Em Fevereiro de 2006, os Bombeiros Sapadores do Porto resgataram do poço de um prédio abandonado um corpo com marcas de agressões e nu da cintura para baixo. A vítima, que estava doente e se refugiara naquela cave, fora espancada ao longo de vários dias por um grupo de adolescentes, alguns dos quais tinham apenas doze anos.
Rafa encontrara o local numa das suas habituais investidas às «zonas sujas», e aquela espécie de barraca despertou-lhe imediatamente o interesse. Depois, dividido entre a atracção e a repulsa, perguntou-se se deveria guardar o segredo só para si ou partilhá-lo com os amigos. Mas que valor tem um tesouro que não pode ser mostrado?
Romance vertiginoso sobre um caso verídico que abalou o País, fascinante incursão nas vidas de uma vítima e dos seus agressores, Pão de Açúcar é uma combinação magistral de factos e ficção, com personagens reais e imaginárias meticulosamente desenhadas, que vem confirmar o talento e a maturidade literária de Afonso Reis Cabral.
Afonso Reis Cabral nasceu em 1990. Aos 15 anos, publicou o livro de poesia Condensação. É licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela NOVA FCSH, fez mestrado na mesma área e tem uma pós-graduação em Escrita de Ficção. Foi duas vezes à Alemanha de camião TIR em busca de uma história, a primeira das quais aos 13 anos. Trabalhou numa vacaria, num escritório de turismo e num alfarrabista. Em 2014, ganhou o Prémio LeYa com o romance O Meu Irmão. Em 2017, foi-lhe atribuído o Prémio Europa David Mourão-Ferreira na categoria de Promessa, em 2018 o Prémio Novos na categoria de Literatura e em 2019 o Prémio GQ MOTY na categoria de Literatura. No final de 2018, publicou o seu segundo romance, Pão de Açúcar, com forte acolhimento por parte da crítica e vencedor, em 2019, do Prémio Literário José Saramago. Entre Abril e Maio de 2019, percorreu Portugal a pé ao longo dos 738,5 quilómetros da Estrada Nacional 2, de que resultou o livro Leva-me Contigo – Portugal a pé pela Estrada Nacional 2 e o documentário com o mesmo nome exibido pela RTP2. As suas obras encontram-se traduzidas em várias línguas. Tem contribuído com dezenas de textos para as mais variadas publicações. Foi colunista da Mensagem de Lisboa com «O Rossio na Betesga». Participou, com Dulce Maria Cardoso e Richard Zimler, no programa semanal «Biblioteca Pública», da Antena 1. É colunista do Jornal de Notícias, semanalmente com a rubrica «Ansiedade Crónica» e é um dos anfitriões do programa «Cinco à Quinta», da Antena 1. É presidente da Fundação Eça de Queiroz desde 2022. Em 2024, recebeu o Prémio Alumni NOVA FSCH. Em Setembro de 2025, chegou às livrarias O Último Avô, o seu romance mais recente.
Com apenas 30 anos, o escritor português venceu o Prêmio Saramago com este livro que, de forma gradual, insere o leitor no cenário de um crime chocante e muito dolorido. O fato histórico sobre o qual o romance é construído é verídico: em 2006, Gisberta, uma transexual brasileira, foi torturada e morta por jovens, na cidade de Porto, em Portugal.
Pouco se sabe sobre o que teria motivado os jovens a cometer o assassinato e foi justamente a partir desse vácuo de informações que o autor, se valendo do seu frutífero imaginário, cria sua narrativa. É uma forma de tentar levar ao público um pouco mais da vida de Gisberta e, ao mesmo tempo, dar uma versão para a historia dos agressores, a partir da voz de Rafael.
E talvez o mais chocante é perceber que os agressores não passam de crianças, meninos que vivem semi abandonados em abrigos da cidade. Em nenhum momento o autor tenta justificar o ocorrido, mas o que faz é ao menos dar uma visão sobre a realidade vivida pelos garotos. Em Porto, é no esqueleto de um prédio abandonado que os jovens começam a criar uma relação com Gisberta, uma relação que oscila entre admiração e repulsa e termina de forma trágica. Confesso que os últimos capítulos são de difícil leitura por conta da crueldade que envolveu o crime...
