quanto o sal. Os antigos sabiam muito bem das coisas."
Este conto poderia muito bem virar um curta, e eu assistiria.
A historia é contada em terceira pessoa - e acho que todas - de um grupo de primos: Anita, a mais velha e com um filho; Murilo e Raissa, ambos com 15 anos; Lara, a mais nova, uma garotinha deficiente auditiva. O ponto de partida da história começa com a Lara presa num baú, que era para ser uma tentativa de assustar Murilo para o curto que eles estavam gravando, mas depois do incidente, eles pararam de filmar.
Quando estavam retornando para a casa dos avôs, Murilo tropeça em alguma coisa, não contente em deixar para lá e ir embora, o garoto começa a cavar e acha uma caixa dentro de um buraco com uma sigla e uma data. Não satisfeitos, os primos tentam abrir a caixa ali mesmo, então o conto começa a tomar um rumo totalmente diferente, porque a história passa a girar em torno da caixa e descobrir o que tem dentro dela.
Por um momento cheguei a pensar, "o que esta acontecendo aqui?", mas então aparece um garoto chamado Tuco, tratado pelos primos como o filho do caseiro, e então a história começa a tomar um rumo mais interessante. O garoto logo se enturma com os grupo de primos, passa a participar da filmagem do curta, brinca com eles, só que chega num momento que ele tenta abrir a caixa, e consegue.
Quando estava lendo, eu podia perfeitamente ver esse conto como curta, porque a história de prende até você descobrir o que tem de estranho nela. Tem uma boa ambientação, a Jana consegue nos transportar para o cenário num curtíssimo tempo, como se você estivesse lendo um lindo, não um conto.
O sub-plot da febre do menino foi legal e caiu super bem na história, não sendo algo totalmente aleatório jogado ali só para ter uma base e criar uma coisa sem sentindo.
2. Na beira do rio - Iris Figueiredo
Nota: 3 estrelas
"E se um dia alguém que amasse desaparecesse de repente e Maria nunca mais tivesse notícias sobre seu paradeiro? Era pior do que a morte e pior do que uma separação forçada, porque sempre haveria a expectativa do reencontro. Sempre existiria a esperança. E às vezes era uma droga essa história da esperança ser a última que morre."
Os pais de Maria se separaram, desde então ela mora com mãe e o irmão mais novo. Não aguentando ficar mais dentro de casa aguentando os gritos de raiva do irmão e as crises da mãe, Maria não pensa duas vezes antes de aceitar o convite de Tereza, sua melhor amiga, para passar um final de semana no sítio da avó da amiga.
Logo no começo, Iris Figueiredo conta logo como a vida de Maria ficou conturbada depois dos divórcio dos pais. A mãe fica estressada o tempo todo, o irmão mais novo faz maior briga toda vez que o nome do pai é mencionado em alguma conversa, ainda tem a diminuição na renda da família, fazendo a mãe repensar nas dispensas com os filhos.
Então para salvar a semana de Maria, a menina recebe um convite da amiga parar passar uns dias com ela no sítio que pertence a avó amiga; e Maria aceita.
Maria é bissexual e não lida muito bem com os sentimentos que nutre pela amiga, o que eu gostei, porque representatividade nunca é demais. Porém o outro assunto importante - na minha opinião - não foi muito bem retratado, que é o sonambulismo.
Um episódio de sonambulismo é o que conduz a história de Maria depois que ela chega no sítio, porque depois que ela ouve a historia de uma garota Morena ter desaparecido na beira do rio, a menina começa a ter pesadelos.
Pois bem, eu pesquisei sobre sonambulismo antes de escrever essa resenha, porque não quero ser idiota de escrever algo sem noção alguma coisa. Nessa pesquisa descobri muitos fatores que levam uma pessoa - muita vezes adolescentes - a terem pelo menos um episódio de sonambulismo na vida, dentre eles: ficar sem dormir por longos períodos e mudanças na rotina do sono.
Eu já tive vários episódios de sonambulismo, o pior foi quando sair de casa e fui para a parada de ônibus que ficava perto da minha antiga casa. Bom, é o que a minha mãe conta, pois não lembro de nada.
Quem tem um episódio de sonambulismo sabe que não vai lembrar de nada se tiver feito alguma coisa nesse tempo que a nossa consciência está inativa, mas as nossas funções motoras estão em perfeitas condições.
Aqui no conto, tudo é bem diferente e mal explicado. Eu não sabia se a Maria estava tendo um episódio de sonambulismo ou se ela estava enfeitiçada pelo fantasma, porque a Iris descreve que a Maria sabe o que está fazendo, mas que não tem forças o suficiente para se controlar. Errado. Se a nossa consciência está inativa durante um episódio de sonambulismo, como a Maria estava percebendo o que acontecia com ela? E depois ela lembra de tudo, o que também é errado.
Posso está sendo chato porque é um história sobrenatural e não tem a obrigação de retratar a vida real, mas…
Ah, e a Maria encontrar os ossos não colou comigo, até a própria personagem se questiona isso. Por que justo ela? Também não sei.
