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Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço

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Desde os anos 1990, a data de nascimento de Maria Bonita passou a ser celebrada no Dia Internacional da Mulher. Com o tempo, ela transformou-se em uma marca poderosa, emprestando seu nome a centenas de pousadas e restaurantes espalhados pelo Nordeste, salões de beleza, academias de ginástica, cerveja, pizza, assentamento rural, música, bandas de forró e coletivos feministas.

Enquanto a companheira de Lampião viveu, no entanto, essa personagem nunca existiu. A cangaceira que teve a cabeça decepada em 28 de julho de 1938 era simplesmente Maria de Déa: uma jovem de 28 anos que morreu sem jamais saber que, um dia, seria conhecida como Maria Bonita.

Nos anos em que viveu com Lampião e nos subsequentes à sua morte, despertou pouco interesse em pesquisadores ou jornalistas. E foi essa lacuna de informações sobre sua vida e a das outras jovens que viviam com o bando que contribuiu para que se criasse a fantasia de uma impetuosa guerreira, hábil amazona do sertão, uma Joana D’Arc da caatinga. Essa versão romântica e justiceira de Maria Bonita, rapidamente apropriada pela indústria cultural, tornou-se um produto de forte apelo comercial - e expandiu seus limites para além das fronteiras do sertão. Neste livro, Adriana Negreiros constrói a biografia mais completa até então daquela que é, sem dúvidas, a mulher mais importante do cangaço.

296 pages, Paperback

First published August 31, 2018

30 people are currently reading
566 people want to read

About the author

Adriana Negreiros

2 books5 followers
ADRIANA NEGREIROS nasceu em 1974, em São Paulo, cresceu em Fortaleza e vive no Porto, em Portugal. Iniciou-se no jornalismo em 1996, como repórter de política do Diário do Nordeste, e trabalhou nas revistas Veja, Playboy e Claudia. Graduou-se em Filosofia pela USP e é autora de Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço.

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5 (1%)
Displaying 1 - 30 of 52 reviews
Profile Image for Tatianne Dantas.
28 reviews36 followers
November 12, 2018
A biografia é muito interessante mas não é propriamente sobre Maria Bonita. É mais um documento sobre o cangaço, a presença das mulheres nele e a violência de gênero que permeava as relações. Antes de Maria de Déa, mulheres eram proibidas de se juntar ao bando. Depois dela, até podiam, mas permaneciam como propriedades dos homens. A maioria não fazia a escolha de entrar, uma vez que eram sequestradas ainda crianças. E mesmo adultas, se um deles cismasse, era se submeter ou morrer. A interessância da figura de Maria, e penso ser essa a discussão que Adriana procura abrir no livro, é como ela adquiriu uma aura feminista sendo que na maior parte do tempo reproduzia as relações de poder do bando; ainda tô elaborando, mas parece que ela preencheu uma lacuna de representação entre as mulheres da região no século XX.



Profile Image for Anna Braga.
181 reviews16 followers
January 22, 2019
Eu não sabia nada sobre cangaço e a primeira coisa que me chocou muito foi a brutalidade e violência sem limites, e pra mim, sem precedentes. E, a destruição e a aniquilação em todos os sentidos da mulher. A violência contra a mulher não era nem vista (e nem cabia isso) como uma violência contra elas, e sim contra os homens dos quais elas eram propriedades. Então, esse foi um ponto de muito questionamento: como isso foi romantizando? E aí entra todo o ideário, as tendências enquanto morador pobre do sertão, a violência diária sofrida por parte de tudo e de todos (governo, coroneis, seca, pobreza...).
Eu acho quase impossível existir (e sobreviver enquanto tal) alguma coisa anti-sistema, mas, mesmo assim, usarei essa palavra, pq eu acho que ainda cabe aqui, apesar deles terem existido como tal, durante tanto tempo porque o “sistema” permitiu. Prefeitos, coroneis, pessoas poderosas e influentes, tinham interesse naquilo, cada um a sua maneira, alguns mais como uma reação, do que um investimento, digamos assim. Eles eram um grupo anti-sistema, com um código de ética próprio, com vestimentas próprias, e modo de existir e de operar único.

