José Murilo de Carvalho apresenta dois personagens em conflito mútuo. Um, mais conhecido, é o Imperador d. Pedro II, que governou o Brasil por quase meio século. O outro é Pedro d'Alcântara, cidadão comum, que amava as ciências e as letras tanto quanto detestava as pompas do poder. D. Pedro II governou o Brasil por quase meio século, de 1840 até a proclamação da República, em 1889. Durante todo esse tempo fez de tudo para se adequar ao padrão de equilíbrio e austeridade do governante perfeito, sempre racional e dedicado aos interesses do país. Mas, em privado, Pedro d'Alcântara passou a detestar cada vez mais as solenidades públicas e viver o exercício do poder como um fardo. É essa figura contraditória, ao mesmo tempo majestática e rebelde, que José Murilo de Carvalho descreve nesta biografia que vai muito além do retrato convencional do imperador imponente, com suas longas barbas brancas e seus penetrantes olhos azuis. Ser ou não ser era o dilema de um homem que oscilava entre a coroa imperial de d. Pedro II e a cartola comum de Pedro d'Alcântara. Dando igual atenção a ambas as facetas do monarca, o historiador o revela como uma personalidade complexa e torturada entre o dever e o desejo, o Estado e as paixões pessoais. Por um lado, ficamos assim conhecendo a atuação política de um monarca que procurou manter a moderação nas lutas políticas do seu tempo, teve a coragem de preservar a liberdade de imprensa e conduziu o Império à vitória na Guerra do Paraguai. Por outro, vem à tona a figura de um homem tímido, oprimido pelo próprio poder, às vezes inconformado com os sacrifícios pessoais que lhe eram exigidos e, sobretudo, nem sempre capaz de conter suas paixões - como a que por décadas o ligou à preceptora de suas filhas, a condessa de Barral.
José Murilo de Carvalho é um cientista político e historiador brasileiro, membro desde 2005 da Academia Brasileira de Letras. Junto com o jurista e professor Celso Lafer, é o único historiador brasileiro a ser membro dessa Academia e também da Academia Brasileira de Ciências.
Professor da Universidade Federal de Minas Gerais e do IUPERJ por vinte anos, é também professor titular de História do Brasil no Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
José Murilo de Carvalho é o sexto ocupante da Cadeira 5 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 11 de março de 2004, na sucessão de Rachel de Queiroz. Foi recepcionado em 10 de setembro de 2004 pelo acadêmico Affonso Arinos de Mello Franco.
A melhor coisa de ter lido esse livro foi, de longe, ganhar um motivo para deixar de ter (tanta) inveja dos sul africanos por eles terem Mandela, enquanto a gente tem tido uma sucessão de políticos que vão do medíocre ao criminoso. Pedro de Alcântara está, sem exagero, na categoria de herói. Tinha um salário, mantido o mesmo ao longo dos 50 anos do segundo reinado, e não foram poucas as ofertas de aumento que lhe fizeram, todas recusadas. Era culto, educado, liberal, defensor das mulheres, da abolição da escravatura, da cultura, da educação, da república e da democracia. Eu, que adoro a revolução francesa e cresci tendo alergia a monarquias em geral, estou feliz de ter lido um pouco sobre a vida dessa figura tão interessante, de quem eu não sabia quase nada.
"Que medo poderia eu ter? De que me tirassem o governo? Muitos melhores reis do que eu o têm perdido, e eu não lhe acho senão o peso duma cruz que carrego por dever. Tenho ambição de servir a meu país, mas quem sabe não serviria melhor noutra posição? Em todo caso, jamais deixarei de cumprir meus deveres de cidadão brasileiro."
O livro de José Murilo de Carvalho sobre o perfil de Dom Pedro II é informativo e envolvente em cada um de seus breves capítulos.