Também vale dizer que, por ser escrito em “português de Portugal”, senti um pouco de estranheza nas primeiras 50 páginas, o que talvez até tenha dificultado a minha conexão com a leitura. Mas, ao poucos, me acostumei e logo passei a ficar muito ligado à conflituosa relação dos garotos com Gisberta, sofrendo por um final que já estava marcado nos jornais e na belíssima música gravada por Maria Bethania (“Balada de Gisberta”).
Além de permitir ao leitor uma experiência literária marcante, “Pão de Açúcar” também exerce um papel necessário na denúncia das consequências brutais que uma sociedade preconceituosa pode trazer para a vida de uma cidadã inocente e marginalizada. Gisberta vive nessas páginas.
Não posso dizer que tenha ficado desiludido, um segundo romance, depois de uma obra de excelência e premiada, representa sempre um enorme peso e responsabilidade para alguém que ainda neste segundo romance se mantém bastante novo para o tipo de mundos que a literatura a este nível exige. “Pão de Açúcar” não chega a ser Romance, é um exercício de escrita, bem conseguido tecnicamente, capaz de agarrar o leitor e levá-lo ao longo das 200 páginas encurtadas pelas largas margens e caracteres grandes. É uma história que exigiu bastante pesquisa ao autor, mas ainda assim todo o enquadramento estava definido à partida, diga-se mesmo já amplamente esboçado pelo extensíssimo artigo (20 páginas) de Catarina Marques Rodrigues, “Gisberta, 10 anos depois”, para o Observador.
Cabral cumpre, em parte, com o que se tinha comprometido, dar vida às vidas dos jovens envolvidos naqueles derradeiros dias. Lendo os jornais o que temos é apenas a ideia de miúdos sem nada na cabeça, dispostos a tudo para magoar os outros, sem empatia nem sentimentos, na falta de mais dados especulamos a partir dos efeitos, e vemos na nossa cabeça um bando de energúmenos. A obra de Cabral refaz esta ideia, não desculpando, mas racionalizando sustentando com emoção e realidade vivida alguns dos jovens envolvidos. Posso dizer que consegui chegar bastante perto dos jovens, dos seus mundos, das suas realidades, sentir as suas dúvidas, incertezas e medos do mundo vivido no dia-a-dia. Inevitável pensar em “Deus das Moscas” e olhar para um grupo de jovens que sem regra nem direção acaba seguindo a força do mais forte e o efeito de grupo. Cabral faz-nos sentir o lugar e os seus habitantes, onde viveram aqueles miúdos, os seus devaneios pela cidade do Porto, assim como o prédio abandonado, somos completamente transportados para lá.
Mas era necessário este livro? Senti-me a maior parte do tempo um voyeur. Existe ali uma história, sem dúvida, mas devemos questionar-nos se produzindo obras sobre estas contribuímos para algo mais além do prazer do sofrimento de outrem. Repare-se que não precisamos de um livro para chamar a atenção, o assunto foi amplamente dissecado pelos media, e o artigo referenciado acima foi feito para recordar os 10 anos. Ou seja, o que podia um livro dar-nos mais? Conhecer melhor os envolvidos? Correto, mas com que objetivo, desculpá-los, ou aceitar a normalidade do acontecido? Repare-se que não é um assunto ficcionado para testar temperamentos ou efeitos da fraca educação (que é parcamente definida no livro), trata-se de um caso real, com pessoas que existem e sobre as quais devemos ter uma posição enquanto sociedade. Humanizar é preciso, mas enquanto sociedade precisamos de balizas concretas sobre o que podemos aceitar e o que não podemos de forma alguma. Um livro destes coloca tudo em questão, faz-nos questionar, faz-nos sentir impotentes porque co-culpados pela falta de apoio que aqueles jovens tiveram nas suas infâncias, ou da aparente falta de apoio que Gisberta teve. Mas tudo isto não o sabíamos já antes de ler este livro? Onde está o rasgo da arte para nos despertar do sentimento cliché, para nos transformar? Tenho de dizer que não me preencheu enquanto obra, enquanto Romance, longe disso.