Por fim, como é violento saber que existe a possibilidade de descredito acerca dos relatos de extrema brutalidade da qual foram vítimas. Como as pessoas podem conceber que crianças de doze e onze anos escolheram viver aquela vida ou, no caso de Dada, foi taxada de “exagerada” ao narrar sobre o rapto e estupro dos quais foi submetida. É a mesma lógica maldosa que perpetua até hoje ao desqualificarem os relatos de mulheres que foram violentadas, e, ainda, transformam vítimas em culpadas, procurando no comportamento feminino razões que justificam a opressão.
Profile Image for Bárbara Lunardi.
241 reviews79 followers
March 1, 2021
É um pouco difícil encontrar as palavras exatas para falar sobre esse livro: pesado, dolorido, podemos entender muito sobre a dinâmica do cangaço. Mais do que sobre Maria Bonita, a autora narra diversas histórias acerca dos bandoleiros, fazendo entender melhor como funcionava a movimentada vida dos cangaceiros.

O livro funcionou para mim porque honestamente eu não conhecia muito sobre, então saber alguns detalhes sobre a vida de muitos membros do corpo de Lampião foi muito interessante para mim. Achei o livro talvez um pouco cansativo? Várias palavras eu não conhecia, então, apesar de achá-lo um pouco difícil, gostei de aprender os termos utilizados.

Para ser verdadeira, não me interessei tanto pela história de Maria Bonita: Dadá roubou meu coração. Fiquei muito doída sabendo de sua história—sequestrada, violentada ainda criança, sua vida no cangaço—, e achei essa mulher forte demais. Sila a mesma coisa. Queria abraçar essas meninas-mulheres e dizer “vai ficar tudo bem”. Sinto demais pelo que elas viveram.

Eu recomendo para quem tem interesse na história do sertão brasileiro, mas segue o aviso de que é extremamente violento (muitas mortes, machismo, muitos estupros, cabeças rolando—literalmente). Acho que é uma narração que deveríamos ler para entender a história de nosso país, a história do Nordeste, a história daquelas mulheres que não queriam entrar na vida daquelas pessoas e a história do cangaço.
Profile Image for Uva Costriuba.
396 reviews13 followers
October 13, 2019
este livro vale ouro.

com o comprometimento de deixar claro o que foi perseguido, estudado e organizado, a narrativa abre a facadas uma história que só agora temos estrutura coletiva pra encarar. e olha que os retos mortais de Maria de Déa e Virgulino ainda não tem fim oficial declarado (de acordo com o final do livro, publicado em 2018).

divertido e surpreendentemente leve ao contar tanta tragédia, este livro é fácil de ler. eu ri. pra logo depois fechar a cara e segurar o choro. mas eu ri.

nada é simples nesta história. ninguém é bom ou mau, ninguém é pessoa pura. e entre corrupção institucional, violência policial, violência de cidadãos vigilantes e a violência dos cangaceiros, as pessoas escolhiam o que parecia que dava pra sobreviver ali na hora. tai um traço bom pra unificar as pessoas dentro do território nacional.

com certeza lerei de novo. tenho muito pra assimilar ainda e quero uma cópia para fazer anotações e juntar o percurso da minha família na época. mas gostei muito de ter encontrado este livro em bibliotecas públicas por são paulo. é fácil o acesso ao volume, mesmo com fila de espera.

recomendo forte. vai muito além de denúncias feministas (já motivos ótimos para ler), faz uma crítica social potente e revisa a história do brasil com propriedade, pertinência e urgência. merece entrar na lista dos vestibulares.
Profile Image for Felipe Ferrari Ferreira.
17 reviews1 follower
February 13, 2019
Uma joia. Pesquisa e texto impecáveis fazem deste livro um dos meus favoritos. Descrever os horrores de uma época violenta ao extremo e, mesmo assim, gerar a estranha e constante sensação de que estamos torcendo para os heróis errados, mostra o incrível domínio narrativo da autora.
1 review
August 11, 2020
Um livro que praticamente não traz nada de novo à já extensa literatura publicada sobre o cangaço. Com exceção de uma visita ao museu de Maria Bonita, a obra é basicamente um compilado das versões dos fatos capazes de endossar o argumento da autora: de que os cangaceiros foram os seres mais abomináveis que já pisaram a superfície da Terra. E essa construção ela faz com brilhantismo, nem que para isso seja necessário deixar a suposta protagonista do livro em segundo plano.