3. Juro que te amo - Solaine Chioro
Nota: 5 estrelas
FAVORITO
"Mais uma vez estava hipnotizada por aquela criatura. O ornamento continuava do mesmo jeito que me lembrava, exceto pelas marcas do tempo e o limo que o cobria, mas ainda era lindo. A mesma imagem do anjo mais amedrontadora que eu já havia visto."
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
Juro que amei esse conto!
Luciana e Leonora são irmãs, e em como qualquer relação de irmãs/irmãos sempre há brigas, desentendimentos, caras feias aqui e ali. No começo da história, as duas estão questionando se a irmã mais nova (Luciana) vai voltar sozinha ou com as amigas da festa de um garoto, mas a irmã velha (Leonora) se voluntaria para buscar a irmã depois da festa, que é bem aceito por Lu.
Pelo fato do conto ser contando em primeira pessoa, a gente se conecta mais com a personagem, deixando a gente saber dos seus medos e inseguranças, o que é bom. Para mim tanto faz se a história é contada na primeira ou terceira pessoa, porém Juro que Te Amo, foi essencial ser contando em primeira pessoa para sabermos como a personagem se sentiu depois do que aconteceu no final.
Aquele final!!!!!!!! 10/10.
O conto é perfeito do começo ao fim.
É uma história suave, mas bem aterrorizante, tornando um dos melhores contos até agora. Tem mistério, drama. É muito bom!
Se eu contar tudo o que acontece aqui (eu queria muito, mas me segurei), eu teria que colocar um aviso de spoiler aqui porque não tem como falar deste conto sem mencionar o trabalho, a escrita maravilhoso da Chioro ao descrever o ser sobrenatural que é essencial da história.
4. Escamas de Espinhos - Gabriela Martins
Nota: 4 estrelas
"Se ela fosse um dragão, as coisas seriam mais fáceis. Ser a princesa era cansativo."
Tábita conhece seu príncipe na fila de um bar, mas descobre que o seu príncipe não é digno do seu amor. Eis aqui uma história de príncipe e um dragão e, no final, o dragão sai vencedor, se libertando das correntes que o prendem.
Esse conto é um soco no estômago, com uma história triste, mas como uma escrita linda, usando o elemento se realismo mágico. A prosa da autora é uma das mais lindas nessa antologia, tornando um conto simples, porém abordando um assunto importante: o relacionamento abusivo.
A Gabriela escreve uma história que muitas mulheres sofrem não só no Brasil, mas no mundo todo. Ela faz a gente sentir uma empatia enorme com personagem, querendo a proteger do cara que é abusivo.
Esse é um mal de qualquer ser humano achar que uma pessoa com um rosto bonito é cheia de boas intenções. Mas isso não é verde. Muitas vezes, o cara tem o rosto bonito, mas trás consigo uma faceta que ninguém conhece até se envolver com ele.
Eu fiquei igual a Tabita, com um nó na garganta pelo o que ela estava passando, sendo humilha e tratada como um objeto apenas para satisfazer um cara.
O final do conto é tão lindo, mostrando que às vezes o príncipes são os vilões das histórias.
5. Dourado - Emily de Moura
Nota: 2 estrelas
Eu nunca dei muita atenção pra histórias ou filmes de romance. A coisa toda sempre me pareceu meio exagerada."
Não gostei muito desse conto. Não achei a história tão boa como as quatros primeiras. Não sei se a autora estava mais preocupada em contar sobre a quedinha que a Beca tinha pela Nadine ou sobre a perseguição do corpo-seco atrás delas.
Não é ruim, mas não é aquela história que te prende querendo saber mais.
A origem dos corpos-secos foi até bem explicada, porém parecia que estava lendo uma história sobre um zumbi. A autora só mudou o nome do ser.
Não vi nada demais neste conto, nem mesmo o quase romance.
6. Algo teu - Laura Pohl
Nota: 3.5 estrelas
"Não se deve pegar coisas que não são suas."
Marília, ou Lia, como prefere ser chamada, é a esquisitona e solitária garota do segundo ano que decide ir à festa de Guilherme enquanto os pais dele estão fora. Nessa festa, rola a brincadeira de Verdade e Desafio. Então quando a garrafa para na Lia, ela é desafiada por Renato, seu nêmeses, a ir numa cabana onde tem um plantio de batatas, e trazer uma batata como prova que esteve lá.
O bom desse conto está reservado pro final quando Lia se vinga de uma pessoa que ela não gosta. Eu achei a sacada das batatas serem os corações das pessoas que já tinham pisado naquela cabana bem genial, nem passava pela minha cabeça que seria corações transformados.
Tem um pequeno romance no conto, mas não é nada demais, não toma o foco principal que é a história da cabana e batatas.
Apesar de não ter tido um começo tão bom e o melhor do conto ser quase no finalzinho, eu achei bem legal.