Falando da escrita, é boa apesar de não ser excecional. Cabral consegue algo difícil, encaixar um pensar e diálogos que tinham de ser bastante incompetentes e até incongruentes, num texto de grande elegância, sem que duvidemos todo o tempo da sua veracidade. O mesmo se pode dizer da crueza e calão que vão surgindo, mas muito longe daquilo que é a realidade destes universos. Nota-se um esforço de aproximação aos contextos e à potencial escrita, mas ainda assim muito longe do que seria verdadeiramente um texto escrito por alguém saído daquelas condições. Muito do que se lê percebe-se impossível de germinar ali, mas não deixa de parecer provir daquele mundo, daquele universo, por isso algo foi bastante bem feito por Afonso Cabral para nos fazer sentir deste modo.
Com a leitura deste livro, chego à conclusão que um dos efeitos que os livros do autor têm é mim é uma determinada passagem do livro marcar-me de tal forma que nunca mais me esqueço dela. No caso de "O meu irmão" foi o momento em que o narrador diz "todos precisamos de batalhar, ao Miguel bastava existir"(algo do género, a ideia está lá). O que estes momentos têm de particular é que me permitiram enquanto leitora entrar dentro da personagem e ver para além da superfície. Neste livro, esse momento aconteceu quando a Gi abraça e beija o Rafa e ele a repudia. A confusão de Rafa perante uma resposta claramente biológica e perfeitamente natural e o medo que daí advém resulta na tragédia que já antecipávamos. Na sabedoria de Yoda, "fear is the path to the dark side…fear leads to anger…anger leads to hate…hate leads to suffering." Ao contrário de outras opiniões, não acho que as personagens sejam vazias, muito pelo contrário, as personagens são credíveis. Esse próprio vazio é absolutamente necessário para que o desfecho da história seja justificável. Fosse dado ao leitor mais sentimentos ou mais pensamentos dos miúdos e não os acharíamos capazes de tamanhas atrocidades. Não há adultos no livro, os que surgem são figurantes, à excepção da Gi: "os putos andam à solta" sem qualquer controlo e, apesar de Rafa dizer que eles são verdadeiramente livres (por oposição aos outros miúdos que têm horas para isto e para aquilo: AEC, escolas, banho, etc.), percebemos o preço dessa liberdade, principalmente na dinâmica do grupo (pois em grupo há uma desresponsabilização das atitudes, por oposição ao indivíduo). Não li o livro na ânsia de saber o desfecho (porque isso já sabíamos, está na contracapa), mas na expectativa de perceber o que resta de humano e social a estes miúdos. Muito pouco ou nada. O único reparo ao livro foi que o desfecho da tragédia poderia ter sido mais explorado, o ritmo narrativo pareceu-me um pouco apressado.
Brutal, este romance de Afonso Reis Cabral. Um livro muito bem escrito, mas de uma intensidade que nos deslumbra e ao mesmo tempo de uma crueza necessária a contar esta história, que termina no homicídio de um travesti, por jovens adolescentes. Baseado em factos reais, esta obra é mais uma vez a afirmação deste jovem escritor,
Li este livro em dois dias e ainda estou chocada com a sequência de eventos nele relatados. Não é fácil de digerir esta história e faz-nos pensar no mundo em que vivemos. O autor tem uma escrita leve, o que faz com que a leitura flua sem darmos pelo passar do tempo.
Estava à espera de mais, principalmente por tratar-se de um caso verídico.
De início caótico, com muita informação descontextualizada, sem um enquadramento da situação. Percebi depois que se tratava apenas da descrição de um encontro com um dos participantes da tragédia que ocorreu em 2006 num edifício abandonado. Cheguei a achar o autor arrogante.
«Talvez julgasse que pôr a história no papel a tiraria do peito, de onde na verdade ninguém a arranca. Mas isso não lho disse. (…) Assegurei-lhe que um dia subiria a marceneiro, sem dúvida, mas claro que nunca vai sair daquilo (…).» (Nota Antes)
Numa escrita aborrecida e, por vezes, atabalhoada, com situações e frases desconexas, episódios completamente desnecessários à narrativa que, no meu ponto de vista, em nada serviram para dignificar Gisberta.