A fim de concluir sua missão, Adriana Negreiros abusa de fontes como o Jornal do Brasil, o eugenista Estácio de Lima e os depoimentos de membros das volantes. Claro que isso nem sempre ela deixa claro no texto, marcando-os com referências às vezes esparsas. Apesar de uma pretensa mutiplicidade de fontes, há trechos em que correm parágrafos sem uma citação clara, gerando dúvidas no leitor.

Para não cometer injustiças com Negreiros, ela também faz referência a autores que são verdadeiras enciclopédias sobre o cangaço. Penso que poderia ter se inspirado mais nos escritos dessas pessoas para escrever a respeito de tema tão complexo. Falta dar voz de forma explícita às múltiplas versões já discutidas anteriormente por outros, de forma que pudesse apreender a história em sua dimensão multifacetada.

Raros são os momentos em que a autora se presta a fazê-lo, como, por exemplo, na narração do episódio em que Lampião e Maria Bonita se conhecem. Curiosamente, é um dos poucos momentos em que ela tem dificuldade de ajustar a história ao seu argumento. Magicamente, ocorre-lhe um lapso de multiplicidade. Nesse caso, com muitas reservas, e fazendo uso do modo subjuntivo, ela conta o encontro entre os dois. Muito diferente da posição resoluta do resto livro, majoritariamente no pretérito perfeito do indicativo, em que assume a posição de narradora onisciente dos fatos.

Não é preciso ir longe para encontrar justificativas para isso. Abordar o tema em sua complexidade tornaria o livro muito menos comercializável. Além do mais, prejudicaria o seu papel de “isca” – algo expresso no descompasso entre título e conteúdo - a uma audiência de inclinação progressista, para a qual o livro pretende extirpar qualquer referência legítima ao cangaço como expressão do irredentismo nacional. Algo que parece coadunar com o tom através do qual ela aborda a Coluna Prestes e as ligas camponesas.

Ninguém defende que as barbaridades e atrocidades cometidas por esses homens sejam apagadas ou silenciadas. Fazem parte da história e devem ser continuamente problematizadas. Mas abordá-las de forma unívoca, como faz Negreiros, empobrece o debate. Em um livro completamente descontextualizado em termos sociohistóricos, a narração assume, em alguns momentos, conotação “datenística”.

Para além de eventuais imprecisões históricas passíveis de contestação, a jornalista paulista reduz as relações de Lampião com a massa sertaneja a mera condição de medo e terror. Chega ao ponto de reduzir as representações na Literatura de Cordel a elogios interessados feitos por pessoas que tinham medo de morrer!

Contrapondo ao esforço de Adriana Negreiros, é possível citar a frase de Ariano Suassuna: “Lampião não era uma alma pura. Mas não era uma alma pequena e vulgar, era uma alma grande.” Os versos de Chico Science, que nos lembram que existem banditismos por necessidade, banditismos por pura maldade e banditismos por uma questão de classe. Ou com a leitura de Frederico Pernambucano de Mello a respeito do lugar do cangaço em nossa história: “ao lado do índio levantado, do negro em armas contra o cativeiro e do branco de tantas revoltas pagãs ou de fundo místico contra disciplinas abusivas ou novidades de governo”.
Profile Image for Tais Lira.
45 reviews1 follower
February 20, 2019
Os detalhes praticamente diário da vida dos cangaceiros as vezes cansa, além do pouco foco nas mulheres do bando o que se explica no final do livro, mas poderia ser um pouco mais enxuto na minha opinião.
Profile Image for Ana Nehan.
370 reviews32 followers
October 16, 2018
Ainda que Maria seja titular nesta obra, seu foco não é necessariamente a cangaceira. Uma leitura fascinante sobre criminosos que permeam o imaginário coletivo há décadas, mas que traz questões e fatos pontuais à uma narrativa já executada de inúmeras formas. Indispensável.
Profile Image for Júlia Gusmão.
8 reviews
July 15, 2022
Pode ser chocante para alguns descobrir que a Maria Bonita conhecida por todos, destemida e cheia de autonomia, é vestida de ficção da cabeça aos pés. Ainda mais desolador é se dar conta de como foi dolorida a vida de Maria de Déa e tantas outras Marias do cangaço.

