Com seleção e apresentação de Eucanaã Ferraz, esta antologia reúne poemas lapidares de uma das vozes mais marcantes e comoventes da literatura portuguesa. O mar é um dos elementos centrais da lírica de Sophia de Mello Breyner Andresen. As "praias lisas", a "linha imaginária" e as "ondas ordenadas", em seus poemas, simbolizam a mais profunda beleza, um segredo íntimo, "um milagre criado só para mim". Nas cidades, sua poesia é associada à a vida, no "vaivém sem paz das ruas", é "suja, hostil, inutilmente gasta". A atuação de Sophia em resistência ao salazarismo se firmou não apenas em sua escrita, com caráter combativo, mas também na Assembleia Constituinte, ao se eleger deputada pelo Partido Socialista, em 1975. Esta antologia joga luz sobre a dimensão concreta e ao mesmo tempo misteriosa de uma das vozes mais cultuadas da literatura portuguesa. Seja para denunciar o mundo sombrio, seja para tratar de praias radiantes, a poeta — com sintaxe direta e imagens surpreendentes — "por mais bela que seja cada coisa/ Tem um monstro em si suspenso."
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN nasceu no Porto, a 6 de Novembro de 1919. Entre 1936 e 1939 frequentou o curso de Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que não concluiu. Foi Presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores e Deputada à Assembleia Constituinte, pelo Partido Socialista (1975). A sua obra reparte-se pela ficção e pela poesia, embora seja nesta última que a sua inspiração clássica dá ao seu verso uma dimensão solar e luminosa, que permite ouvir nitidamente a palavra com todo o peso da sua musicalidade limpa, ao encontro do modelo clássico. Entre as suas obras poéticas contam-se Coral (1950), Mar Novo (1958), Livro Sexto (1962), Geografia (1967), Navegações (1983), Ilhas (1989), Musa (1994) e O Búzio de Cós e Outros Poemas (1997). Em ficção publicou Contos Exemplares (1962) e Histórias da Terra e do Mar (1983). Da sua literatura infantil destacam-se O Rapaz de Bronze (1956), A Menina do Mar (1958), A Fada Oriana (1958), O Cavaleiro da Dinamarca (1964) e A Floresta (1968). Em 1999 é-lhe atribuído o Prémio Camões, pelo conjunto da sua obra, e em 2001 ganha o Prémio Max Jacob de Poesia. Foi condecorada pela Presidência da República com a Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 1998. Faleceu em Lisboa, a 2 de Julho de 2004.
Estava com esse livro há mais ou menos um ano em casa, demorei a lê-lo porque comprei-o imediatamente no lançamento para logo depois a Tinta da China Brasil anunciar a edição da poesia completa da Sophia de Mello Breyner Andresen, o que me deixou completamente puta, já que havia comprado essa edição da Companhia das Letras completamente à toa. Em todo caso tenho estado sem dinheiro nos últimos meses e a inda não pude comprar a edição da Tinta da China, então, por favor crianças, não sejam idiotas como eu, comprem a edição da poesia completa da outra editora que vale muito mais do que essa daqui. No mais a seleção aqui é boa, como Varda que escolhera falar de seus próprios filmes a partir das praias que constavam neles em As Praias de Agnès, o título dessa seleção também poderia ser tranquilamente As Praias de Sophia.
Acho que o que posso primeiramente dizer de Sophia de Mello Breyner Andresen é que em sua poesia há poesia. Saindo da obviedade dessa frase e pensando o que é a poesia, o que é de fato a poesia, não, não são métricas ou formas. Esqueça isso... a poesia é outra coisa. Eu reencontrei esse significado lendo Sophia. Li bastante poesia esse ano, pois é meu gênero favorito e li muita coisa diferente, alguns me faziam pensar, outros eram marteladas, e Sophia me trouxe para uma certa origem do que me fez aos 13 anos me apaixonar por poesia, foi quando eu li Fernando Pessoa.. talvez os portugueses tenham mesmo esse talento da poesia que é quase como um feitiço.
A cada poema eu via a imagem da poeta dias e dias a beira mar, escrevendo porque não há existência sem poesia. É isso que sinto ao ler Sophia e Pessoa, a poesia e a vida são uma só. E não é possível caminhar, ver o mar, respirar sem fazer poesia. Por isso tudo é tão simples e tão íntimo e profundo. É um cliché falar do mar ao comentar sobre a obra de Sophia, pois ele está presente em tudo. Mas creio que há uma chave para virar, não é que seja "redundante" que ela fale tanto do mar, mas que o mar é redundante por si só, mas também sempre revigorante e misterioso ao mesmo tempo, então mesmo que o mar seja o tema principal da maioria de seus poemas, há sempre algum sentimento que não finda dentro da gente, como a própria existência do mar, que não cansa de ir e vir. A poesia de Sophia é o próprio mar nesse movimento incansável de ser poesia.
