«Um buraco num casebre de cimento e zinco, no campo de refugiados de Al Amari, junto a Ramallah. [...] Um dia, quando descobriu que nem toda a gente vivia em campos como este, perguntou ao avô: "Porque estamos assim?" E então o avô contou-lhe a história da Nakba , a Catástrofe de 1948. Contou-lhe do pomar de laranjeiras que a família tinha em Ramla, hoje Israel. Daí vieram os parentes de Ramzi, uns para Gaza, outros para este campo de refugiados.» (p. 179).
Seria duro ler um livro destes em qualquer momento, porém, torna-se mais duro sabendo o que se passa em Gaza, desde o dia 7 de outubro de 2023 até à presente data. Torna-se ainda mais duro sabendo que Alexandra Lucas Coelho escreve este conjunto de textos entre 2005 e 2007 e neles, como a própria autora afirma no prefácio, se adivinha já muito do que se passaria mais tarde. Há muito material escrito sobre Israel/Palestina (não é um conflito, é um genocídio), muito dele com bases científicas e históricas muito mais sólidas do que aquilo que este livro se propõe fazer. O exímio trabalho desta jornalista vai além disso, atribuindo rostos, histórias, vidas escritas a estas pessoas, tanto judeus, como católicos, como árabes que vivem nestes territórios. Aquilo que aqui se comprova é evidente: não há um conflito religioso, não há um ódio vincado entre os habitantes destas terras - e para isso basta olhar para o caso de Jerusalém, onde sempre conviveram povos de vários credos, em harmonia e respeito mútuo. Alexandra Lucas Coelho, conseguindo trazer-nos vozes das mais diversas origens e poderes (chega mesmo a entrevistar um porta-voz de um Ministério israelita), comprova apenas que as guerras do projeto sionista servem uma ínfima parte do poder europeu, são motivadas por um anti-judaísmo latente, cuja origem encontramos na Europa, não no Médio Oriente, e deixa claro como água que, ao fim e ao cabo, as maiores vítimas são as pessoas. Todas. A existência de Israel é fundada com o sangue de palestinianos, usando como desculpa o sangue dos judeus, e o único resultado possível de um projeto deste calibre foi, é e será sempre, por um lado, um povo historicamente perseguido a viver em terras ocupadas, que nunca conseguirá garantir a sua segurança, e, por outro, um povo oprimido, desalojado e marcado a ferros pela islamofobia europeia como terrorista, cuja única reivindicação é o direito ao lugar onde sempre viveram... Nestes textos tão diversos, é possível compreender como se vive em Israel, um ghetto em forma de país para onde a Europa expulsou os seus judeus, mas também como se sobrevive em Gaza, o maior campo de concentração a céu aberto. Deixo uma citação, que parte da análise feita pelo psicólogo Ahmed Abu Tawahina, vice-diretor do Programa de Saúde Mental de Gaza, que, creio, oferece um grande contributo às possíveis definições de terrorismo:
«Os problemas de sono "são crónicos". E conjugados com ruídos, como explosões sónicas, tornam-se "um pânico". As explosões sónicas fazem um barulho muito mais impressionante do que as bombas. É como se por fora e por dentro tudo rebentasse, ar e tímpanos. O PSMG e os Médicos pelos Direitos Humanos / Israel apresentaram há meses uma petição ao Supremo Tribunal de Israel, considerando que estas explosões eram uma punição coletiva que lesava física e mentalmente civis e danificava propriedade, violando as convenções internacionais. Não tiveram sucesso. [...] Quando Nunu ontem adormeceu, pelas três da manhã, Israel já tinha lançado uma chuva de mísseis em Gaza. Os suficientes para destruir duas pontes que ligam Norte e Sul e a única central elétrica da Faixa. Depois vieram as explosões sónicas.
04h25.
05h00.
05h04.
8h25.
8h32.
De cada vez, a casa tremeu, e Nunu deu um salto no colchão que partilha com as irmãs [...] Na última vez, começou a chorar em silêncio. Só lágrimas, talvez de cansaço." (pp. 372-373)
Chama-se "Oriente próximo", muito possivelmente, porque não ocorreu à autora um título que, em pleno 2024, seria certamente mais adequado: "Humanidade precisa-se!". É, sem qualquer dúvida, uma das melhores leituras que fiz nos últimos tempos - e digo isto abstendo-me de fazer qualquer comentário sobre a prosa brilhantemente poética de Alexandra Lucas Coelho, de quem já li excertos de obras anteriores e cujo trabalho sigo, sempre que posso, no jornal Público.