Adriana Negreiros toca nessa ferida com o tato que só outra mulher poderia ter. A crueza de todos homens que exerceram qualquer tipo de poder sobre as cangaceiras é repugnante e a brutalidade dá o tom de cada evento narrado.

Apesar de sentir que em alguns momentos a protagonista da biografia é ofuscada por outros personagens e acontecimentos, cada página continua valendo a pena.
Profile Image for Marília Daniel .
6 reviews2 followers
November 8, 2019
Uau. Eu não diria que esse livro mudou minha perspectiva do cangaço porque, como grande parte da minha geração, eu não sabia muito sobre o cangaço. Que livro. Uau. Demorei um bom tempo pra digerir as páginas que lia, revivendo as palavras e imaginando as cenas enquanto estava em casa, no ônibus, no trabalho.
Que vida essas mulheres, excluídas da história, levaram e como foram corajosas, até mesmo quando não tinham opção nenhuma. Quantos abusos naturalizados, quanta sofridão. Quanta história perdida por ai, nas memórias de mulheres esquecidas pela historiografia, e que essa autora trouxe de volta a vida tão bem.
Recomendo.
Profile Image for Maria Eduarda Oliveira.
34 reviews2 followers
February 17, 2022
Essa é uma daquelas obras feitas com uma pesquisa extensa e criticidade capazes de se tornarem verdadeiros documentos de fatos históricos. Adriana Negreiros é uma escritora e tanto. Sua descrição transporta o leitor para a época em que os fatos se passam, para o local exato onde aconteciam. Muito mais que isso, ela leva a dor e o peso de cada ato misógino, racista, cruel e transgressor para o corpo de quem lê. Foi muito difícil terminar as 334 páginas.



É um livro esclarecedor. Mostra não apenas qual a real imagem de Lampião e seu bando, mas também como o mito ao redor dela foi criado. As implicações políticas ao redor de sua figura iam além de uma disputa entre pobres e ricos. Envolvia o imaginário do sudeste, internacional, envolvia a luta contra a miséria do sertão. Adriana desmantela a figura do cangaceiro ao mostrar seus feitos e moralidade, longe de constituírem heróis regionais, como muitos poderiam dizer.
Profile Image for Martha.
143 reviews55 followers
January 17, 2019
Que leitura gostosa! O livro não trata exatamente de Maria de Déa, a Bonita, o título dá uma enganada, mas a apresentação é ótima. Engraçado como os livros de história tem sido bem analisados e virado muito palatáveis nas mãos dos jornalistas. Super indico, tem fotos dos cangaceiros, tem referências e cada capítulo começa num minicordel. O assunto é vasto e o livro é curto, mas muito bom. Quis muito mais páginas em vários momentos, mas ta aí a beleza da bibliografia, vamos atrás de mais.
Profile Image for Maria Eduarda Praxedes Silva.
10 reviews11 followers
June 3, 2023
tem como pano de fundo a história de maria de déa, mostrando a violência de gênero em massa cometida pelo grupo de lampião. ao mesmo tempo, traz pontos importantes do cangaço naquele momento, sem os quais não daria para entender o contexto.
contudo, apesar de o objeto do livro ser maria bonita e a violência de gênero, por vezes parece que o foco é lampião e seu bando, deixando o que deveria ser o ponto central do livro como secundário.
Profile Image for Harissa Naoum Borges.
14 reviews
November 26, 2022
Além de super claro e bem escrito, é uma aula de história e a certeza q nunca mais entenderei cangaceiros como heróis :(
Recomendo muito!
Profile Image for Eli Kadmon.
2 reviews
March 17, 2025
De leitura agradável mas desafiadora com suas descrições firmes e inabaláveis da violência inflingida nas mulheres e múltiplas vidas da violenta era do banditismo nordestino, "Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço" prova, tintim por tintim, que o cangaço não é tão romântico e revolucionário como se insiste em caracterizar. A complexidade do sertão nordestino que existia no início do século 20 era marcado pela violência da polícia e da resposta igualmente violenta dos cangaceiros. O livro traz dados que pintam um quadro compreensiva da época, mostrando que a linha que dividia vilões e mocinhos era borrada por atos de crueldade que confundem a memória coletiva do que os cangaceiros representavam. O recorte feminino das experiências no cangaço é devastador, e o livro força o leitor a encarar a realidade da violência implacável que fantasiamos de "resistência feminina no Nordeste". As cangaceiras muito pouco tinham de autônomas, e sua resistência não era contra o estado, mas contra o bando que as sequestrava, estuprava, abusava e submetia a condições inferiores de sobrevivência.