«(…) a vida é o que temos e o que gostávamos de ter». (Cap. 16)
Estava preparada para ficar com os nervos à flor da pele, mortificada, acreditei até que iria chorar. Nada disso aconteceu. A escrita é tão banal e o autor focou-se no menos importante: namoros, amizades, passeios, cafés, a vida na camarata. Ficamos a conhecer um pouco da vida de Gisberta, mas faltou ir mais a fundo na questão do assassinato. Teria sido interessante, para além do relato da testemunha, basear a narrativa na decisão do tribunal.
«(…) achei bonito isso de amarmos tanto que até voltamos a quem nos morde.» (Cap. 20)
Pareceu-me tudo muito superficial, sem sumo, com tanto limão que havia para espremer. Estava, porventura, com esperança de estar perante uma homenagem sentida à vítima, o que claramente não aconteceu.
«(…) achei ridículo (…) que o lixo de um fosse o entusiasmo de outro.» (Cap. 4)
Ainda assim, é um livro pequeno que se lê rápido, se quiserem dissipar a curiosidade.
"Pão de Açucar", nome de prédio no Porto, onde decorrem os eventos desta narrativa baseada em factos verídicos em 2005/2006. Livro, ao qual foi atribuído o Prémio José Saramago 2019, narrado sob o ponto de vista de um dos jovens que vive numa instituição, a Oficina.
O tipo de narrativa, a sua linguagem "de rua", ambientes decadentes e delinquentes juvenis, transporta-nos para uma realidade dura, difícil, suja, de maus odores, escura.
Não foi um início fácil mas após adaptação, não consegui parar de ler até ao final do livro, mesmo conhecendo, sem pormenores, o final da história verdadeira. Uma escrita com voz própria que muito me agradou e cativou.
Rafa (Rafael), é o narrador do livro e casualmente conhece Gi (Gisberta), transexual, imigrante, seropositiva e sem abrigo. Ao se relacionar com Gi, Rafa crê ficar a conhecer-se melhor "...veículo do meu próprio crescimento." pág.94. Parece existir, para além da sua curiosidade, a necessidade de mostrar a si mesmo que existe bondade e que ele mesmo, Rafa, a sabe praticar ao ajudar e alimentar alguém à margem da sociedade. Gi parecia representar o seu "tesouro" escondido desenvolvendo-se uma amizade entre os dois, revelando carências de ambas as partes.
Uma história muito triste, violenta,forte, contada e escrita de forma brilhante onde a delinquência juvenil é o tema central, a relação entre os jovens institucionalizados, a descoberta da sexualidade, a vida de Gi e a sua degradação assim como a sua relação com estes jovens. A forma como a mesma é escrita acaba por amenizar os verdadeiros hediondos acontecimentos.
Este livro é uma visão daqueles que, muitas vezes passamos ao lado sem olhar.Aqueles meninos com quem os serviços sociais se fingem preocupar, educados pela vida que vão levando sem orientação e desprezados por uma sociedade demasiada hipócrita. O autor desce ao submundo que todos querem ignorar, e fingem não querer ver. é feito muitas vezes o paralelismo com esse mundo, que vive paredes meias com uma outra realidade de luxo e ostentação,materializado num hotel de 5 estrelas da cidade do Porto. Esta história de meninos funde-se com a realidade da toxicodepêndencia, de prostituição e da transsexualidade, também ela ignorada e desprezada. é um livro escrito a várias vozes, com uma transparência e realidade nas palavras notável. Afonso Reis Cabral revelou-se um verdadeiro herdeiro de Eça, não só pelo sangue que lhe corre nas veias,mas também de Saramago pela crueza das palavras.