Sabemos como o mar se comporta, sabemos como as ondas quebram, sabemos o horário da maré cheia e da maré baixa, mas ainda assim.. o poeta, esse que se encanta com a banalidade de tudo é capaz de escrever centenas de poemas diferentes sobre a rotina salgada das águas, sobre o encontro marcado da espuma com os grãos de areia. A ciência já pode ter desvendado todos os mistérios da natureza, mas é o poeta que os torna.. mágicos novamente.
Sugestão de música para acompanhar: 5:55 de Charlotte Gainsbourg
Sophia é uma das minhas favoritas, um dos grandes legados das minhas aventuras pela literatura portuguesa, uma daquelas poetas que eu penso "puxa, que sorte ser falante nativa de português, para poder lê-la no original."
Agora que ela ganhou uma seleta pela Companhia das Letras, espero que o amor por ela se multiplique do lado de cá do Atlântico.
"(...) Em Creta onde o Minotauro reina atravessei [a vaga De olhos abertos inteiramente acordada Sem drogas e sem filtro Só vinho bebido em frente da solenidade das [coisas – Porque pertenço à raça daqueles que [percorrem o labirinto, Sem jamais perderem o fio de linho da palavra"
pra entender esse livro basta juntar todo o mar, as purezas da natureza, lembrança de amigos queridos, supervalorização dos silêncios, importância de viver uma vida se dedicando aos detalhes, o fardo leve e orgulhoso de escrever poemas. uma pitada de consciência política, descrições lisboetas e de um brasil encantado... e mais uns tantos respiros bons, de um português delicado. sophia, me pergunto: como demorei tanto a te ler? compensarei te levando pra sempre na minha cabeceira, quero te navegar ainda mais.
“Arte poética II” é a coisa mais linda, sensível e potente que eu já li em toda minha vida. Esse é um daqueles livros que nunca se esgotam, que sempre se quer reler e descobrir novos significados e nuances.
E o primeiro livro de poesia de 2020 é da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Nem lembro mais quando comprei o livro dela, mas, preciso dizer que foi uma escolha acertada.
A poetisa tem uma certa paixão pelo mar que se repete por toda a coletânea Coral e outros poemas, o que é algo muito português, diga-se de passagem, e um jeitão um tanto quanto clássico de escrever poesia. Mas quando ela acerta, ela acerta muito em cheio. Fiquei positivamente surpresa com o trabalho que a Companhia das Letras fez. E agora tenho vontade de ler mais obras da autora.
Além da paixão pelo mar e mitos gregos, nesse livro você encontra poesias sobre a pobreza, guerra, fascismo, esquerda e, quem diria, sobre o Brasil. Aparentemente, Sophia gostava de diversos autores brasileiros, o que foi uma agradável surpresa.
Para quem gosta de poesia é uma excelente escolha, fica a dica.
É difícil sintetizar a poesia de um autor quando a base é um livro que seleciona poemas de várias obras. No entanto, arrisco dizer que a poesia de Sophia é mar e salinidade, é vento batendo no rosto, a Grécia Antiga, poetas (muitos brasileiros e o inefável Pessoa) e a agonia de um Minotauro à espreita.
Acho que me faltou muito repertório pra conseguir me situar na maioria dos poemas, então por isso não consigo dizer se gostei ou não. Mas foi muito significativo pra mim a seção Arte Poéticas em que ela fala um pouco do seu processo de criação, consegui me afeiçoar mais ao final.
Sophia lapida as palavras como quem não faz esforço, e, pra mim, isso é o que dá sentido à sua escrita. A poesia não é algo que se pensa muito, é algo que acontece. O olhar que a autora tem para o movimento das coisas - vida, natureza, homem - traz uma essência límpida e verdadeira a cada palavra colocada no papel, como o mar do qual ela tanto fala.
Um pouquinho do que mais gostei:
"e ousaram - aventura a mais incrível - viver a inteireza do possível"
"para atravessar contigo o deserto do mundo para enfrentarmos juntos o terror da morte para ver a verdade para perder o medo ao lado dos teus passos caminhei"
"o teu destino deveria ter passado neste porto onde tudo se torna impessoal e livre onde tudo é divino como convém ao real"
"não te chamo para conhecer conheço tudo à força de não ser peço-te que venhas e me dês um pouco de ti mesmo onde eu habite"
achei esse livro por acaso e resolvi baixar pra ler e que bom que eu fiz isso! é um livro de poemas incríveis que tem o mar como temática central de praticamente tudo que há aqui. a escrita de sophia é LINDA!