Lembro-me de ler o livro enquanto voltava pra casa de ônibus, passando pelos históricos bairros das cidades de Pernambuco. Entre folheadas, eu fechava o livro para respirar, para processar o tamanho da violência que lia. Ao me voltar para a janela, buscando o conforto do presente para me descolar do livro, eu era confrontada pela fisicalidade dos espaços que visitei. Lembro-me de pensar "Lampião e seu bando passaram por aqui...", ou "Estou na cidade em que este caso aconteceu". Consegui alcançar a realidade da mitologia que rodeia Lampião e seu bando, e ao ver as praças, as casas, os bairros, não conseguia evitar a sensação de temor e pânico ao perceber que, se tivesse existido naquela época, eu e minhas companheiras certamente poderíamos ter sido vítimas do bando.

A leitura é extremamente importante e necessária para que a memória dos abusos e violências sofridas pelas mulheres dentro e fora do cangaço não seja esquecida e intencionalmente apagada em função da eleição de uma figura que represente a força e que valide a resistência que é sinônimo da existência nordestina. O cangaço não representa nada disso, e é necessário rasgar o véu romântico que cobre os cangaceiros. Com um tiquinho de sentimentalismo e profundo respeito pelas vítimas das violentas relações do cangaço, sou grata pelos corajosos relatos que sobreviveram e pelo primoroso projeto de pesquisa da autora, que compila bem os dados, relatos e recortes da época.
Profile Image for Eduardo Fernandes.
20 reviews3 followers
January 5, 2022
Este é um grande livro e só não dou 5* devido à mesma razão pela qual o livro é tão bom: o tom e a linguagem escolhida pela autora.
Mas, como dizia Jack, o Estripador, vamos por partes.

Já conhecia parte do drama vivido pelas mulheres cangaceiras e o tema interessava-me muito após assistir a um documentário Feminino Cangaço (https://youtu.be/wsTCQ7LOeds), do Centro de Estudos Euclydes da Cunha. Aconselho. Está disponível gratuitamente no Youtube.

O livro aprofundou muito o que tinha ouvido e o sua escrita (que foge ao histórico e, muitas vezes, lembra um jornal sensacionalista) torna a narrativa interessantíssima.

A descrição de algumas das barbáries cometidas por figuras que aprendemos a ver com alguma admiração, quase como se fossem anti-heróis, faz o estômago revirar.
Como a autora comenta no epílogo, "pesquisar sobre o cangaço é se deparar com violências absurdas que mais parecem saídas de um filme de terror".

Apesar de toda a malevolência, em alguns momentos, eu ainda me pegava a desejar alguma fuga impossível e a salvação de Lampião, ainda que a única coisa que merecesse era uma morte lenta e cruel.
Pode parecer muito cristão da minha parte, mas é só a narrativa de anti-herói Robin Hood que sempre foi contada.

Por outro lado, vi muito da autora no texto, o que é mau.
Em diversos momentos ela deixa que a sua opinião pessoal apareça o que acaba descredibilizando a biografia, tira um pouco da credibilidade, e me faz pensar se ela foi objetiva na descrição e na escolha dos factos.

Além disso, em alguns momentos a autora usa uma linguagem coloquial demais para o tipo de livro o que, mais uma vez, descredibiliza.