No entanto, apresenta um interessante “efeito gangorra”: embora se proponha a ser essencialmente biográfico, o autor, em diversos momentos, interrompe a narrativa para inserir dados históricos, datas, nomes e contextualizações potencialmente aprofundadas que, contudo, acabam sendo subitamente interrompidas, como se, no meio da escrita, ele se lembrasse de que estava compondo uma biografia e precisasse retomar o foco em frases de efeito e episódios anedóticos.
Esse movimento é curioso e não diminui o mérito da obra, é claro. Pelo contrário, o livro vale muito a leitura e cumpre bem seu propósito de traçar o perfil do último monarca brasileiro: um rei erudito, porém relutante e porventura perdido em meio à construção de um Brasil desigual e contraditório.
Pensar no momento em que lemos cada livro diz muito sobre nós. Ouvi dizer certa vez que a única maneira descente de autobiografia é a crítica literária e devo concordar. Sou uma historiadora torta, mas apaixonada e meu historiador preferido é José Murilo de Carvalho. Li vários dos seus livros e sempre me senti transportadas pelas suas palavras ao Brasil que é mais original e que eu não conheci. Escolhi ler "Dom Pedro II" nas férias de 2011 para 2012, antes de começar o primeiro ano do mestrado. Me reencontrei com a minha simpatia pela família real. Dona Leopoldina, mulher tão apaixonada e inteligente, que morreu de desamor nos mais tristes trópicos, deu à luz esse filho que foi o governante mais duradouro de nosso país. Dom Pedro II é um homem de gênio bom, amoroso, culto e cheio de vontade de acertar. Gostei especialmente das cartas a condessa de Barral e das partes que tratam sobre suas viagens a Europa. Me entristeci com a Guerra do Paraguai, com a teimosia do monarca (num mundo em que não cabiam mais monarquias) que nos impeliu essa herança vergonhosa de assassinos. Os burburinhos republicanos, o último baile, dito por José Murilo como uma "massada", a princesa Isabel carola, a expulsão da família real na madrugada, como se fossem criminosos, tudo isso é muito emocionante e eloquente sobre a república que se sucedeu. Livro excelente.
Meu professor de História do Brasil recomendou esse livro como uma biografia de D. Pedro II. O livro de fato cumpre bem a tarefa de narrar a história do imperador do Brasil, mas acho que está mais para livro de História do que para biografia. Falta a ele aqueles detalhes da vida do biografado, aquelas fofocas e anedotas que tornam uma biografia interessante. Fora isso, D. Pedro II é uma leitura agradável, com linguagem clara e objetiva, e capítulos curtinhos (o que pra mim, que li esse livro em pequenos intervalos de 5 ou 10 minutos) é excelente). Outro ponto positivo é o fato de haver uma cronologia no final do livro, relacionando os principais fatos da história de D. Pedro II e do Brasil com o que estava acontecendo no mundo na mesma época. Serve bem para apresentar o monarca àqueles que não conhecem sua história, mas deixa ainda bastante espaço para uma abordagem mais profunda.