Do total de poemas, 13 me chamaram a atenção. Acho pouco, visto a quantidade de obras reunidas aqui. Num geral, achei a escrita repetitiva, tinha a sensação de estar lendo muitas vezes o mesmo texto. A temática do clássico, o panteão grego em si, quando não aliada à reflexão me gera um certo cansaço e pouca empatia, especialmente com a utilização da musa. O que mais senti falta a utilização de uma ironia mais presente, talvez pelas minhas leituras contemporâneas. Seu texto vai mais para o lado do mistério poético e da depuração formal, o que me deu um ar de poeta contida. Preciso ressaltar que me emocionei com suas intervenções durante a ditadura de Salazar. Não conheço tantos de sua geração, mas estou curiosa para ler mais dos Cadernos de Poesia (1940-42). Termino a leitura com as seguintes palavras em mente: cão, mar, branco, ruína, morte e cavalo. Apesar de escassos, alguns versos me marcaram profundamente, e aproveito para deixar aqui:
“No fundo do mar há brancos pavores/Onde as plantas são animais/E os animais são flores.”
“Quando Helena Lanari dizia o ‘coqueiro’/O coqueiro ficava muito mais vegetal”
“Que a arte não se torne para ti a compensação daquilo [que não soubesse ser”
Curated by Eucanaã Ferraz, this captivating anthology showcases the stunning poetry of Sophia de Mello Breyner Andresen, a remarkable and emotive voice in Portuguese literature. Her verses beautifully explore the profound theme of the sea, inviting readers to dive into their depths.
Sophia beautifully depicts the sea in a way that feels almost spiritual. While I often find it a source of both existential reflection and serene peace, she embraces it as a nurturing force that soothes us with the rhythmic sound of crashing waves. In her thoughtful expressions, the sea, light, the beach, and elements of Greek mythology transform into rich symbols, each carrying deep significance and inviting us to explore their beauty together. It’s truly inspiring to witness the connections she forms through her words.
In this inspiring book, she shows her influence of literary giants Fernando Pessoa and Luís de Camões in her writing. Her heartfelt admiration for Brazilian poets and the distinct Brazilian variant of Portuguese enriches her narrative, inspiring readers to appreciate the beauty of literature and its cultural connections.
A book brimming with mystery, spiritual serenity, and poetry—words that resonate deeply within us. I wholeheartedly recommend this inspiring read.
Não sou adepta de ler poesias, não é um tipo de livro que me agrada, gosto de histórias com início e final.
Talvez por essa razão tenha sido uma leitura difícil, demora, que eu não via a hora de acabar.
A autora usa o mar e a praia como referência o tempo inteiro, e muitos poemas eu nem entendi o significado.
E os que eu entendia, não me identificava, os únicos livros de poesias que já li, e gostei, foram os que eu me identificava com o tema, nesse pouquíssimos me foram significativos.
Se você gosta de poesias, daquelas com muita metáfora, sobre mar, você vai gostar. Não é meu caso.
Deixo aqui claro, que só cheguei até o final, por se tratar de leitura obrigatória do vestibular, se não, teria abandonado.
Para atravessar contigo o deserto do mundo Para enfrentarmos juntos o terror da morte Para ver a verdade para perder o medo Ao lado dos teus passos caminhei Por ti deixei meu reino meu segredo Minha rápida noite meu silêncio Minha pérola redonda e seu oriente Meu espelho minha vida minha imagem E abandonei os jardins do paraíso Cá fora à luz sem véu do dia duro Sem os espelhos vi que estava nua E ao descampado se chamava tempo Por isso com teus gestos me vestiste E aprendi a viver em pleno vento "
a poesia de andresen tem essa natureza. a mesma comenta sobre poemas nascendo como fruto do silêncio, um artesanato de uma linguagem, uma arte do ser. realmente, essa coleção de poesias é mesmo um ‘ser’ escutado pela autora. tão real e honesto que passa a se tornar uma voz que une a cidade, o mar, a palavra e a matéria.
não achava que a poesia iria me tocar tanto, mas a de sophia se empoderou de um jeito que não era uma leitura e sim uma conversa. e que conversa boa.
“Nada me resta senão olhar de frente Neste país de dor e incerteza Aqui eu escolhi permanecer Onde a visão é dura e mais difícil Aqui me resta apenas fazer frente Ao rosto sujo de ódio e de injustiça A lucidez me serve para ver A cidade a cair muro por muro E as faces a morrerem uma a uma E a morte que me corta ela me ensina Que o sinal do homem não é uma coluna”
Cada dia é mais evidente que partimos, Sem nenhum possível regresso no que fomos, Cada dia as horas se despedem mais do alimento: Não há saudade nem terror que baste.
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Quando eu morrer voltarei para buscar Os instantes que não vivi junto ao mar.
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Eu me perdi na sordidez do mundo Eu me salvei na limpidez da terra Eu me busquei no vento e me encontrei no mar E nunca Um navio da costa se afastou Sem me levar
Gostei, são poemas bons, bem focados na natureza mas invocando sensações com base em cenários, bem bonitos e com uma certa sofisticação. Tem um estilo bem definido. Planejo comprar o físico porque foi uma obra que me trouxe a vontade de marcá-la.
Ganhei de presente de natal da minha irmã. Há poemas muito bons, que realmente me tocaram. Mas o estilo dela não me pegou tanto assim. Pela extensâo do livro, fui me cansando - tanto que demorei 2 anos pra ler.