Por exemplo, não tem sentido dizer que Lampião "turbinava" o seu chapéu com moedas.
Por mais que se queria algo moderno, uma biografia deste tipo não casa com uma gíria tão vulgar.
Não percebo como o revisor não percebeu algo assim...

Apesar disso, como já disse, é um grande livro.
Vale muito a pena, até para conhecer mais sobre o cangaço e sobre as mulheres cangaceiras.

Mas fica um aviso: é um para quem tem estômago forte.
Profile Image for Ingrid Soares.
43 reviews2 followers
April 22, 2021
3,5 estrelas
ALERTA ESTUPRO E VIOLÊNCIA!

Bom, vamos lá. Desde o primeiro momento que bati o olho nesse livro, já coloquei ele na listinha "quero ler/ter". Adorei a premissa de ler sobre o assunto Cangaço a partir da perspectiva feminina. Até que ganhei o livro do meu namorado (obrigada Victor <3) e decidimos ler juntos. Após alguns capítulos lidos, reclamei com ele que o livro estava muito focado no Lampião e seus "cabras", mas achamos que era apenas para contextualizar a história já que Maria Bonita (ou de Déa) apareceria somente depois. Só que não foi o que aconteceu... por isso minha nota baixa. Para um livro sobre cangaço é bem escrito e cheio de curiosidade sobre a vida e as atrocidades cometidas pelos cangaceiros. Porém ele é vendido com uma ideia diferente. Ao ver o título esperava um livro onde Maria e as outras cangaceiras que ingressariam ao grupo posteriormente fossem as protagonistas e deixassem de serem vistas apenas como sombras de seus "maridos". O livro praticamente todo é contando histórias do Lampião e nas poucas vezes em que a autora vai contar sobre Maria é para dizer que ela possuía um grande/belo par de coxas. Então foi o que me decepcionou durante a experiência da leitura. Fiquei esperando Maria Bonita protagonizar mas ela foi ofuscada pelo Rei do Cangaço. Enfim... leiam o livro mas já vão em mente de que ele não seguirá dessa forma. Fora tudo isso, é importante ressaltar que o livro possui gatilhos para estupro e violência. É narrado diversos episódios e quem é sensível aos assuntos deve estar ciente antes de iniciar a leitura.
P.S. porque sou manteiga derretida -> Só um adendo/ênfase: o livro não é ruim de forma alguma! Só não atendeu minhas expectativas que foram criadas a partir do título e subtítulo. Obrigada de nada :)
Profile Image for Mariana Silveira.
7 reviews2 followers
September 23, 2021
Devorei em 3 dias graças a excelente apuração e escrita de Adriana Negreiros.

Desmistifica a ideia de que Lampião, Maria Bonita e seu grupo de cangaceiros eram heróis, que retiravam dos ricos para dar aos pobres - histórias vendidas pelos jornais e com interesses políticos.

O ponto principal do livro é o grande trabalho da autora de buscar informações sobre as meninas e mulheres cangaceiras, que como comumente cabe às mulheres na História, foram silenciadas.

Contar a vida dessas mulheres - raptadas para virar mulher-posse dos cangaceiros, estupradas, vítimas de todo tipo de violência, de abandono compulsório dos filhos recém nascidos, fome, sede -, enquanto costura a história do Brasil nos anos 1920 e 1930, é uma maneira de dar luz à força dessas mulheres.

Termino com a certeza de que esse livro só foi possível por ser escrito por uma mulher. Só nós somos capazes de nos interessarmos a fundo por memórias de outras mulheres; só nós conseguimos não desacreditar os relatos de mulheres que sofreram de todo tipo de violência.

