Livro lido 1°/Ago//38°/2017
Título: Ilusões Perdidas
Título original: Illusions Perdues
Publicação original: entre 1836 e 1843
Autor: Honoré de Balzac (França)
Editora: @globolivros (Biblioteca Azul)
Publicado: 2013
Tradução: Paulo Rónai
Páginas: 792
Minha classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️
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Todas as vezes que contemplo o pequeno grande quadro de Edward Hopper, "Boulevard of Broken Dreams", numa livre tradução "Rua dos sonhos perdidos", é impossível não pensar em minha própria coleção de sonhos perdidos, aqueles que se eternizaram justamente por não terem se tornado realidade. Sonhos, ilusões perdidas, quem nunca?
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Esse insight eu tive com tamanha nitidez na conclusão dessa leitura extraordinária que foi Ilusões Perdidas. O romance é uma pequena partícula no grande projeto literário do escritor francês Honoré de Balzac, a portentosa A Comédia Humana, uma série de romances que, nas intenções do seu idealizador, abarcariam todas as facetas da vida humana.
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Composto por mais de 143 obras, entre romances, contos e novelas, muitas inconclusas, a A Comédia Humana não teve seu fim porque Balzac não suportou as pesadíssimas cargas de trabalho a que se impunha nos 21 anos que gastou em concebê-la. Diz-se que acordava antes do nascer do sol e, movido a doses cavalares de café, escrevia até as primeiras horas da madrugada. Tamanho esforço ceifou a vida do gênio Balzac aos 51 anos de idade, que se morreu pobre e sem a glória literária que lhe é devida.
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Mas, ainda que sem sua merecida conclusão, é inegável a qualidade da obra. Balzac não poupou em suas linhas a crueza, a hipocrisia, as intenções fesceninas com que seus personagens se moviam. E o que dirá a absurda atualidade de sua Comédia, mesmo tendo sido escrita em meados do século XIX.
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É o caso de Ilusões Perdidas. Nesse romance nos é apresentado o jovem Luciano Chardon de Rubempré, um poeta desconhecido que, nascido numa pequena cidade provinciana, Angoulême, anseia ver seus livros publicados e com eles atingir o sucesso. Incentivado por sua amante, a Srª de Bargeton, parte para a capital francesa, onde logo sente o primeiro baque nos seus sonhos pueris de reconhecimento literário: se vê abandonado pela amante e, mal vestido, mal alimentado, o pouco dinheiro trazido quase escasso, conhece uma sociedade de amigos literatos onde recebe o reconhecimento e o incentivo para voltar a nutrir suas expectativas.
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Mas Luciano, já menos ingênuo e lentamente corrompido pela boêmia parisiense, busca as facilidades da vida, os prazeres e a consegue, ainda que curta, se lançar jornalista onde pode utilizar da pena para servir ao interesse escuso dos jornais de Paris. Lentamente vai se afundando no meio sórdido da imprensa, se regalando numa vida de dândi com a amante Corália, e no vício da jogatina, onde rapidamente torra suas já parcas economias, levando-o à completa ruína. Sua perfidez chega a tanto que falsifica a assinatura do cunhado, o tipógrafo David Sechard, cujo dinheiro tenta saldar as enormes dívidas que fez no jogo e na vida burguesa que vem tentando manter.
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Humilhado, é obrigado a voltar a sua terra natal, onde descobre que David se tornou foragido da justiça devido às letras de empréstimo que tomou em nome deste. Luciano percebe, afinal, quantas Ilusões nutria, e como elas foram destruídas pela ambição dos homens que, embora tenham jurado amizade ao pobre poeta de Angoulême, na verdade conspiraram para sua derrocada. Luciano se vê no dilema de dar cabo a sua imprestável vida...
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A atualidade deste romance, para muitos o mais importante de toda a Comédia, é extraordinária em tempos de uma mídia detestavelmente hipócrita e parcial. O fiel retrato do que acontece dentro dos jornais, de como os interesses pessoais de alguns poderosos se sobrepõem à imparcialidade da notícia, a forma vil como são destruídos os pequeninos em prol do reles desejo do editor, tudo isso você vê nas páginas balzaquiana (sim, o termo "balzaquiana" é advindo de outro romance seu, A mulher de trinta anos, que li é achei muito ruim..). Alguma coincidência? De qualquer forma, se vivo hoje, Balzac chegaria à conclusão que na verdade a genuína Comédia é esta de hoje a que estamos fadados a suportar.