Parti para a leitura deste livro certa de que iria ser rápida, mas intensa e sofrida, devido ao tema. Infelizmente estava enganada. Com muita pena minha, até porque se trata de um autor nacional e de um tema verídico passado no nosso país, achei a escrita do livro muito difícil de acompanhar e, principalmente, não conseguiu passar-me nenhum sentimento, o que não deixa de ser estranho quando penso que o tema é o assassinato de um ser humano perpetuado por adolescentes…
Ao contrário do que a introdução fazia crer, este é um livro em que o escritor se anula, sem vedetismos, para dar lugar a uma história densa, negra, angustiante. A ruína do “Pão de Açúcar” sempre me seduziu, enquanto objeto de um futuro que se tornou passado, um tipo de decadência urbana a que o Porto esteve sujeito ao longo dos anos 90 e 00. Quem vê hoje a cidade, polida, feérica, não imagina o que foi durante essas décadas, onde as prostitutas, os drogados, os mendigos, os delinquentes e os assaltantes faziam da baixa o seu recreio. É neste cenário que as personagens se movem, numa sub-urbe pútrida onde pessoas como Gisberta se viram de repente obrigadas a existir delapidadas da mais ínfima dignidade. Mas o livro é muito mais do que isto. É mais também do que o facto de Afonso Reis Cabral não saber utilizar a gíria portuense (é constrangedor ver usadas as palavras “azeiteiro”, “puto” ou “banana”, tão fora do léxico daquele tipo de personagem, e curioso como a sintaxe da gíria e do calão portuenses continua a ser tão difícil). Ultrapassadas estas distrações, deparamo-nos com uma história galopante, que nos aprisiona ao ponto de entrarmos num labirinto de emoções, num desejo de querer mudar o passado. E, no fim, uma raiva sem fim. A ternura imensurável a ser radicalmente violentada e a certeza de que a maldade, neste caso quem a perpetra, não tem a densidade emocional ou reflexiva capaz do arrependimento. Além de todas as questões sociais e judiciais levantadas pelo drama de Gisberta, a mais alta fica propositadamente sem resposta: como é possível tamanha monstruosidade ter sido fabricada a dois passos do conforto das nossas vidas.
Raramente leio livros trágicos. A leitura dá -me tanto prazer que prefiro usá-la para histórias bonitas. Mas este livro caiu-me no colo e não fui capaz de o ignorar.
Gostei da escrita e do enredo inicial. Achei imersivo, talvez por ser baseado em factos reais num Porto não tão distante a nível temporal quanto inicialmente imaginei.
Infelizmente, cometi o erro de ler a contracapa. Raramente o faço, mesmo com livros novos. Quero ser surpreendida, não quero saber pormenores importantes antes do tempo. O problema deste livro é que o grande spoiler está gratuitamente escarrapachado na descrição, de maneira que retira qualquer efeito surpresa. Houve inclusive uma altura da minha leitura quase arruinada porque dava por mim a pensar "mas quando é que vai acontecer aquilo?". E quando o aquilo acontece, já estando à espera, dou por mim a ler essas páginas sem sentir quase nada. É pena. Teria sido surpreendente não saber, muito mais emotivo. Teria sido uma leitura de 5 estrelas. Não foi.
O caso Gisberta, lembram se? O livro é excelente para contextualizar uma vivência terrível, da qual não temos e não queremos, muitas vezes, ter ideia, como sociedade... "Às vezes a vida é uma coisa tão bela que choro de ternura e não ligo ao que dizem"...
Demorei imenso a fazer a opinião deste livro porque primeiro quis ver mais opiniões e pensar bem na minha. Não é um livro que seja fácil falar, porque mudámos imensas vezes de opinião. Após o direto do #NetBookClub tirei um momento para pensar no livro. Verdade que assim que terminei a leitura dei logo as cinco estrelas, nem hesitei. Contudo, após algum tempo achei que não merecia de todo as cinco estrelas.
A verdade é que Pão de Açúcar é um livro intenso, do primeiro momento ao último. Ver a forma como o enredo desenrolou-se foi deveras interessante. Para além do mais, a escrita do Afonso Reis Cabral é fenomenal. A par disto tudo, valeria a pena as cinco estrelas?