#leiamulheres
17 reviews
October 25, 2025
Obra importante para desromantizar a vida das mulheres no cangaço. Elas tiveram vidas brutais, e suas histórias são pouco conhecidas (ou, geralmente, distorcidas). Mas acho que o livro é ainda mais relevante por retratar a violência e desprezo do homem cangaceiro, que muitas vezes tem sua figura "suavizada" - quase que como um "Robin Hood do sertão". O livro mostra como, na verdade, o homem cangaceiro médio era um estuprador em série e pedófilo nas horas vagas. E, infelizmente, seguimos romantizando o papel desses homens no imaginário do sertão. Acho que nunca mais vou conseguir olhar do mesmo jeito para a xilogravura de Lampião com Maria Bonita que tenho em casa há anos. Penso que o livro só não é melhor porque às vezes divaga um pouco na rotina geral do cangaço, tirando um pouco o foco das mulheres. O livro também seria mais envolvente se as reflexões do epílogo fossem mais reforçadas nos capítulos - contrastando os fatos históricos e abordagem jornalística com algumas discussões mais contemporâneas.
Profile Image for Emanuela Siqueira.
166 reviews59 followers
June 27, 2024
Concordo com o comentário da Tati aqui nas "reviews": O livro tem uma proposta muito interessante que é não romantizar a figura de Maria de Déa (carregando o nome da mãe!) como a Maria Bonita, alcunha que ela ganha, e se fortalece, quando é decapitada e o resto corpo deixado com as pernas abertas, numa posição que já ouvimos várias vezes. Apesar do esforço da Adriana, há uma lacuna gigante de dados, documentos e relatos sobre essas mulheres, assim como em vários outros movimentos que aconteceram pelo interior do Brasil (a saber, o Contestado, por exemplo). A nota final do livro é certeira: existe um incômodo em boa parte das narrativas oficiais justificarem com consentimento a situação dessas mulheres, enquanto na prática existe muitas situações de violência normalizadas socialmente. No mais, um livro bem escrito, com informações bem amarradas e interessantes sobre o cangaço.
Profile Image for JEAN-PHILIPPE PEROL.
673 reviews16 followers
January 10, 2019
Um livro que vai com certeza virar uma referência na literatura do cangaço. Bem escrito, agradável de ler, extremamente bem documento, ele dá um olhar novo sobre o mito do Lampião. Longe das lendas do Robin Hood do sertão, a Adriana Negreiros descreve um mundo de violência e crueldade onde as mulheres tentam sobreviver e mesmo ganhar o seu espaço. O cangaço não tem porem a exclusividade da violência, a volante chega tambem a mesmo insensatez, torturando, estuprando e matando durante a sua caça humana. Nesse mundo sem piedade, Adriana mostra como a posição da Maria Bonita ficou mas peculiar ainda, chegando a ter uma forte influencia sobre o Virgulino e a chefia do seu grupo, até dividir seu trágico destino.
Profile Image for Andressa.
20 reviews4 followers
June 30, 2019
Adriana Negreiros constrói a realidade feminina no cangaço com a dureza que essa história exige.
O livro inteiro é muito bem referenciado e traz os relatos de diversas mulheres que viveram essas experiências. Apesar disso, não é uma colcha de retalhos: traz a história de Maria de Dea (futura "Maria Bonita") em uma ordem cronológica e em primeiro plano.
É de suma importância ressaltar a presença das mulheres e de sua atuação em episódios históricos, tais quais o cangaço, e de revelar os pontos de vistas delas sobre esses acontecimentos. Em disputas de poder e violência extremas, está posto que é sobre elas que as últimas consequências se abatem.
A vida de Maria de Dea é uma exceção e essa obra a relata sem rodeios.
Recomendo a leitura!
Profile Image for Genilton Barbosa.
23 reviews
July 31, 2019
O livro é muito interessante.
Ele mostra como era a vida dos mulheres no cangaço, a violência que elas sofriam e como elas também assimilavam essa violência e também se tornavam pessoas violentas.
Fala sobre o romantismo que muitas pessoas usam para descrever o cangaço, mas trata da bruteza e da crueldade usadas tanto pelos cangaceiros quanto pela polícia que tentava prendê-los.
A autora usa uma linguagem leve para tratar desse assunto que é tão pesado... Isso faz a leitura ser muito agradável, apesar de tratar-se de um conteúdo bastante rico e detalhado. Eu gostei muito do "palavreado" usado pela autora, empregando alguns termos que nos remetem à vida no sertão e ao modo como os sertanejos falam.
Recomento a todos.
Profile Image for alyssius.
16 reviews
May 28, 2022
Acabando com estereótipos, esse livro é um soco no estômago de quem sempre enxergou o cangaço de maneira romantizada. Ele nos mostra a face real dos cangaceiros, que não roubavam dos ricos para dar aos pobres; apenas seguiam seus próprios interesses, passando por cima de tudo e todos. Também acaba com a visão popular de que as mulheres possuíam algum tipo de poder, mostrando que a maioria delas não queria realmente estar lá - eram mulheres raptadas ainda menores de idade, abusadas e ameaçadas, sem nenhum propósito nas guerras.

