No início deste mês, como se nada mais neste país fosse motivo de clamor e pesar, um dos grupos parlamentares que nos representa anunciou um voto de protesto contra a transmissão de um episódio de desenhos animados na RTP2*. Esta nova manifestação do eterno lápis azul, quanto mais não fosse, recordou-me um episódio idêntico, em 2020, quando a mesma estação de televisão pública recebia uma forte contestação pela transmissão, adivinharam, de outro episódio de desenhos animados. Na altura, como agora, aquilo que aflige os censores públicos é, essencialmente, uma e a mesma coisa. Hoje chocaram-se com a admissão de que existem identidades transgénero (coisa que algumas pessoas ainda suspeitam ser pura ficção), na altura chocaram-se com a existência de identidades homossexuais. Que é como quem diz, chocaram-se com a liberdade e autodeterminação sexual - e, não nos enganemos, com a possibilidade de as mulheres controlarem a sua fertilidade - que é algo que, no dicionário de certas facções, simplesmente não merece entrada. Aliás, vale bem a pena lembrar o repúdio nas palavras dos nossos representantes, que não parecem escandalizar-se com a xenofobia, a violência doméstica nem com o abuso sexual de crianças como se enojam com demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo género ou com a possibilidade de que alguém possa não se identificar com uma norma profundamente patriarcal e retrógrada.
Mas voltemos ao início. Em questão, na queixa de 2020, estava um episódio da série Culottées** (Destemidas, em Portugal), concretamente o epis��dio que apresentava a história de Therese Clerc, ativista do Maio de 68, que consta do volume 2 desta coleção - uma biografia que, curiosamente, não causou pruridos apenas no nosso país pois, segundo a autora, foi-lhe pedido pela editora polaca que eliminasse esta história do livro. Bagieu não [a]cedeu.
Curioso também, já agora, é dar uma espreitadela num, digamos, IMDB - uma daquelas plataformas que lista as preferências dos consumidores de séries de TV e filmes -, e reparar que Culottées atinge uns meras 5,9/10 estrelas, num total pouco abismal de 85 avaliações (oito das quais são de utilizadores portugueses que lhe atribuem entre sete e dez estrelas!). Todos sabemos o que esta amostra praticamente invisível significa.
De qualquer forma, perante o déjà vu deste mês, não era tarde nem cedo para repescar estes dois livrinhos da estante - até porque, apesar de ter visto cada episódio da série, nunca tinha chegado ao final do segundo volume. E Destemidas, na sua versão de novela gráfica, mesmo para quem viu a versão animada, não desaponta.
Num deleite visual sem par, que conta com uma paleta de cores minimalista e com muitas ilustrações de página inteira, este primeiro volume faz-nos chegar 15 biografias de mulheres que vêm de diferentes meios e latitudes, reconhecidas ou esquecidas, umas destinadas a grandes feitos, outras criadas na discrição e no anonimato. Audaciosas ou modestas na sua forma de reclamar um lugar para si mesmas, heróicas cada uma à sua maneira, as biografadas ultrapassaram obstáculos gigantescos - físicos e morais - sem ceder o seu direito de existir como formulações íntegras do enorme espectro que é ser mulher. Bagieu soube escolher, e a seleção não é, de todo, fácil.
Entre guerreiras, resistentes, atrizes, escritoras, rainhas e exploradoras, destaco, sem qualquer desmerecimento das restantes biografias, a história de Leymanh Gbowee - Nobel da paz que conseguiu restituir a Libéria a um sistema democrático, recorrendo à greve ao sexo (gostaria de ver a reação de Aristófanes); Georgina Reid - uma perfeita desconhecida, não fora o facto de ter salvado um marco histórico à conta de quase 20 anos de trabalho árduo e altruísta; ou Tove Jansson - criadora dos famosos Mumins, cujo sonho era, apenas, ser feliz.
Nas entrelinhas, de forma subtil, desenham-se também os retratos de outras mulheres que souberam estar lá para se amparar entre si: irmãs que apoiam irmãs a qualquer preço, mães que são verdadeiros exemplos para as filhas, amigas que ajudam amigas nas alturas mais difíceis...
Cada uma à sua maneira, estas são mulheres que só fazem o que querem. Haverá, hoje, melhor exemplo?
*O episódio de Sex Symbols que tanto escandalizou os membros do parlamento português está ainda - com ênfase no "ainda" - disponível na RTP Play.
**As três dezenas de episódios que perfazem a série Destemidas estão também disponíveis no YouTube e só pecam por durar apenas 4 minutos cada um.