Sempre soube que faltava algo durante a leitura, nunca consegui descobri ao certo que seria. Ignorei esse sentimento porque apenas queria terminar a história e saber o final. Após conversar com várias bloggers apercebi-me do que faltava: faltou que as personagem tivessem personalidade. A verdade é essa, senti que as personagem eram de certo modo vazias. Por outro lado, chego a entender o motivo pelo qual estas personagens são assim: tratam-se de personagem reais misturadas com ficção, até que ponto podemos separar a ficção da realidade? É complicado lidar com ambos os parâmetros.
Vou descer a classificação que tinha dado ao livro, irá passar das cinco estrelas para as quatro estrelas, mas tenho a realçar que o livro não é mau, pelo contrário. É uma história muito intensa e cheia de drama. Temos aqui um caso real, com acontecimentos reais, personagens reais. Há ficção, o próprio escritor o diz, mas temos muita realidade aqui. Não é de todo fácil transcrever uma história assim, trazer para os leitores toda a informação para não levar ninguém a erro.
Toda a dedicação que Afonso Reis Cabral colocou neste livro, na pesquisa e acima de tudo, a cabeça fria que conseguiu manter para estudar este caso bem a fundo. É um livro muito bom, recomendo o livro a todos. Acredito que o facto de não ter lido primeiro O Meu Irmão pode de certa forma influenciado a gostar tanto deste livro, mas, ao mesmo tempo, acredito que não. Logo veremos.
3.5* No dia 8 de Janeiro fui a um concerto do Pedro Abrunhosa, a um determinado momento tocou e cantou a cancão "Balada De Gisberta" fazendo referência a este acto bárbaro, não é por ter sido uma travesti, ou um sem abrigo, ou uma pessoa de um país irmão, simplesmente era um SER HUMANO... Sinceramente já não me lembrava deste terrível acontecimento e então lembrei-me que tinha este livro e apresei-me a lê-lo... Fiquei tão agoniada que mesmo que quisesse ter algum sentimento de piedade para com aqueles miúdos, não consegui, não consegui porque o que fizeram não tem qualquer justificativa, e acabei por pensar na crescente mortalidade de pessoas que perecem por coisas tão fúteis ou simplesmente pelo o prazer de matar... :( Gostava que autor tivesse dado mais destaque a Gisberta, em vez de se focar na vida diária dos miúdos, assim até parece que eles foram "maus" só por causa das circunstâncias das suas vidas, uma pessoa quando quer consegue contornar o mal que lhe surge na frente, senão fosse assim, uma percentagem grande de miúdos seriam assassinos na idade adulta...
A única ideia que me fica, infelizmente é: "E o amor é tão longe, O amor é tão longe… (…) E a dor é tão perto."
O amor, o medo e a pressão dos pares podem ser gatilhos poderosos na forma como nos relacionamos com as pessoas. Sobretudo, quando nos ensinam a olhar o mundo de uma certa perspetiva. Confesso que estava à espera de uma abordagem mais visceral, sobre este caso verídico «que abalou o país», mas, ainda assim, revelou-se uma leitura inquietante: porque as circunstâncias influenciam sempre os nossos comportamentos, porque o acesso facilitado a certos cenários corrói e porque, no meio de famílias desestruturas, o instinto de sobrevivência torna-se o foco principal. Além disso, é um retrato muito interessante sobre os preconceitos, a aceitação [ou a falta dela] e sobre a dualidade de valores, fazendo-nos questionar, inúmeras vezes, o porquê. Acho que, no final, o que mais me cativou foi mesmo o conflito permanente entre aquela que julgamos ser a nossa essência e o fazer bem
Escrita clara e fluída. Foi o meu primeiro livro do autor e gostei muito. Prendeu-me de início ao fim da narrativa a veracidade no que toca à linguagem, suja e de rua, é marcante não sendo exaustiva para o leitor.
O que mais me marcou foi o narrador, que é também um dos miúdos com 12 anos. À medida que a história evolui mostra um lado infantil e carente, alguém que parece apenas procurar um colo de mãe na vítima, um travesti, sem abrigo e com sida.
Muito perturbante, uma história macabra baseada em factos verídicos. Deixa a nu a fragilidade das instituições portuguesas, de apoio a crianças de famílias destruturadas. As crianças largadas, não recebem o acompanhamento que necessitam.