Confesso que tive que parar para respirar em alguns momentos, fechando o livro e dando um tempo. A narrativa é direta e não poupa detalhes do que as mulheres no cangaço sofriam na época. Mas o livro é excelente e tem toda minha recomendação! 🤍😄
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Catharina Heringer.
15 reviews
October 30, 2025
O livro é uma importante obra que finalmente dá voz às cangaceiras, triplamente oprimidas pelo violento machismo da sociedade da época, por seus companheiros - e, na maioria das vezes, algozes - e pela polícia. Os relatos de violência sofrida por elas são chocantes. A única ressalva que tive a respeito do livro foi o anacronismo com o qual a autora analisa determinadas ações de Maria Bonita. Certamente, sua intenção foi humanizar o mito, o que é muito importante, mas, ao fazê-lo, caiu na armadilha de desconsiderar contextos sociais da época e apontar um “feminismo imperfeito” em uma mulher que, afinal, era uma sertaneja sem estudos, nascida em 1910. Maria Bonita ocupou uma grande lacuna ao rebelar-se, deixar o marido e ir viver a vida que escolheu para si, a despeito de toda a represália.
Profile Image for Amanda Rozhanskiy.
19 reviews
May 6, 2022
leitura muito pesada, com diversos acontecimentos dolorosos de entender, especialmente como mulher. o livro ilustra o contexto do cangaço como também particularidades referentes aos momentos íntimos do bando. Hà um enfoque claro na dinâmica das mulheres dos cangaçeiros, muitas vezes amulheradas contra a vontade.
antes de ler o livro o cangaço e maria bonita me pareciam um conto romântico, digno de ser cantado em várias músicas que aprendi no mato grosso do sul. maria bonita foi indevidamente romantizada, embora fosse mulher forte de muita coragem, foi cúmplice para vários feminicídios e estupros que aconteceram no sertão
Profile Image for Thiago Bezerra.
1 review
June 21, 2019
Um livro maravilhoso! A história do cangaço tem sido contada e recontada ao longo do tempo, sendo essa a primeira vez que leio algo sob um viés diferente, do ponto de vista feminino. Gosto muito do assunto, principalmente, por ter vivido em algumas das cidades por qual o bando de Lampião passou e ler algo desse tipo é, além de instigante, surpreendente. A Adriana Negreiros escreve com uma maestria ímpar e uma riqueza de informações que choca mesmo quem já tem conhecimento acerca dos modos de viver - e de matar - daqueles que fizeram parte de um dos grandes marcos do século passado.
2 reviews
January 19, 2021
Muito bom e revelador. Tira um pouco essa ideia do anti herói, justiceiro, Robin Hood que se têm no imaginário coletivo sobre o cangaço.
Inclusive a gente percebe o quanto o machismo e o racismo sempre estiveram presentes. Mulheres tratadas como objetos, sem escolha de não seguir quando era escolhida por um cabra de Lampião.
Um livro bem completo e detalhado, em alguns pontos do livro tive que parar e respirar, os crimes e sua crueldade são muito detalhados.
Amei mesmo, recomendo a todes.
Profile Image for Anna .
52 reviews1 follower
February 10, 2022
arredondando um pouco pra cima. achei que pra manter a narrativa, a apresentação dos fatos ficou um pouco desordenada, mas nada que impeça o entendimento. desmistifica várias das narrativas que se criaram em volta do cangaço e oferece uma perspectiva feminina essencial, tanto por não relativizar os crimes contra mulheres quanto por se colocar em oposição a pesquisadores que ainda questionam os relatos de ex cangaçeiras sobre suas próprias experiências
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