O livro aborda a vida e a personalidade do imperador brasileiro, destacando a sua aversão a cerimônias e rituais da monarquia. Dom Pedro II preferia ser tratado como Pedro de Alcântara, evitando pompa e protocolo. Desde jovem, foi preparado para o trono sob a tutela de educadores, evidenciando seu intelecto ao aprender vários idiomas, incluindo inglês, sânscrito e hebraico, mesmo durante seu exílio. As suas viagens ao exterior, como à Europa e aos Estados Unidos, mostraram sua habilidade diplomática e conquistaram admiração internacional pela sua simplicidade e humildade. Ele se destacou por não apenas pagar suas próprias despesas, mas também por financiar estudos de jovens talentosos, inclusive de mulheres, promovendo o acesso à educação superior em um período em que isso era restrito. O livro revela a dedicação de Dom Pedro II em ser um exemplo de liderança e educação, não apenas através do trono, mas também em ações concretas voltadas para o progresso da sociedade.O autor destaca a vida pessoal de Dom Pedro II, enfatizando que seu casamento com a imperatriz Teresa Cristina não foi impulsionado por amor, mas por questões dinásticas. A primeira impressão de Dom Pedro ao conhecê-la foi decepcionante, ao perceber que a imagem recebida não correspondia à realidade. Com o tempo, Dom Pedro II encontrou na imperatriz um apoio, apesar de suas limitações. A figura notável da Condessa de Barral entrou na vida do imperador, proporcionando não apenas um romance, mas também um intercâmbio intelectual que ele valorizava. Sua relação com a condessa era profunda, permitindo a Dom Pedro expressar suas inseguranças e dilemas políticos. Além disso, a obra aborda a abolição da escravidão, revelando a reatividade do imperador ao ser informado da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, que estava na Europa devido a problemas de saúde. O autor ressalta a revolta da princesa ao enfrentar a pressão política e social decorrente de sua decisão e a percepção de que a medida causaria uma revolução. Também é mencionado o impacto intelectual da Condessa sobre Dom Pedro II, que a considerava uma mente superior e confidente. A relevância histórica de Dom Pedro é relembrada como uma referência ao que a liderança poderia ser, contrastando com a desilusão atual com a classe política.
D. Pedro II foi imperador do Brasil entre 1840 e 1889. Foram 49 anos de governo. Suas contribuições foram extraordinárias: consolidou a unidade do país, trabalhou para a abolição da escravidão, lançou as bases do sistema representativo, garantiu ampla e irrestrita liberdade de imprensa. Sua estatura política tem muito a ensinar.
Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, D. Pedro II foi um apaixonado pelo Brasil. Órfão da nação desde cedo, ele foi criado e educado para ser um político dedicado ao interesse nacional. Tornou-se um estadista erudito respeitado por todo o mundo europeu.
Em suas cartas, D. Pedro II dizia ser servo da Constituição e se tornou internacionalmente reconhecido por sua defesa da liberdade de imprensa. Mesmo quando fortemente atacado por jornais, ele não reagia com punições e cerceamento de liberdade.
Ao longo de seu governo, D. Pedro II nunca aceitou aumento de remuneração e não acumulava dinheiro usando o Estado para o próprio benefício. Em viagens privadas, não usava dinheiro público. Em defesa do Brasil, arriscou a própria vida na campanha da guerra contra o Paraguai. Para ele, o Brasil precisava reagir para ser honrado.
D. Pedro II foi um patriota e simpatizante do republicanismo. Dizia preferir ser presidente a imperador constitucional. Tinha também forte posição contra a escravidão, contribuindo para o fim do tráfico de escravos e para a causa abolicionista.
Militares republicanos tramaram o golpe, traindo D. Pedro II. Sua postura foi de aceitar a expulsão do país e não revidar os militares golpistas. Rejeitou qualquer ideia que pudesse derramar sangue. Ao falecer em Paris, sua estatura política foi amplamente reconhecida por todo o mundo.
D. Pedro II foi um estadista cuja história tem muito a ensinar a uma República fraturada por polarização, cuja liberdade de imprensa é ameaçada por setores intocáveis das elites, cuja Suprema Corte custa mais do que uma família real, cujo Congresso é corporativista e patrimonialista, e cujo Executivo adora esbanjar o dinheiro dos outros.
Obra valiosa sobre o maior líder que nosso país já teve, homem íntegro, erudita, patriota e que teve como seu único pecado não ter lutado mais pelo regime monárquico no Brasil, que é tido pelo autor como muito mais livre que nossos vizinhos os quais proclamaram a república e eram comandados por generais (como o Brasil viria a ser).
Mais um livro de história do que uma biografia, o livro cadencia os acontecimentos e temas importantes do período ao redor da vida de D. Pedro II, homem que por bem ou por mal inventou o país chamado Brasil.
O conteúdo desse livro é de uma magnificência extraordinária, penso que li esse livro em 2 dias quando tinha 16 anos, muito me surpreendeu a cultura e a formação do Imperador.