Uma sociedade injusta para as minorias e os desfavorecidos. A sensação de murro no estômago permanece após uns dia de ter lido o livro e permite uma reflexão.
Tinha muitas expectativas em relação a este livro e apanhei uma tremenda desilusão. Foi o único livro que li do autor e não fiquei com vontade de ler mais nada.
Este livro, escrito por Afonso Reis Cabral (vencedor do prémio Leya), vem relembrar-nos a Gisberta... Uma mulher transexual que foi espancada e morta por um grupo de adolescentes (em 2006 no Porto). Este livro é-nos apresentado do ponto de vista de um desses adolescentes.
É um livro revoltante, pesado, nu e cru. Doeu muito ler esta história, ainda para mais do ponto de vista que foi. É surreal como isto pode acontecer. Adorei como o autor escreveu esta história e me fez refletir sobre este caso e sobre mim mesma ao mesmo tempo. É uma leitura que recomendo. Este caso não pode nem deve ser esquecido.
Um livro que confesso ter alguma dificuldade em descrever o que me fez sentir... Penso que angustiada, será o termo mais certo. Uma leitura dura, sobre delinquência juvenil, preconceito e imaturidade, que nos mostra o lado mais animalesco do ser humano. A par deste sadismo intrínseco ao ser humano, surge a compaixão pelo outro, um crescente de afectos, entre a repulsa e a aceitação... Uma luta interior, num livro que nos reporta para factos verídicos passados no nosso país, e que aborda temáticas tão pesadas como a prostituição, droga, HIV... Uma leitura visceral, que nos deixa a pensar...
3.5* Confesso que, tal como diz o ditado, primeiro estranha-se depois emb/ent:ranha-se. Foi isso que senti quanto à escrita do Afonso Cabral. É um estilo muito próprio, algo misterioso e de certa forma, quanto mais lês, mais te vais habituando à sua forma de contar estórias. Senti que a sua forma de escrever revela um salto no tempo, como quando lemos obras antigas e sabemos o valor das suas palavras. Quanto à estória em si, não esperava que a narrativa fosse estruturada da forma que foi. Detestei de facto a personagem principal e as restantes personagens, são basicamente putos «cabrões» sem nada nas cabeças. A única coisa que talvez me deixou curioso e com vontade de saber mais foi sobre a história da vítima, que foi caso polémico há uns anos. Em suma, escrita com qualidade, estória melancólica, lenta e divagante, personagens irritantes, caso polémico.
Um bom exemplo dos livros que nos pesam por estarem na mesa de cabeceira, tive de o despachar ontem para poder ir trabalhar descansada. Não foi péssimo, mas faltou-lhe alma e carisma, à história e às personagens. Foi a escrita que me agarrou e tornou a leitura menos penosa. Por outro lado, tamém adoro o título e o facto de o autor pegar em factos reais, temas difíceis e pouco falados. As cenas de pancadaria e da consecutiva morte mexeram comigo, pela tamanha brutalidade, maldade e indiferença do ser humano. E apesar de não ter adorado o livro, sei que nunca me vou esquecer da Gi e fico grata por o autor a ter imortalizado nas páginas de um romance.
Se este fosse um livro inteiramente ficcional ou um livro de true crime a nota seria bastante superior. A incerteza da fronteira que separa os factos do romance não me deixou nada confortável.
Ainda que involuntariamente senti uma tentativa de levar o leitor a criar empatia com os adolescentes. De facto senti, mas senti sobretudo uma grande tristeza pela Gisberta.
Uma vida de luta para ser aceite acabou da pior forma. Se os factos descritos forem sinceros, para mim torna tudo ainda pior do que o que surge nas notícias e outras fontes.
Fechando os olhos ao que trata o livro, gostei da escrita e da construção.
O livro prometia pela perspectiva por que ê contada a história. Um dos miúdos... Também conta a história passada da Gi. No entanto não funcionou porque falta sentimentos, talvez porque estes miúdos cresceram sem afeto e sejam mesmo assim...